História, Memória e Fotografia – Resenha de “Lentes, memórias e histórias: os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990)”, de Cândida Oliveira

Resenhado por Antônio Fernando de Araújo Sá (UFS) | 25 abril 2022.


Cândida Oliveira | Foto: Adilson Andrade/Ascom UFS

Lentes, memórias e histórias: os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990) é o livro de Cândida Oliveira, jornalista e mestre em História, lançado no final do ano passado. O livro é produto de dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Sergipe, em 2020, sob a orientação do professor Claudefranklin Monteiro Santos, e sob o crivo da seleta banca: os também professores Antônio Lindvaldo Souza e Edna Maria Matos Antonio, da Universidade Federal de Sergipe, e Severino Vicente da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco.

O subtítulo que enuncia o objeto do livro é curioso para muitos. A expressão “lambe-lambe” está dicionarizada como “fotógrafo ambulante” e designa, literalmente, um dos atos da sua produção: “testar [com a língua] qual era o lado do papel fotográfico que tinha a emulsão” para não correr o risco de perder o “foco” e a “nitidez” da fotografia (Moraes, 2013, p.166). Esse processo e a estratégia de capturar imagens e vendê-las imediatamente, nas ruas, praças ou em estabelecimentos provisórios, disseminou-se na passagem do século XIX para o XX – e não é improvável que sobreviva em muitos lugares do Brasil. Cândida Oliveira já pesquisava esse assunto desde 2005, revelando conhecimento do objeto de pesquisa e convívio com os fotógrafos entrevistados, o que lhe deu a empatia necessária para a utilização da metodologia da história oral.

Essa investigação me interessou duplamente. Como fotógrafo amador e especialista em memória local, me chamou a atenção o valor que uma jornalista profissional atribuiu à relação memória, história e fotografia, partindo da experiência de trabalhadores que, há poucas décadas, ocupavam aquele final da avenida Coelho e Campos, no centro de Aracaju, servindo a baixo custo e de modo rápido.

O segundo ponto de interesse foi o potencial heurístico que as fotografias ocupam no ofício do historiador. As relações entre fotografia e história têm sido objeto de reflexões em torno dos critérios operacionais de pesquisa e análise das fontes, bem como sua interpretação como documentos históricos portadores de múltiplas significações. Para Boris Kossoy (1989), as fontes fotográficas devem ser questionadas por parte do sujeito do conhecimento em relação ao objeto da investigação, seja no que diz respeito à reconstituição do processo que deu origem ao documento em si, seja à devida interpretação do fragmento visual da realidade passada nele contido. As imagens capturadas mundo afora “são documentos para a história e para a história da fotografia”. A pesquisa histórica que utiliza essas fontes, afirma o autor, não pode “prescindir dos conhecimentos advindos das histórias da técnica fotográfica e dos fotógrafos, aqui entendidos como autores daquelas fontes que atuaram em diferentes períodos” (Kossoy, 1989, p. 16, 20).

O livro de Cândida Oliveira se insere, nesse debate, a partir dos fotógrafos lambe-lambes que atuaram (e atuam) no centro urbano de Aracaju, na capital do estado de Sergipe, no período de 1950 a 1990. Utilizando-se da metodologia da história oral, ela reconstruiu os lugares de ofício dessa categoria profissional na praça General Valadão e no Mercado Central, no contexto das transformações urbanas do centro histórico da cidade. Ao mesmo tempo, expôs os desafios enfrentados por esses profissionais ante os avanços tecnológicos que tornaram a câmera fotográfica acessível para amplos setores sociais.

Quem, como eu, já chegou aos cinquenta anos, sabe bem diferenciar aquela grande caixa de madeira que acondicionava uma máquina fotográfica e viabilizava a produção da foto em laboratório ambulante e um pequeno chip que captura imagens e os reproduz, instantaneamente na tela de um smartphone. Essa leitura sob o ponto de vista das mudanças tecnológicas se aproxima da pesquisa que desenvolvi na década de 1990 sobre os barbeiros nessa área urbana, em que foram tomados como símbolos da resistência às transformações do mundo do trabalho e, ao mesmo tempo, proporcionaram uma contribuição para a História de Aracaju, por um ângulo pouco comum, na historiografia sergipana (Sá, 2021, p. 74-88).

