Questões de História Ambiental – Resenha de “História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas”, de Ilsyane Kmitta, Suzana Arakaki e Tânia Zimmermann.

Resenhado por  Jane Semeão (URCA) | 02 maio 2022


Suzana Arakaki Imagem: Dourados News

A obra História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas (2020) é uma coletânea de 7 textos, organizada pelas historiadoras Ilsyane Kmitta, Suzana Arakaki e Tânia Zimmermann, vinculadas à Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS-Amambai). O livro tem apresentação de Susana Cesco (UNIRIO) e reúne pesquisadores/as das regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste em torno da História Ambiental com destaque, especialmente, aos desafios teóricos-metodológicos e políticos que envolvem este campo de pesquisa no Brasil. Além dos artigos, possui também uma entrevista com Paulo Henrique Martinez, colhida no ano de 2018 por ocasião da XVI Semana Acadêmica de História da UEMS (campus de Amambai).

Ressente-se, logo de início, de algumas considerações das próprias organizadoras sobre as circunstâncias de confecção da obra. É de praxe, em um livro de coletâneas, que pode, ou não, ter a apresentação de algum/a convidado/a, encontrarmos algumas palavras dos/as próprios/as organizadores/as de agradecimento e esclarecimento sobre as condições de estruturação do livro e seu conteúdo. Assim, ficamos sem saber, por exemplo, o porquê da inserção de uma entrevista realizada em 2018 em um livro publicado dois anos depois. O material começou a ser gestado nesse momento, no âmbito do evento mencionado no parágrafo acima? E quanto à motivação e importância da temática sob a qual foram reunidos os artigos e expresso no título da obra?

Essas são algumas perguntas que surgem ao iniciarmos a leitura do material, especialmente quando revelado, em sua apresentação, que ele se destina, em grande medida, a alunos/as de graduação em História, futuros professore/as, com o objetivo de lhes possibilitar conhecer a História Ambiental como campo de pesquisa e de abordagem histórica no ensino básico. Suas organizadoras, inclusive, desenvolvem projetos de pesquisa, ensino e extensão em História Ambiental entre os/as discentes da UEMS. É também por Susana Cesco que tomamos conhecimento de outros objetivos das organizadoras, o de divulgação científica e aprofundamento do debate sobre as relações entre os humanos e a natureza como forma de contribuir para a consolidação do campo no Brasil.

Dessa forma, se diversificam as abordagens e temáticas da História Ambiental entre os textos publicados. Assim, no artigo de abertura, Eurípedes Funes e Kênia Rios enveredam pelos desafios teóricos e políticos do campo, desnaturalizando a própria ideia de natureza e meio ambiente, dialogando com conceitos e autores de outras áreas do conhecimento e evidenciando seu caráter transdisciplinar e político.

Ely Bergo de Carvalho, por sua vez, problematiza, a partir de uma análise comparativa entre livros didáticos de História e Geografia, a dissociação entre seres humanos e natureza, herança da sociedade moderna estruturada sob um pensamento mecanicista, e sua repercussão na organização dos conteúdos escolares dessas duas disciplinas, suas diferenças e implicações no que diz respeito à educação ambiental dos/as alunos/as. Argumenta o autor que a disjunção entre humanos e sistemas naturais, identificada nos livros analisados, dificulta a compreensão, por parte do público escolar, das problemáticas ambientais resultantes, precisamente, da correlação entre o “natural” e o “social”.

O artigo seguinte, de Samira Moretto, analisa o contexto de criação e implementação da disciplina História Ambiental tanto na Licenciatura (2018) quanto no Programa de Pós-graduação (2017) em História da Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Chapecó. Tal iniciativa teve uma dupla intenção: mostrar e firmar entre os/as aluno/as da instituição outras possibilidades de pesquisa histórica e promover a formação para o debate sobre o meio ambiente na disciplina histórica escolar – esta última, proposta em função do diagnóstico de que havia pouca inserção de temáticas ambientais nas escolas da região oeste de Santa Catarina. A partir desse estudo de caso, Moretto também nos proporciona conhecimento sobre a própria trajetória da inserção da História Ambiental no Brasil e sua transformação em componente curricular nas instituições de ensino superior do país.

