Aprendendo com os politólogos – Resenha de “Analizar el auge de la ultraderecha”, de Beatriz Ugarte Acha

Resenhado por Dilton Cândido Santos Maynard (UFS/UFRJ) | 02 junho 2022


Beatriz Ugarte Acha (2020) Imagem: Metapolitica

Analizar el auge de la ultradereha é o mais recente livro de Beatriz Ugarte Acha. Natural de Vizcaya (1970), Acha é professora de Sociologia e Trabalho Social na Universidad del País Vasco.[i] Doutorou-se em Ciência Política com a tese Éxito y fracaso de los nuevos partidos de extrema derecha en Europa Occidental: el caso de los Republikaner en el Land de Baden-Württemberg (2017), defendida junto ao Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidad Autónoma de Madrid. A experiência da tese lhe permitiu estender e, simultaneamente, encurtar os marcos temporais e espaciais, estudando a ascensão dos Partidos de Extrema Direita (PUDs) na Europa e, de modo especial, na Espanha. Grande parte do livro, portanto, corresponde aos três primeiros capítulos da tese que pode ser consultada aqui. Com exceção do último capítulo, que trata do “assalto ao Capitólio” (onde faz considerações sobre o caráter pedagógico desse evento), o livro se estrutura no exame das trajetórias dos PUDs, ideologias, causas da sua ascensão, perfil dos seus votantes.

Na breve “Apresentação” da obra, Cristina Monge y Jorge Urdánoz disparam a ironia: “Ya somos europeus”. Com a frase, anunciam a chegada do multipartidarismo e da ultradireita à Espanha, entre 2015 e 2019, representados, respectivamente, pelos sucessos do 15 M, Podemos, Ciudadanos e, ainda, o Vox, a exemplo do que já havia acontecido com demais países da Europa. No primeiro capítulo – “Los partidos de ultraderecha y sus trayectorias” –, contudo, Beatriz Acha não dá sequência ao tom irônico e, de certa forma, amortece a proposição. Não é que o fenômeno dos PUDs na Espanha seja mais brando. O fato é que a ascensão dos partidos de ultradireita, em 14 países, entre 1996 e 2019, só aparentemente pode ser considerada exitosa. É certo que eles ampliaram o número de adeptos, organizações, líderes e votantes, que ganharam cadeiras nos parlamentos nacionais e até apoiam governos. Contudo, observados em suas trajetórias individuais, partidos, como a Frente Nacional, na França; o Partido do Progresso, da Noruega; e, o Partido da Liberdade, da Áustria, oscilam entre o sucesso, o fracasso e até a cisão, lutas intestinas ou motivadas pela perda de prestígio imediatamente após um atentado terrorista perpetrado por um membro partidário (o caso de Oslo).

No segundo capítulo – “Su ideologia” –, a autora descreve as ideias dominantes que orientam os PUDs. Pelo título do livro e a designação do seu objeto (PUDs), já sabemos que ela toma a “ultradireita” como “una categoria genérica que designa una nueva y amplia família de formaciones (relativamente) similares” (p.21). Esse é um ponto fraco do livro porque as duas tipificações que se seguem não são empregadas como apoio ou elemento de contestação direta na construção da definição de “ultradireita”. A primeira tipologia é tomada de Pietro Ignazi que, assim, a divide: partidos da “velha ou tradicional extrema direita”, marcados por atitudes antissistema, e partidos da “nova ou pós-industrial extrema direita”, marcados por atitudes antissistema e por sua ancoragem “no fascismo” (p.21). A segunda tipologia é tomada de Cas Mudde que tipifica a “extrema direita” em: “extrema direita”, caracterizada pelo combate à ideia de “soberania popular”, e “direita radical”, caracterizada pelo apoio “nominal” à democracia (p.23). Ao final, Beatriz Acha não explicita um alinhamento da sua “ultradireita” com a “extrema direita” (antissistema/antissistema e fascista) de Ignazi ou com a “extrema direita” (antissistema/nominalmente democrática) de Mudde, tampouco toma os valores democráticos do “pluralismo”, “igualdade” e “liberdade” civil e política como traço diacrítico entre novas e velhas direitas. Ela define a ideologia dos PUDs a partir das questões/temas programáticos desses partidos, que são: o combate à imigração (convertido em “imperativo de identidade”), o “ultranacionalismo” (que contradiz com a luta por uma Europa livre de imigrantes) e o reforço à “defesa da lei e da ordem” (defesa do aumento das penas, instituição da pena de morte e ampliação das forças policiais) e ao modo intenso (“radical/extremo”) como os PUDs defendem essas bandeiras. Para quem agora se pergunta sobre o lugar do Estado nas relações econômicas, a autora deixa claro que, “éste no es, ni de lejos, el tema más importante en sus programas, y si uno em el que sus posiciones han ido cambiando” (p.29). À medida que os PUDs se aproximam dos pobres, se distanciam das pautas neoliberais.