A busca pela “origem da fotografia na história moderna” e da história da fotografia no Brasil, nos capítulos iniciais, acabou por tomar quase a metade da publicação, preterindo a parte mais importante de sua contribuição que foi a conformação do ofício profissional com a descrição do maquinário utilizado e a identificação dos fotógrafos lambe-lambes na segunda metade do século XX, bem como a composição do seu cenário de atuação na Praça e no Mercado, com o atendimento da população mais pobre no centro urbano da cidade.

Foto Oití, na Av. Coelho e Campos, Aracaju (SE) | Acervo: Junior Gomes

Pela escrita da autora, somos informados de que o aprendizado do ofício era realizado, a partir da tradição familiar e da transmissão oral, comunicando os conhecimentos da montagem do equipamento e do processamento fotográfico pelas caixas de madeira com uma lente apoiada em um tripé. A fala de um dos fotógrafos, Salatiel Eduardo dos Santos, é emblemática sobre os ensinamentos do ofício por seu pai, fundamental para se tornar, posteriormente, fotógrafo do jornal Gazeta de Sergipe (p. 129).

O pano de fundo da crise do ofício foi identificado pela historiadora. Ela descreve o processo de modernização do centro urbano, as constantes transferências de lugares para o exercício do ofício, deixando clara a exclusão dessa categoria profissional por parte das ações da Prefeitura Municipal de Aracaju em diferentes momentos históricos, seja por conta da retirada da Praça General Valadão para a Avenida Coelho e Campos, em 1969, seja na reforma do Mercado Central, durante o mandato de João Augusto Gama (1997-2000).

Mesmo preteridos do processo de modernização urbana, com constantes expulsões dos lugares de atuação, os fotógrafos lambe-lambes sobrevivem, aos trancos e barrancos, nos últimos anos, no box n. 43 no Mercado Central da cidade. Hoje, são apenas três. Os fotógrafos agora utilizam câmeras digitais, adaptando-se ao mundo digital que lhe tomou parte considerável de sua clientela. Apesar das dificuldades advindas com a democratização da fotografia, os retratistas representam a resistência ao esmagamento da vida cultural de setores populares, ocasionado pelas intensas modificações sociais e econômicas, num processo de modernização excludente. No geral, são aposentados que precisam complementar as parcas rendas familiares de um salário de aposentadoria, exercendo seu ofício em condições precárias em um “ambiente insalubre, sem higienização, sem dignidade”, conforme resumiu Cândida Oliveira (p. 137).

A narrativa se encerra com a inclusão da pandemia dos dois últimos anos. Soa estranho ao corpo do texto, já que não faz parte da periodização proposta no plano de redação. Essa passagem reitera a falta de assistência do poder público municipal a esses profissionais da fotografia. Apesar de justificada, penso que esse trecho estaria melhor posicionado como um posfácio. Outro dado destoante do valor da obra está no trabalho de copidescagem. Há problemas redacionais no corpo do texto, como, por exemplo, a manutenção da palavra “dissertação” em várias partes, bem como a forma inadequada de referenciação das fontes, com relação às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

O livro, contudo, apresenta duas contribuições importantes à vida dos fotógrafos e à pesquisa sobre a memória: em primeiro lugar, a autora não se encerra na denúncia. Ela é propositiva quando defende a transformação do ofício em patrimônio imaterial. A iniciativa é plausível e viável e penso que o livro contribuiu, decisivamente, para avivar o debate sobre memória, patrimônio e cultura urbana. Em segundo lugar, o livro, ricamente ilustrado, é uma contribuição significativa para o desenvolvimento de novas abordagens da história do trabalho, em Sergipe, ressaltando a importância da metodologia da história oral para a promoção de uma nova concepção de história, uma interpretação clara de que todos, cidadãos comuns, somos parte do mesmo processo.

Referências

KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo: Ática, 1989 (Coleção Princípios).

Michaelis. Dicionário de Português Brasileiro. São Paulo: Melhoramentos, 2015. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/lambe-lambe/> Consultado em 07 abr. 2022.

MORAES, Rubens Nunes. De fotógrafo à retratista lambe-lambe. Revista Expedições: Teoria da História & Historiografia. Morrinhos, v.4, n.1, p.163-177, jan./jun., 2013. Disponível em< https://www.revista.ueg.br/index.php/revista_geth/article/view/1450> Capturado em 04 abr. 2022.