Os pesquisadores Ilsyane Kmitta e Eudes Leite anunciam a utilização da imprensa jornalística com o propósito de demonstrar suas possibilidades de operação na pesquisa e ensino de história, especialmente no que diz respeito às relações entre meio ambiente e desenvolvimento econômico. Para tanto, valem-se de uma reportagem publicada em O Estado de São Paulo, de 1971, para relacionar o incremento de algumas atividades econômicas e o contexto da política desenvolvimentista da época. O texto, sem divisões, exige certo esforço do/a leitor/a para que não perca o fio da meada e faça, ele/a próprio/a ligações significativas entre ensino e a questão ambiental, que perdem força ao longo do artigo e nem, ao menos, são retomadas no parágrafo destinado às considerações finais.

O texto de Tânia Zimmermann e Juliano Delai, por sua vez, nos apresenta o desenvolvimento de um projeto de educação ambiental em Amambai, no Mato Grosso do Sul, envolvendo graduandos/as, em uma escola de Ensino Médio e moradores de alguns bairros da cidade. O trabalho ocorreu em 2016/2017 e foi intitulado de “Lixo e Sustentabilidade”, cujo objetivo foi discutir a relação entre problemas ambientais e geração de resíduos na área urbana do município. Além de apresentarem todas as etapas do projeto, os autores argumentam a importância da educação ambiental como ferramenta de formação cidadã e conscientização coletiva contra o consumo desenfreado e necessidade de preservação do mundo natural. O relato expõe, ademais, a importância de projetos desse tipo para a compreensão histórica das relações estabelecidas, ao longo do tempo, entre humanos/sociedade/cultura e natureza.

Imigrantes de Palmitos (SC), Familia de Conorato Kussler | Imagem: Acervo Municipal

Os autores Ademir Salini, Miguel Carvalho e Mirian Carbonera problematizam as consequências ambientais advindas do processo de colonização do oeste de Santa Catarina ao longo do século XX, ao apresentar alguns dos impactos da ação humana na natureza. Os aspectos naturais da região, como demonstram, foram utilizados pelas políticas de colonização empreendidas pelo Estado, em consórcio com empresas privadas, para atrair colonos a partir da divulgação de uma imagem de terras promissoras e de recursos inesgotáveis. A política de colonização desse espaço, como pôde ser apreendido, expõe características de exploração, degradação da natureza e transformação da paisagem natural que marcaram o processo de colonização do Brasil como um todo. O texto, nesse aspecto, ultrapassa os limites do oeste de Santa Catarina e possibilita uma reflexão sobre a manutenção do modelo de colonização predatória que tem avançado séculos após a chegada dos portugueses ao Brasil, suas consequências ambientais e a constituição de paisagens regionais.

O trabalho de João Carlos de Souza encerra a seção de artigos do livro. Nele, o autor nos apresenta uma experiência de agricultura familiar baseada no Sistema de Agrofloresta (SAF), em Dourados (MS), região em que predomina extensas áreas de monocultura de soja, cana e milho. A partir das entrevistas realizadas com um pequeno agricultor familiar em 2018, em que ele entrelaça sua história de vida a determinadas decisões, experiências e formas de se relacionar com a natureza, João Souza envereda pela História Ambiental ao problematizar as preocupações do agricultor com a preservação do meio ambiente, analisando, dessa maneira, a constituição de outras práticas (agroecológicas) de relação e intervenção no meio ambiente.

O livro possui, ainda, como dito no primeiro parágrafo, uma entrevista com Paulo Martinez. Nela, o historiador fala de sua trajetória de pesquisa na História Ambiental e, especialmente, das questões teóricas, metodológicas e políticas que envolvem o campo, somando-se, em alguma medida, ao conteúdo dos artigos. Com exceção do texto de Eurípedes Funes e Kênia Rios, que tem como cerne justamente uma discussão em torno dos desafios teórico-metodológicos e políticos da História Ambiental, nos demais autores/as, essas questões aparecem diluídas, por exemplo, no que se refere à sua definição e constituição como campo, à sua contribuição para a construção do conhecimento histórico, às suas abordagens e diálogo com outras áreas do conhecimento.

Quanto às questões políticas que envolvem a História Ambiental, estas são pontuadas, especialmente, quando são destacadas a necessidade de transformações nas relações entre humano e natureza como forma de garantias de futuro para a humanidade e, nesse propósito, no papel que os/as historiadores/as devem assumir na promoção do ensino, da pesquisa e extensão universitária em História Ambiental e Educação Ambiental nas instituições de ensino superior e escolar. A associação entre universidade, escola e sociedade contribui, assim, para a construção de uma consciência crítica e enfrentamento dos crescentes problemas ambientais que ameaçam nosso futuro.