No terceiro e o quarto capítulos, Beatriz Acha disserta sobre as causas da ascensão e descreve o perfil dos votantes dos PUDs. Sobre o primeiro tema, sua estratégia segue uma das clássicas hipóteses dos politólogos: os “fatores relacionados com a ‘oferta’”, ou seja, os apoios potenciais existentes que favorecem o surgimento de novas direitas. Ela destaca, inicialmente, as facilidades apresentadas pelos sistemas eleitorais de cada país para a criação desses partidos e a recepção de votos. A capacidade de financiamento e a existência de lideranças catalizadoras de pautas aparentemente díspares é outro fator. O terceiro condicionante é relacionado à cultura política do país que pode ter partidos mais tradicionalmente à direita do espectro ao longo da sua história. Outro fator destacado é o maior ou menor espaço reservado aos extremistas em partidos da direita conservadora, como também a maior ou menor ênfase com que tais partidos defendem as pautas radicais, como o combate a imigração. Por fim, a natureza espetacular dos meios de comunicação pode também, segundo a autora, potencializar a criação e a votação de partidos de ultradireita, considerando a sua atração por histórias que geram ampla audiência, independentemente do seu teor de veracidade, responsabilidade e lucidez.

Todos esses condicionantes não fariam muito sentido em democracias liberais se esses partidos não ganhassem o assentimento dos eleitores. Por isso, em – “Los votantes” (quinto capítulo), Beatriz Acha questiona sobre o que leva um indivíduo a votar em agremiações de tal natureza. A resposta não é tranquila. Ela inicia com afirmações clássicas da área, tipificando os eleitores como os protestantes e os ideológicos, mas alerta que não há correlação direta entre esses tipos e o caráter moderado ou extremista da direita. Afirma ainda que, hoje, partidos de ultradireita conservam eleitores de ambos os tipos e têm o poder de converter os votos de protestos em votos ideológicos. As incertezas também se estendem às tentativas de correlação ideologia-gênero, ideologia-religião. Mulheres de ultradireita são menor contingente por fatores, como a estrutura partidária ou a militância feminista, mas podem revelar afinidade ideológica sem convertê-la em voto à ultradireita. Quanto à religião, os resultados são contraditórios. Religiosos e não ativistas (sindicalistas, por exemplo) tendem a apoiar, mas imigrantes religiosos podem votar contra partidários da ultradireita. Sobre os votantes, contudo, as pesquisas indicam um perfil de jovens do sexo masculino e membros da classe trabalhadora. É possível, sugere a autora, que estejamos assistindo ao surgimento de uma nova “estrutura de classe”, marcada por pautas culturais e pelo fenômeno da imigração.

Com base na literatura especializada, Beatriz Acha indica que o voto extremista pode ser explicado muito mais pela ação de “mecanismos psicológicos y emocionais” (p.49) que econômicos; em síntese, que questões econômicas, como o desemprego e outros percalços da globalização, pesam muito menos que os sentimentos contrários ao Islã, homossexuais, união europeia e aos partidos tradicionais. 

Vox quer proibir mesquitas de correntes radicais islâmicas, financiadas pela Arábia Saudita o ensino do Islã nas escolas espanholas | Imagem (2016): Observatório da Extrema Direita