SÁ, Antônio Fernando de Araújo. À Margem da História Contemporânea de Sergipe: Memória e Democracia. Aracaju: Editora Criação, 2021.


Sumário de Lentes, memórias e histórias: Os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990)

  • Introdução
  • 1. Uma abordagem sobre a origem da fotografia na história moderna e as suas transformações
    • 1.1. O fotógrafo ambulante na Europa
    • 1.2. As máquinas fotográficas e seus avanços tecnológicos entre os séculos
  • 2. Nos clichês da fotografia: breve relato sobre a fotografia no Brasil e sua incorporação em Sergipe
    • 2.1. A fotografia oitocentista
    • 2.2. Sergipe de outrora: fragmentos do surgimento da fotografia na cidade de Aracaju entre 1950-1990
    • 2.3. Ofício e seus lugares de espaço: Praça General Valadão e Mercado aracajuano, o point da fotografia lambe-lambe em Sergipe
    • 2.4. A fotografia lambe-lambe: do ofício aos seus sujeitos
  • 3. Lembranças de um passado-presente: por meio das narrativas dos fotógrafos lambe-lambe
    • 3.1. Modernização social e afastamento dos profissionais do lambe-lambe
    • 3.2. Inauguração dos mercados e novos alojamentos
  • Considerações finais
  • Fontes

Resenhista

Antônio Fernando de Araújo Sá – Doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), professor do Departamento de História e do Mestrado em História da Universidade Federal de Sergipe e editor da Ponta de Lança– Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura. Publicou, entre outros títulos, Rio Sem História? Leituras sobre o Rio São Francisco (2018) e Entre sertões e representações: ensaios e estudos (2021). E-mail: [email protected].

 


Para citar esta resenha

OLIVEIRA, Cândida. Lentes, memórias e histórias: Os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990). Aracaju: EDISE, 2021. Resenha de: SÁ, Antônio Fernando de Araújo. História, Memória e Fotografia em Aracaju. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, p.47-51, maio/jun., 2022. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/?p=2736>

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© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, maio/jun. 2022 | ISSN 2764-2666

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História, Memória e Fotografia – Resenha de “Lentes, memórias e histórias: os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990)”, de Cândida Oliveira

Resenhado por Antônio Fernando de Araújo Sá (UFS) | 25 abril 2022.


Cândida Oliveira | Foto: Adilson Andrade/Ascom UFS

Lentes, memórias e histórias: os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990) é o livro de Cândida Oliveira, jornalista e mestre em História, lançado no final do ano passado. O livro é produto de dissertação defendida no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade Federal de Sergipe, em 2020, sob a orientação do professor Claudefranklin Monteiro Santos, e sob o crivo da seleta banca: os também professores Antônio Lindvaldo Souza e Edna Maria Matos Antonio, da Universidade Federal de Sergipe, e Severino Vicente da Silva, da Universidade Federal de Pernambuco.

O subtítulo que enuncia o objeto do livro é curioso para muitos. A expressão “lambe-lambe” está dicionarizada como “fotógrafo ambulante” e designa, literalmente, um dos atos da sua produção: “testar [com a língua] qual era o lado do papel fotográfico que tinha a emulsão” para não correr o risco de perder o “foco” e a “nitidez” da fotografia (Moraes, 2013, p.166). Esse processo e a estratégia de capturar imagens e vendê-las imediatamente, nas ruas, praças ou em estabelecimentos provisórios, disseminou-se na passagem do século XIX para o XX – e não é improvável que sobreviva em muitos lugares do Brasil. Cândida Oliveira já pesquisava esse assunto desde 2005, revelando conhecimento do objeto de pesquisa e convívio com os fotógrafos entrevistados, o que lhe deu a empatia necessária para a utilização da metodologia da história oral.

Essa investigação me interessou duplamente. Como fotógrafo amador e especialista em memória local, me chamou a atenção o valor que uma jornalista profissional atribuiu à relação memória, história e fotografia, partindo da experiência de trabalhadores que, há poucas décadas, ocupavam aquele final da avenida Coelho e Campos, no centro de Aracaju, servindo a baixo custo e de modo rápido.