No conjunto, e levando em consideração seu público-alvo principal (alunos de graduação), o livro fornece elementos quanto à institucionalização da História Ambiental e sua inserção no Brasil. O material, portanto, constitui uma boa contribuição para as discussões sobre o campo tanto no que se refere aos seus objetivos intelectuais quanto políticos, tendo em vista, especialmente, o atual contexto de retrocessos em políticas de preservação do meio ambiente promovidas pelo próprio governo brasileiro. O livro, no entanto, tem muitos problemas de diagramação e de revisão gramatical, o que faz com que a leitura não seja fluida em muitos pontos e que alguns gráficos e imagens tenham sua visualização prejudicadas.


Sumário de História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas

Apresentação

    1. História Ambiental: alguns desafios conceituais e políticos/Eurípedes Antonio Funes e Kenia Sousa Rios.
    2. Estilo(s) de pensamento na História e na Geografia: a diversidade e unidade na disjunção entre seres humanos e natureza/Ely Bergo de Carvalho.
    3. História Ambiental: um estudo de caso versando ensino e pesquisa na UFFS/Samira Peruchi Moretto.
    4. O ouro se foi, os rios e a terra empobreceram; agora é preciso buscar novas riquezas/ Ilsyane do Rocio Kmitta e Eudes Fernando Leite.
    5. Projetos de educação ambiental e sustentabilidade em Amambai- MS/Juliano Delai e Tânia Regina Zimmermann.
    6. As consequências ambientais da colonização do oeste catarinense: alguns apontamentos/Ademir Miguel Salini; Miguel Mundstock Xavier de Carvalho e Mirian Carbonera.
    7. O sistema agroflorestal no sítio Luciana em Dourados, MS: práticas, consciência ambiental e divulgação (2007-2018)/João Carlos de Souza.
    8. Meio ambiente, populações e democracia no Brasil contemporâneo- Entrevista de Paulo Henrique Martinez concedida a Ilsyane do Rocio Kmitta.

Resenhista

Jane SemeãoDoutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professora do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri (URCA) e editora do blog Resenha Crítica. Um “oásis” chamado Cariri: Instituto Cultural do Cariri, natureza, paisagem e construção identirária do sul cearense (1950-1970) e O que a Austrália tem nos ensinar?O Tempo Presente nos programas de História produzidos pela Australian Curriculum and Assessment Authority – ANCARA (2008-2013). IDhttps://orcid.org/0000-0001-6804-1640E-mailjanesemeã[email protected]

 


Para citar esta resenha

KMITTA, Ilsyane; ARAKAKI, Suzana; ZIMMERMANN, Tânia (orgs.). História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas. Vitória: Editora Mil Fontes, 2020. Resenha de: SEMEÃO, Jane. Questões de História Ambiental. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, abr./maio, 2022. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/2737/>

Baixar esta resenha em PDF


Outras resenhas de História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas

Michely Cristina RibeiroFronteiras- Revista Catarinense de História (2022)


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Foco e escopo

Publicamos resenhas de livros e de dossiês de artigos de revistas acadêmicas que tratem da reflexão, investigação, comunicação e/ou consumo da escrita da História. Saiba mais sobre o único periódico de História inteiramente dedicado à Crítica em formato resenha.

Corpo editorial

Somos professore(a)s do ensino superior brasileiro, especializado(a)s em mais de duas dezenas de áreas relacionadas à reflexão, produção e usos da História. Faça parte dessa equipe.

Submissões

As resenhas devem expressar avaliações de livros ou de dossiês de revistas acadêmicas autodesignadas como "de História". Conheça as normas e envie-nos o seu texto.

Pesquisa


Alertas

Acesso livre

Crítica Historiográfica não cobra taxas para submissão, publicação ou uso dos artigos. Os leitores podem baixar, copiar, distribuir, imprimir os textos para fins não comerciais, desde que citem a fonte.

Privacidade

Ao se inscrever nesta lista de e-mails, você estará sujeito à nossa política de privacidade.