No quarto capítulo – “El tardio despertar de la ultraderecha española: Vox y los demás” –, Beatriz Acha situa os sucessos eleitorais do Vox no contexto das iniciativas independentistas da Catalunha (2018), da insatisfação com a política econômica e da ampla cobertura das suas conquistas pela mídia (2019). Ideologicamente, não obstante o partido deixar obscura e de até negar a associação entre suas pautas e as de uma “ultradireita”, a autora tipifica e hierarquiza os princípios que o movem. No plano moral, é contra o matrimônio gay e “ideologia de gênero” e a favor da família nuclear burguesa e da prisão perpétua. No plano econômico, o Vox defende baixos impostos e Estado mínimo: austeridade e redução dos gastos com financiamento de demandas sociais, ou seja, é “neoliberal”. Esse Estado mínimo, paradoxalmente, deve ser forte o suficiente para consolidar a unidade nacional (contra as iniciativas independentistas). Desses três grupos de ideias, a defesa da unidade nacional é a prioridade. A atração de militares e forças de segurança, como também o discurso contra os imigrantes é uma semelhança em relação aos demais ultradireitistas da Europa. O Vox, contudo, o anti-imigrantismo é menos relevante que o nacionalismo, e o populismo (separação “povo puro”/”elite corrupta”) não predomina, a exemplo do que ocorre em outros lugares da Europa. A autora encerra o capítulo apontando as fragilidades do partido: o pouco potencial de crescimento eleitoral (caso a pauta da Catalunha saia de cena), a distribuição desigual no território espanhol e o gerenciamento centralizado, pouco democrático e nada transparente.

O capítulo final – “El avance de la ultraderecha: qué hacer” – anuncia a questão hoje clássica de Lenin, replicada em outros livros do gênero: que fazer contra o avanço dessas novas direitas? Isolá-las, cooptá-las ou derrotá-las? A autora toma posição pela terceira estratégia, nos quadros estabelecidos por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt: impedir candidaturas dos seus membros e criar alianças para derrotá-los, se for o caso, mediante instrumentos democráticos, sem sucumbir ao desejo de colocá-los, deliberadamente, na ilegalidade. Essa estratégia é retomada no apêndice da obra – “Un epílogo sobre el assalto al Capitolio… y vários aprendizajes” – onde defende que os republicados afastem os radicais do seu partido (que geraram a vitória de Trump e a invasão do Capitólio) e que os democratas se unam aos republicanos para combater as ameaças ao sistema democrático. A violência perpetrada nos EUA é grave porque se deu no poder Executivo nacional e em uma democracia exemplar para a Europa.

Por que ler Beatriz Acha? Como declarado no título deste texto, “aprender com os politólogos” é uma virtude nesses tempos obscuros. Nesse caso, a cientista social não apenas fornece as ferramentas da área para a análise do “auge das novas direitas”: ela escreve para ser compreendida. A apresentação, apesar de não ser autoral, cumpre a função ordinária de situar o leitor em relação à questão e ao espaço/tempo europeu. O livro é breve. Cada capítulo é iniciado com questões e metas. Cada corpo de capítulo é segmentado em tópicos curtos. As notas são reduzidas, a paráfrase predomina e a poluição visual acarretada pela referenciação de autores é zero.

Além das facilidades da escritura, é necessário reconhecer que os historiadores possuem limitações que devem ser abrandadas com a leitura de outros profissionais. As limitações conceituais não serão diminuídas com a leitura do livro de Beatriz Acha. Outros textos são necessários para uma visão abrangente dos modos de se acercar do objeto “novas direitas”, “extrema direita”, “ultradireitas” ou “direitas radicais”. Mas o livro dessa professora espanhola oferece roteiros de interpretação, não necessariamente colados aos referenciais teóricos nos quais ela deposita maior credibilidade (que pouco aparecem). Vários livros apresentam roteiros de questões para a interpretação de específicas realidades, mas o texto de Beatriz Acha sugere mirada plural, que reconhece a complexidade do fenômeno, as limitações dos pesquisadores e os paradoxos oferecidos pelas realidades dos partidos, líderes e eleitores de ultradireita. Essas miradas se completam com o emprego em um caso particular, que é a história política espanhola recente: a ideologia, o sucesso e as limitações do Vox. Assim, não será um exercício estéril para o noviço em história política ler o livro pensando no caso brasileiro.

Notas

[1] NIUS. Cultura/Libros. Beatriz Acha, socióloga… Disponível em <https://www.niusdiario.es/cultura/libros/entrevista-beatriz-acha-sociologa-extrema-derecha-ultraderecha-fascismo-campana-cordon-sanitario-vox-elecciones_18_3130845209.html> Capturado em 17 fev. 2022. Xavier Casals – Blog sobre extremismo y democracia. Entrevista a Beatriz Acha. Disponível em < https://xaviercasals.wordpress.com/2018/09/10/entrevista-a-beatriz-acha-los-sucesos-de-chemnitz-no-favoreceran-necesariamente-a-la-ultraderechista-afd/> Capturado em: 17 fev. 2022.