O segundo ponto de interesse foi o potencial heurístico que as fotografias ocupam no ofício do historiador. As relações entre fotografia e história têm sido objeto de reflexões em torno dos critérios operacionais de pesquisa e análise das fontes, bem como sua interpretação como documentos históricos portadores de múltiplas significações. Para Boris Kossoy (1989), as fontes fotográficas devem ser questionadas por parte do sujeito do conhecimento em relação ao objeto da investigação, seja no que diz respeito à reconstituição do processo que deu origem ao documento em si, seja à devida interpretação do fragmento visual da realidade passada nele contido. As imagens capturadas mundo afora “são documentos para a história e para a história da fotografia”. A pesquisa histórica que utiliza essas fontes, afirma o autor, não pode “prescindir dos conhecimentos advindos das histórias da técnica fotográfica e dos fotógrafos, aqui entendidos como autores daquelas fontes que atuaram em diferentes períodos” (Kossoy, 1989, p. 16, 20).

O livro de Cândida Oliveira se insere, nesse debate, a partir dos fotógrafos lambe-lambes que atuaram (e atuam) no centro urbano de Aracaju, na capital do estado de Sergipe, no período de 1950 a 1990. Utilizando-se da metodologia da história oral, ela reconstruiu os lugares de ofício dessa categoria profissional na praça General Valadão e no Mercado Central, no contexto das transformações urbanas do centro histórico da cidade. Ao mesmo tempo, expôs os desafios enfrentados por esses profissionais ante os avanços tecnológicos que tornaram a câmera fotográfica acessível para amplos setores sociais.

Quem, como eu, já chegou aos cinquenta anos, sabe bem diferenciar aquela grande caixa de madeira que acondicionava uma máquina fotográfica e viabilizava a produção da foto em laboratório ambulante e um pequeno chip que captura imagens e os reproduz, instantaneamente na tela de um smartphone. Essa leitura sob o ponto de vista das mudanças tecnológicas se aproxima da pesquisa que desenvolvi na década de 1990 sobre os barbeiros nessa área urbana, em que foram tomados como símbolos da resistência às transformações do mundo do trabalho e, ao mesmo tempo, proporcionaram uma contribuição para a História de Aracaju, por um ângulo pouco comum, na historiografia sergipana (Sá, 2021, p. 74-88).

A busca pela “origem da fotografia na história moderna” e da história da fotografia no Brasil, nos capítulos iniciais, acabou por tomar quase a metade da publicação, preterindo a parte mais importante de sua contribuição que foi a conformação do ofício profissional com a descrição do maquinário utilizado e a identificação dos fotógrafos lambe-lambes na segunda metade do século XX, bem como a composição do seu cenário de atuação na Praça e no Mercado, com o atendimento da população mais pobre no centro urbano da cidade.

Foto Oití, na Av. Coelho e Campos, Aracaju (SE) | Acervo: Junior Gomes

Pela escrita da autora, somos informados de que o aprendizado do ofício era realizado, a partir da tradição familiar e da transmissão oral, comunicando os conhecimentos da montagem do equipamento e do processamento fotográfico pelas caixas de madeira com uma lente apoiada em um tripé. A fala de um dos fotógrafos, Salatiel Eduardo dos Santos, é emblemática sobre os ensinamentos do ofício por seu pai, fundamental para se tornar, posteriormente, fotógrafo do jornal Gazeta de Sergipe (p. 129).

O pano de fundo da crise do ofício foi identificado pela historiadora. Ela descreve o processo de modernização do centro urbano, as constantes transferências de lugares para o exercício do ofício, deixando clara a exclusão dessa categoria profissional por parte das ações da Prefeitura Municipal de Aracaju em diferentes momentos históricos, seja por conta da retirada da Praça General Valadão para a Avenida Coelho e Campos, em 1969, seja na reforma do Mercado Central, durante o mandato de João Augusto Gama (1997-2000).

Mesmo preteridos do processo de modernização urbana, com constantes expulsões dos lugares de atuação, os fotógrafos lambe-lambes sobrevivem, aos trancos e barrancos, nos últimos anos, no box n. 43 no Mercado Central da cidade. Hoje, são apenas três. Os fotógrafos agora utilizam câmeras digitais, adaptando-se ao mundo digital que lhe tomou parte considerável de sua clientela. Apesar das dificuldades advindas com a democratização da fotografia, os retratistas representam a resistência ao esmagamento da vida cultural de setores populares, ocasionado pelas intensas modificações sociais e econômicas, num processo de modernização excludente. No geral, são aposentados que precisam complementar as parcas rendas familiares de um salário de aposentadoria, exercendo seu ofício em condições precárias em um “ambiente insalubre, sem higienização, sem dignidade”, conforme resumiu Cândida Oliveira (p. 137).