Questões de História Ambiental – Resenha de “História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas”, de Ilsyane Kmitta, Suzana Arakaki e Tânia Zimmermann.

Resenhado por  Jane Semeão (URCA) | 02 maio 2022


Suzana Arakaki Imagem: Dourados News

A obra História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas (2020) é uma coletânea de 7 textos, organizada pelas historiadoras Ilsyane Kmitta, Suzana Arakaki e Tânia Zimmermann, vinculadas à Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS-Amambai). O livro tem apresentação de Susana Cesco (UNIRIO) e reúne pesquisadores/as das regiões Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste em torno da História Ambiental com destaque, especialmente, aos desafios teóricos-metodológicos e políticos que envolvem este campo de pesquisa no Brasil. Além dos artigos, possui também uma entrevista com Paulo Henrique Martinez, colhida no ano de 2018 por ocasião da XVI Semana Acadêmica de História da UEMS (campus de Amambai).

Ressente-se, logo de início, de algumas considerações das próprias organizadoras sobre as circunstâncias de confecção da obra. É de praxe, em um livro de coletâneas, que pode, ou não, ter a apresentação de algum/a convidado/a, encontrarmos algumas palavras dos/as próprios/as organizadores/as de agradecimento e esclarecimento sobre as condições de estruturação do livro e seu conteúdo. Assim, ficamos sem saber, por exemplo, o porquê da inserção de uma entrevista realizada em 2018 em um livro publicado dois anos depois. O material começou a ser gestado nesse momento, no âmbito do evento mencionado no parágrafo acima? E quanto à motivação e importância da temática sob a qual foram reunidos os artigos e expresso no título da obra?

Essas são algumas perguntas que surgem ao iniciarmos a leitura do material, especialmente quando revelado, em sua apresentação, que ele se destina, em grande medida, a alunos/as de graduação em História, futuros professore/as, com o objetivo de lhes possibilitar conhecer a História Ambiental como campo de pesquisa e de abordagem histórica no ensino básico. Suas organizadoras, inclusive, desenvolvem projetos de pesquisa, ensino e extensão em História Ambiental entre os/as discentes da UEMS. É também por Susana Cesco que tomamos conhecimento de outros objetivos das organizadoras, o de divulgação científica e aprofundamento do debate sobre as relações entre os humanos e a natureza como forma de contribuir para a consolidação do campo no Brasil.

Dessa forma, se diversificam as abordagens e temáticas da História Ambiental entre os textos publicados. Assim, no artigo de abertura, Eurípedes Funes e Kênia Rios enveredam pelos desafios teóricos e políticos do campo, desnaturalizando a própria ideia de natureza e meio ambiente, dialogando com conceitos e autores de outras áreas do conhecimento e evidenciando seu caráter transdisciplinar e político.

Ely Bergo de Carvalho, por sua vez, problematiza, a partir de uma análise comparativa entre livros didáticos de História e Geografia, a dissociação entre seres humanos e natureza, herança da sociedade moderna estruturada sob um pensamento mecanicista, e sua repercussão na organização dos conteúdos escolares dessas duas disciplinas, suas diferenças e implicações no que diz respeito à educação ambiental dos/as alunos/as. Argumenta o autor que a disjunção entre humanos e sistemas naturais, identificada nos livros analisados, dificulta a compreensão, por parte do público escolar, das problemáticas ambientais resultantes, precisamente, da correlação entre o “natural” e o “social”.

O artigo seguinte, de Samira Moretto, analisa o contexto de criação e implementação da disciplina História Ambiental tanto na Licenciatura (2018) quanto no Programa de Pós-graduação (2017) em História da Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Chapecó. Tal iniciativa teve uma dupla intenção: mostrar e firmar entre os/as aluno/as da instituição outras possibilidades de pesquisa histórica e promover a formação para o debate sobre o meio ambiente na disciplina histórica escolar – esta última, proposta em função do diagnóstico de que havia pouca inserção de temáticas ambientais nas escolas da região oeste de Santa Catarina. A partir desse estudo de caso, Moretto também nos proporciona conhecimento sobre a própria trajetória da inserção da História Ambiental no Brasil e sua transformação em componente curricular nas instituições de ensino superior do país.