Sumário de de Analizar el auge de la ultraderecha, de Beatriz Acha

  • Presentación. Ya somos europeos | Cristina Monge y Jorge Urdánoz
  • 1. Los partidos de ultraderecha y sus trayectorias
  • 2. Su ideologia
  • 3. Las causas del ascenso de la ultraderecha
  • 4. Los votantes
  • 5. El tardio despertar de la ultraderecha española: Vox y los demás
  • 6. El avance de la ultraderecha: qué hacer
  • 7; Un epílogo sobre el assalto al Capitolio… y varios aprendizajes
  • Anexo
  • Bibliografia

Resenhista

Doutor  em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2008), professor colaborador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ) e  do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de História da UFS (Profhistória UFS) e autor, entre outros trabalhos, de “Segunda Guerra Mundial: notas sobre o cotidiano de Aracaju após o ataque do U-547 (1942-1945)”, “O Portal Metapedia: revisionismo histórico e negacionismo no Tempo Presente” e “Passado eletrônico: notas sobre história digital”. É editor da revista Cadernos do Tempo Presente, coordenador do Grupo de Estudos do Tempo Presente e bolsista produtividade CNPq-Nível 2. Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/7966825011414341. E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

ACHA, Beatriz Ugarte. Analizar el auge de la ultraderecha. Barcelona: Editorial Gedisa, 2021. Resenha de: MAYNARD, Dilton Cândido Santos. Aprendendo com os politólogos. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, número especial (Novas Direitas em discussão), p.xx-xx, jun. 2022. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/aprendendo-com-os-politologos-resenha-de-analizar-el-auge-de-la-ultraderecha-de-beatriz-ugarte-acha/

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Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.esp. “Novas Direitas em discussão”, jun. 2022 | ISSN 2764-2666

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Aprendendo com os politólogos – Resenha de “Analizar el auge de la ultraderecha”, de Beatriz Ugarte Acha

Resenhado por Dilton Cândido Santos Maynard (UFS/UFRJ) | 02 junho 2022


Beatriz Ugarte Acha (2020) Imagem: Metapolitica

Analizar el auge de la ultradereha é o mais recente livro de Beatriz Ugarte Acha. Natural de Vizcaya (1970), Acha é professora de Sociologia e Trabalho Social na Universidad del País Vasco.[i] Doutorou-se em Ciência Política com a tese Éxito y fracaso de los nuevos partidos de extrema derecha en Europa Occidental: el caso de los Republikaner en el Land de Baden-Württemberg (2017), defendida junto ao Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidad Autónoma de Madrid. A experiência da tese lhe permitiu estender e, simultaneamente, encurtar os marcos temporais e espaciais, estudando a ascensão dos Partidos de Extrema Direita (PUDs) na Europa e, de modo especial, na Espanha. Grande parte do livro, portanto, corresponde aos três primeiros capítulos da tese que pode ser consultada aqui. Com exceção do último capítulo, que trata do “assalto ao Capitólio” (onde faz considerações sobre o caráter pedagógico desse evento), o livro se estrutura no exame das trajetórias dos PUDs, ideologias, causas da sua ascensão, perfil dos seus votantes.

Na breve “Apresentação” da obra, Cristina Monge y Jorge Urdánoz disparam a ironia: “Ya somos europeus”. Com a frase, anunciam a chegada do multipartidarismo e da ultradireita à Espanha, entre 2015 e 2019, representados, respectivamente, pelos sucessos do 15 M, Podemos, Ciudadanos e, ainda, o Vox, a exemplo do que já havia acontecido com demais países da Europa. No primeiro capítulo – “Los partidos de ultraderecha y sus trayectorias” –, contudo, Beatriz Acha não dá sequência ao tom irônico e, de certa forma, amortece a proposição. Não é que o fenômeno dos PUDs na Espanha seja mais brando. O fato é que a ascensão dos partidos de ultradireita, em 14 países, entre 1996 e 2019, só aparentemente pode ser considerada exitosa. É certo que eles ampliaram o número de adeptos, organizações, líderes e votantes, que ganharam cadeiras nos parlamentos nacionais e até apoiam governos. Contudo, observados em suas trajetórias individuais, partidos, como a Frente Nacional, na França; o Partido do Progresso, da Noruega; e, o Partido da Liberdade, da Áustria, oscilam entre o sucesso, o fracasso e até a cisão, lutas intestinas ou motivadas pela perda de prestígio imediatamente após um atentado terrorista perpetrado por um membro partidário (o caso de Oslo).