A narrativa se encerra com a inclusão da pandemia dos dois últimos anos. Soa estranho ao corpo do texto, já que não faz parte da periodização proposta no plano de redação. Essa passagem reitera a falta de assistência do poder público municipal a esses profissionais da fotografia. Apesar de justificada, penso que esse trecho estaria melhor posicionado como um posfácio. Outro dado destoante do valor da obra está no trabalho de copidescagem. Há problemas redacionais no corpo do texto, como, por exemplo, a manutenção da palavra “dissertação” em várias partes, bem como a forma inadequada de referenciação das fontes, com relação às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

O livro, contudo, apresenta duas contribuições importantes à vida dos fotógrafos e à pesquisa sobre a memória: em primeiro lugar, a autora não se encerra na denúncia. Ela é propositiva quando defende a transformação do ofício em patrimônio imaterial. A iniciativa é plausível e viável e penso que o livro contribuiu, decisivamente, para avivar o debate sobre memória, patrimônio e cultura urbana. Em segundo lugar, o livro, ricamente ilustrado, é uma contribuição significativa para o desenvolvimento de novas abordagens da história do trabalho, em Sergipe, ressaltando a importância da metodologia da história oral para a promoção de uma nova concepção de história, uma interpretação clara de que todos, cidadãos comuns, somos parte do mesmo processo.

Referências

KOSSOY, Boris. Fotografia e História. São Paulo: Ática, 1989 (Coleção Princípios).

Michaelis. Dicionário de Português Brasileiro. São Paulo: Melhoramentos, 2015. Disponível em: < https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/lambe-lambe/> Consultado em 07 abr. 2022.

MORAES, Rubens Nunes. De fotógrafo à retratista lambe-lambe. Revista Expedições: Teoria da História & Historiografia. Morrinhos, v.4, n.1, p.163-177, jan./jun., 2013. Disponível em< https://www.revista.ueg.br/index.php/revista_geth/article/view/1450> Capturado em 04 abr. 2022.

SÁ, Antônio Fernando de Araújo. À Margem da História Contemporânea de Sergipe: Memória e Democracia. Aracaju: Editora Criação, 2021.


Sumário de Lentes, memórias e histórias: Os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990)

  • Introdução
  • 1. Uma abordagem sobre a origem da fotografia na história moderna e as suas transformações
    • 1.1. O fotógrafo ambulante na Europa
    • 1.2. As máquinas fotográficas e seus avanços tecnológicos entre os séculos
  • 2. Nos clichês da fotografia: breve relato sobre a fotografia no Brasil e sua incorporação em Sergipe
    • 2.1. A fotografia oitocentista
    • 2.2. Sergipe de outrora: fragmentos do surgimento da fotografia na cidade de Aracaju entre 1950-1990
    • 2.3. Ofício e seus lugares de espaço: Praça General Valadão e Mercado aracajuano, o point da fotografia lambe-lambe em Sergipe
    • 2.4. A fotografia lambe-lambe: do ofício aos seus sujeitos
  • 3. Lembranças de um passado-presente: por meio das narrativas dos fotógrafos lambe-lambe
    • 3.1. Modernização social e afastamento dos profissionais do lambe-lambe
    • 3.2. Inauguração dos mercados e novos alojamentos
  • Considerações finais
  • Fontes

Resenhista

Antônio Fernando de Araújo Sá – Doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB), professor do Departamento de História e do Mestrado em História da Universidade Federal de Sergipe e editor da Ponta de Lança– Revista Eletrônica de História, Memória & Cultura. Publicou, entre outros títulos, Rio Sem História? Leituras sobre o Rio São Francisco (2018) e Entre sertões e representações: ensaios e estudos (2021). E-mail: [email protected].

 


Para citar esta resenha

OLIVEIRA, Cândida. Lentes, memórias e histórias: Os fotógrafos Lambe-Lambes em Aracaju (1950-1990). Aracaju: EDISE, 2021. Resenha de: SÁ, Antônio Fernando de Araújo. História, Memória e Fotografia em Aracaju. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, p.47-51, maio/jun., 2022. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/?p=2736>

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© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, maio/jun. 2022 | ISSN 2764-2666

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