Os pesquisadores Ilsyane Kmitta e Eudes Leite anunciam a utilização da imprensa jornalística com o propósito de demonstrar suas possibilidades de operação na pesquisa e ensino de história, especialmente no que diz respeito às relações entre meio ambiente e desenvolvimento econômico. Para tanto, valem-se de uma reportagem publicada em O Estado de São Paulo, de 1971, para relacionar o incremento de algumas atividades econômicas e o contexto da política desenvolvimentista da época. O texto, sem divisões, exige certo esforço do/a leitor/a para que não perca o fio da meada e faça, ele/a próprio/a ligações significativas entre ensino e a questão ambiental, que perdem força ao longo do artigo e nem, ao menos, são retomadas no parágrafo destinado às considerações finais.

O texto de Tânia Zimmermann e Juliano Delai, por sua vez, nos apresenta o desenvolvimento de um projeto de educação ambiental em Amambai, no Mato Grosso do Sul, envolvendo graduandos/as, em uma escola de Ensino Médio e moradores de alguns bairros da cidade. O trabalho ocorreu em 2016/2017 e foi intitulado de “Lixo e Sustentabilidade”, cujo objetivo foi discutir a relação entre problemas ambientais e geração de resíduos na área urbana do município. Além de apresentarem todas as etapas do projeto, os autores argumentam a importância da educação ambiental como ferramenta de formação cidadã e conscientização coletiva contra o consumo desenfreado e necessidade de preservação do mundo natural. O relato expõe, ademais, a importância de projetos desse tipo para a compreensão histórica das relações estabelecidas, ao longo do tempo, entre humanos/sociedade/cultura e natureza.

Imigrantes de Palmitos (SC), Familia de Conorato Kussler | Imagem: Acervo Municipal

Os autores Ademir Salini, Miguel Carvalho e Mirian Carbonera problematizam as consequências ambientais advindas do processo de colonização do oeste de Santa Catarina ao longo do século XX, ao apresentar alguns dos impactos da ação humana na natureza. Os aspectos naturais da região, como demonstram, foram utilizados pelas políticas de colonização empreendidas pelo Estado, em consórcio com empresas privadas, para atrair colonos a partir da divulgação de uma imagem de terras promissoras e de recursos inesgotáveis. A política de colonização desse espaço, como pôde ser apreendido, expõe características de exploração, degradação da natureza e transformação da paisagem natural que marcaram o processo de colonização do Brasil como um todo. O texto, nesse aspecto, ultrapassa os limites do oeste de Santa Catarina e possibilita uma reflexão sobre a manutenção do modelo de colonização predatória que tem avançado séculos após a chegada dos portugueses ao Brasil, suas consequências ambientais e a constituição de paisagens regionais.

O trabalho de João Carlos de Souza encerra a seção de artigos do livro. Nele, o autor nos apresenta uma experiência de agricultura familiar baseada no Sistema de Agrofloresta (SAF), em Dourados (MS), região em que predomina extensas áreas de monocultura de soja, cana e milho. A partir das entrevistas realizadas com um pequeno agricultor familiar em 2018, em que ele entrelaça sua história de vida a determinadas decisões, experiências e formas de se relacionar com a natureza, João Souza envereda pela História Ambiental ao problematizar as preocupações do agricultor com a preservação do meio ambiente, analisando, dessa maneira, a constituição de outras práticas (agroecológicas) de relação e intervenção no meio ambiente.

O livro possui, ainda, como dito no primeiro parágrafo, uma entrevista com Paulo Martinez. Nela, o historiador fala de sua trajetória de pesquisa na História Ambiental e, especialmente, das questões teóricas, metodológicas e políticas que envolvem o campo, somando-se, em alguma medida, ao conteúdo dos artigos. Com exceção do texto de Eurípedes Funes e Kênia Rios, que tem como cerne justamente uma discussão em torno dos desafios teórico-metodológicos e políticos da História Ambiental, nos demais autores/as, essas questões aparecem diluídas, por exemplo, no que se refere à sua definição e constituição como campo, à sua contribuição para a construção do conhecimento histórico, às suas abordagens e diálogo com outras áreas do conhecimento.

Quanto às questões políticas que envolvem a História Ambiental, estas são pontuadas, especialmente, quando são destacadas a necessidade de transformações nas relações entre humano e natureza como forma de garantias de futuro para a humanidade e, nesse propósito, no papel que os/as historiadores/as devem assumir na promoção do ensino, da pesquisa e extensão universitária em História Ambiental e Educação Ambiental nas instituições de ensino superior e escolar. A associação entre universidade, escola e sociedade contribui, assim, para a construção de uma consciência crítica e enfrentamento dos crescentes problemas ambientais que ameaçam nosso futuro.