No segundo capítulo – “Su ideologia” –, a autora descreve as ideias dominantes que orientam os PUDs. Pelo título do livro e a designação do seu objeto (PUDs), já sabemos que ela toma a “ultradireita” como “una categoria genérica que designa una nueva y amplia família de formaciones (relativamente) similares” (p.21). Esse é um ponto fraco do livro porque as duas tipificações que se seguem não são empregadas como apoio ou elemento de contestação direta na construção da definição de “ultradireita”. A primeira tipologia é tomada de Pietro Ignazi que, assim, a divide: partidos da “velha ou tradicional extrema direita”, marcados por atitudes antissistema, e partidos da “nova ou pós-industrial extrema direita”, marcados por atitudes antissistema e por sua ancoragem “no fascismo” (p.21). A segunda tipologia é tomada de Cas Mudde que tipifica a “extrema direita” em: “extrema direita”, caracterizada pelo combate à ideia de “soberania popular”, e “direita radical”, caracterizada pelo apoio “nominal” à democracia (p.23). Ao final, Beatriz Acha não explicita um alinhamento da sua “ultradireita” com a “extrema direita” (antissistema/antissistema e fascista) de Ignazi ou com a “extrema direita” (antissistema/nominalmente democrática) de Mudde, tampouco toma os valores democráticos do “pluralismo”, “igualdade” e “liberdade” civil e política como traço diacrítico entre novas e velhas direitas. Ela define a ideologia dos PUDs a partir das questões/temas programáticos desses partidos, que são: o combate à imigração (convertido em “imperativo de identidade”), o “ultranacionalismo” (que contradiz com a luta por uma Europa livre de imigrantes) e o reforço à “defesa da lei e da ordem” (defesa do aumento das penas, instituição da pena de morte e ampliação das forças policiais) e ao modo intenso (“radical/extremo”) como os PUDs defendem essas bandeiras. Para quem agora se pergunta sobre o lugar do Estado nas relações econômicas, a autora deixa claro que, “éste no es, ni de lejos, el tema más importante en sus programas, y si uno em el que sus posiciones han ido cambiando” (p.29). À medida que os PUDs se aproximam dos pobres, se distanciam das pautas neoliberais.

No terceiro e o quarto capítulos, Beatriz Acha disserta sobre as causas da ascensão e descreve o perfil dos votantes dos PUDs. Sobre o primeiro tema, sua estratégia segue uma das clássicas hipóteses dos politólogos: os “fatores relacionados com a ‘oferta’”, ou seja, os apoios potenciais existentes que favorecem o surgimento de novas direitas. Ela destaca, inicialmente, as facilidades apresentadas pelos sistemas eleitorais de cada país para a criação desses partidos e a recepção de votos. A capacidade de financiamento e a existência de lideranças catalizadoras de pautas aparentemente díspares é outro fator. O terceiro condicionante é relacionado à cultura política do país que pode ter partidos mais tradicionalmente à direita do espectro ao longo da sua história. Outro fator destacado é o maior ou menor espaço reservado aos extremistas em partidos da direita conservadora, como também a maior ou menor ênfase com que tais partidos defendem as pautas radicais, como o combate a imigração. Por fim, a natureza espetacular dos meios de comunicação pode também, segundo a autora, potencializar a criação e a votação de partidos de ultradireita, considerando a sua atração por histórias que geram ampla audiência, independentemente do seu teor de veracidade, responsabilidade e lucidez.

Todos esses condicionantes não fariam muito sentido em democracias liberais se esses partidos não ganhassem o assentimento dos eleitores. Por isso, em – “Los votantes” (quinto capítulo), Beatriz Acha questiona sobre o que leva um indivíduo a votar em agremiações de tal natureza. A resposta não é tranquila. Ela inicia com afirmações clássicas da área, tipificando os eleitores como os protestantes e os ideológicos, mas alerta que não há correlação direta entre esses tipos e o caráter moderado ou extremista da direita. Afirma ainda que, hoje, partidos de ultradireita conservam eleitores de ambos os tipos e têm o poder de converter os votos de protestos em votos ideológicos. As incertezas também se estendem às tentativas de correlação ideologia-gênero, ideologia-religião. Mulheres de ultradireita são menor contingente por fatores, como a estrutura partidária ou a militância feminista, mas podem revelar afinidade ideológica sem convertê-la em voto à ultradireita. Quanto à religião, os resultados são contraditórios. Religiosos e não ativistas (sindicalistas, por exemplo) tendem a apoiar, mas imigrantes religiosos podem votar contra partidários da ultradireita. Sobre os votantes, contudo, as pesquisas indicam um perfil de jovens do sexo masculino e membros da classe trabalhadora. É possível, sugere a autora, que estejamos assistindo ao surgimento de uma nova “estrutura de classe”, marcada por pautas culturais e pelo fenômeno da imigração.

Com base na literatura especializada, Beatriz Acha indica que o voto extremista pode ser explicado muito mais pela ação de “mecanismos psicológicos y emocionais” (p.49) que econômicos; em síntese, que questões econômicas, como o desemprego e outros percalços da globalização, pesam muito menos que os sentimentos contrários ao Islã, homossexuais, união europeia e aos partidos tradicionais. 

Vox quer proibir mesquitas de correntes radicais islâmicas, financiadas pela Arábia Saudita o ensino do Islã nas escolas espanholas | Imagem (2016): Observatório da Extrema Direita

No quarto capítulo – “El tardio despertar de la ultraderecha española: Vox y los demás” –, Beatriz Acha situa os sucessos eleitorais do Vox no contexto das iniciativas independentistas da Catalunha (2018), da insatisfação com a política econômica e da ampla cobertura das suas conquistas pela mídia (2019). Ideologicamente, não obstante o partido deixar obscura e de até negar a associação entre suas pautas e as de uma “ultradireita”, a autora tipifica e hierarquiza os princípios que o movem. No plano moral, é contra o matrimônio gay e “ideologia de gênero” e a favor da família nuclear burguesa e da prisão perpétua. No plano econômico, o Vox defende baixos impostos e Estado mínimo: austeridade e redução dos gastos com financiamento de demandas sociais, ou seja, é “neoliberal”. Esse Estado mínimo, paradoxalmente, deve ser forte o suficiente para consolidar a unidade nacional (contra as iniciativas independentistas). Desses três grupos de ideias, a defesa da unidade nacional é a prioridade. A atração de militares e forças de segurança, como também o discurso contra os imigrantes é uma semelhança em relação aos demais ultradireitistas da Europa. O Vox, contudo, o anti-imigrantismo é menos relevante que o nacionalismo, e o populismo (separação “povo puro”/”elite corrupta”) não predomina, a exemplo do que ocorre em outros lugares da Europa. A autora encerra o capítulo apontando as fragilidades do partido: o pouco potencial de crescimento eleitoral (caso a pauta da Catalunha saia de cena), a distribuição desigual no território espanhol e o gerenciamento centralizado, pouco democrático e nada transparente.

O capítulo final – “El avance de la ultraderecha: qué hacer” – anuncia a questão hoje clássica de Lenin, replicada em outros livros do gênero: que fazer contra o avanço dessas novas direitas? Isolá-las, cooptá-las ou derrotá-las? A autora toma posição pela terceira estratégia, nos quadros estabelecidos por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt: impedir candidaturas dos seus membros e criar alianças para derrotá-los, se for o caso, mediante instrumentos democráticos, sem sucumbir ao desejo de colocá-los, deliberadamente, na ilegalidade. Essa estratégia é retomada no apêndice da obra – “Un epílogo sobre el assalto al Capitolio… y vários aprendizajes” – onde defende que os republicados afastem os radicais do seu partido (que geraram a vitória de Trump e a invasão do Capitólio) e que os democratas se unam aos republicanos para combater as ameaças ao sistema democrático. A violência perpetrada nos EUA é grave porque se deu no poder Executivo nacional e em uma democracia exemplar para a Europa.