No conjunto, e levando em consideração seu público-alvo principal (alunos de graduação), o livro fornece elementos quanto à institucionalização da História Ambiental e sua inserção no Brasil. O material, portanto, constitui uma boa contribuição para as discussões sobre o campo tanto no que se refere aos seus objetivos intelectuais quanto políticos, tendo em vista, especialmente, o atual contexto de retrocessos em políticas de preservação do meio ambiente promovidas pelo próprio governo brasileiro. O livro, no entanto, tem muitos problemas de diagramação e de revisão gramatical, o que faz com que a leitura não seja fluida em muitos pontos e que alguns gráficos e imagens tenham sua visualização prejudicadas.


Sumário de História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas

Apresentação

    1. História Ambiental: alguns desafios conceituais e políticos/Eurípedes Antonio Funes e Kenia Sousa Rios.
    2. Estilo(s) de pensamento na História e na Geografia: a diversidade e unidade na disjunção entre seres humanos e natureza/Ely Bergo de Carvalho.
    3. História Ambiental: um estudo de caso versando ensino e pesquisa na UFFS/Samira Peruchi Moretto.
    4. O ouro se foi, os rios e a terra empobreceram; agora é preciso buscar novas riquezas/ Ilsyane do Rocio Kmitta e Eudes Fernando Leite.
    5. Projetos de educação ambiental e sustentabilidade em Amambai- MS/Juliano Delai e Tânia Regina Zimmermann.
    6. As consequências ambientais da colonização do oeste catarinense: alguns apontamentos/Ademir Miguel Salini; Miguel Mundstock Xavier de Carvalho e Mirian Carbonera.
    7. O sistema agroflorestal no sítio Luciana em Dourados, MS: práticas, consciência ambiental e divulgação (2007-2018)/João Carlos de Souza.
    8. Meio ambiente, populações e democracia no Brasil contemporâneo- Entrevista de Paulo Henrique Martinez concedida a Ilsyane do Rocio Kmitta.

Resenhista

Jane SemeãoDoutora em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professora do Departamento de História da Universidade Regional do Cariri (URCA) e editora do blog Resenha Crítica. Um “oásis” chamado Cariri: Instituto Cultural do Cariri, natureza, paisagem e construção identirária do sul cearense (1950-1970) e O que a Austrália tem nos ensinar?O Tempo Presente nos programas de História produzidos pela Australian Curriculum and Assessment Authority – ANCARA (2008-2013). IDhttps://orcid.org/0000-0001-6804-1640E-mailjanesemeã[email protected]

 


Para citar esta resenha

KMITTA, Ilsyane; ARAKAKI, Suzana; ZIMMERMANN, Tânia (orgs.). História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas. Vitória: Editora Mil Fontes, 2020. Resenha de: SEMEÃO, Jane. Questões de História Ambiental. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, abr./maio, 2022. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/2737/>

Baixar esta resenha em PDF


Outras resenhas de História Ambiental: configurações do humano e tessituras teórico-metodológicas

Michely Cristina RibeiroFronteiras- Revista Catarinense de História (2022)


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Resenhistas

Privacidade

Ao se inscrever nesta lista de e-mails, você estará sujeito à nossa política de privacidade.

Acesso livre

Crítica Historiográfica não cobra taxas para submissão, publicação ou uso dos artigos. Os leitores podem baixar, copiar, distribuir, imprimir os textos para fins não comerciais, desde que citem a fonte.

Foco e escopo

Publicamos resenhas de livros e de dossiês de artigos de revistas acadêmicas que tratem da reflexão, investigação, comunicação e/ou consumo da escrita da História. Saiba mais sobre o único periódico de História inteiramente dedicado à Crítica em formato resenha.

Corpo editorial

Somos professore(a)s do ensino superior brasileiro, especializado(a)s em mais de duas dezenas de áreas relacionadas à reflexão, produção e usos da História. Faça parte dessa equipe.

Submissões

As resenhas devem expressar avaliações de livros ou de dossiês de revistas acadêmicas autodesignadas como "de História". Conheça as normas e envie-nos o seu texto.

Pesquisa


Alertas