Por que ler Beatriz Acha? Como declarado no título deste texto, “aprender com os politólogos” é uma virtude nesses tempos obscuros. Nesse caso, a cientista social não apenas fornece as ferramentas da área para a análise do “auge das novas direitas”: ela escreve para ser compreendida. A apresentação, apesar de não ser autoral, cumpre a função ordinária de situar o leitor em relação à questão e ao espaço/tempo europeu. O livro é breve. Cada capítulo é iniciado com questões e metas. Cada corpo de capítulo é segmentado em tópicos curtos. As notas são reduzidas, a paráfrase predomina e a poluição visual acarretada pela referenciação de autores é zero.

Além das facilidades da escritura, é necessário reconhecer que os historiadores possuem limitações que devem ser abrandadas com a leitura de outros profissionais. As limitações conceituais não serão diminuídas com a leitura do livro de Beatriz Acha. Outros textos são necessários para uma visão abrangente dos modos de se acercar do objeto “novas direitas”, “extrema direita”, “ultradireitas” ou “direitas radicais”. Mas o livro dessa professora espanhola oferece roteiros de interpretação, não necessariamente colados aos referenciais teóricos nos quais ela deposita maior credibilidade (que pouco aparecem). Vários livros apresentam roteiros de questões para a interpretação de específicas realidades, mas o texto de Beatriz Acha sugere mirada plural, que reconhece a complexidade do fenômeno, as limitações dos pesquisadores e os paradoxos oferecidos pelas realidades dos partidos, líderes e eleitores de ultradireita. Essas miradas se completam com o emprego em um caso particular, que é a história política espanhola recente: a ideologia, o sucesso e as limitações do Vox. Assim, não será um exercício estéril para o noviço em história política ler o livro pensando no caso brasileiro.

Notas

[1] NIUS. Cultura/Libros. Beatriz Acha, socióloga… Disponível em <https://www.niusdiario.es/cultura/libros/entrevista-beatriz-acha-sociologa-extrema-derecha-ultraderecha-fascismo-campana-cordon-sanitario-vox-elecciones_18_3130845209.html> Capturado em 17 fev. 2022. Xavier Casals – Blog sobre extremismo y democracia. Entrevista a Beatriz Acha. Disponível em < https://xaviercasals.wordpress.com/2018/09/10/entrevista-a-beatriz-acha-los-sucesos-de-chemnitz-no-favoreceran-necesariamente-a-la-ultraderechista-afd/> Capturado em: 17 fev. 2022.

Sumário de de Analizar el auge de la ultraderecha, de Beatriz Acha

  • Presentación. Ya somos europeos | Cristina Monge y Jorge Urdánoz
  • 1. Los partidos de ultraderecha y sus trayectorias
  • 2. Su ideologia
  • 3. Las causas del ascenso de la ultraderecha
  • 4. Los votantes
  • 5. El tardio despertar de la ultraderecha española: Vox y los demás
  • 6. El avance de la ultraderecha: qué hacer
  • 7; Un epílogo sobre el assalto al Capitolio… y varios aprendizajes
  • Anexo
  • Bibliografia

Resenhista

Doutor  em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2008), professor colaborador no Programa de Pós-graduação em História Comparada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ) e  do Programa de Mestrado Profissional em Ensino de História da UFS (Profhistória UFS) e autor, entre outros trabalhos, de “Segunda Guerra Mundial: notas sobre o cotidiano de Aracaju após o ataque do U-547 (1942-1945)”, “O Portal Metapedia: revisionismo histórico e negacionismo no Tempo Presente” e “Passado eletrônico: notas sobre história digital”. É editor da revista Cadernos do Tempo Presente, coordenador do Grupo de Estudos do Tempo Presente e bolsista produtividade CNPq-Nível 2. Currículo Lattes http://lattes.cnpq.br/7966825011414341. E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

ACHA, Beatriz Ugarte. Analizar el auge de la ultraderecha. Barcelona: Editorial Gedisa, 2021. Resenha de: MAYNARD, Dilton Cândido Santos. Aprendendo com os politólogos. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, número especial (Novas Direitas em discussão), p.xx-xx, jun. 2022. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/aprendendo-com-os-politologos-resenha-de-analizar-el-auge-de-la-ultraderecha-de-beatriz-ugarte-acha/

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Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.esp. “Novas Direitas em discussão”, jun. 2022 | ISSN 2764-2666

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Publicamos resenhas de livros e de dossiês de artigos de revistas acadêmicas que tratem da reflexão, investigação, comunicação e/ou consumo da escrita da História. Saiba mais sobre o único periódico de História inteiramente dedicado à Crítica em formato resenha.

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