Contexto, conteúdo e diálogos transversais – Resenha do dossiê “Ensino de História, livro didático e formação docente”, organizado por Erinaldo Vicente Cavalcanti e Helenice Aparecida Rocha

Resenhado por Rafael Fiedoruk Quinzani (UFRN) | 27 fevereiro 2022


Erinaldo Cavalcanti e Helenice Rocha | Imagens: UNIFESSPA e acervo pessoal

O dossiê “Ensino de História, livro didático e formação docente” foi lançado pela Revista Escritas do Tempo (n. 2, v. 5, 2020)  sob a organização de Erinaldo Vicente Cavalcanti e Helenice Aparecida Rocha. Aqui, refletimos sobre a contribuição desse conjunto de textos para as análises sobre a contextualização, o conteúdo e os diálogos transversais possíveis do livro didático de História.

Os organizadores são intelectuais conhecidos nos domínios do Ensino de História. Erinaldo Cavalcanti é graduado em História (UPE), Mestre e Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor da Faculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudoeste do Pará (UNIFESSPA). Helenice Rocha é graduada em História (UFF), Mestre e Doutora em Educação (UFF) e professora do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Quanto ao dossiê em questão, ele é apresentado como experiência literalmente contextualizada: “Toda escrita, ao grafar em palavras as experiências humanas, traz incrustadas as digitais do seu tempo” (p. 4). O dossiê é marcado por uma situação de reordenamento da vida frente à pandemia de Covid-19 e por disputas dentre diversos projetos de História escolar e acadêmica que visam se consolidar, muitos deles projetados por visões inadequadas da História, como as expressas pelo governo Bolsonaro.

Frente a essas disputas, os organizadores percebem a escrita como forma de resistência a um conjunto de forças de caráter fascista. Ora, um Ensino de História crítico é um importante enfrentamento ao fascismo. O fascismo se alimenta de uma cultura baseada no medo e na submissão. Para além de conflitos políticos, a luta contra o fascismo também se dá no campo psicossocial. Portanto, para derrotar o fascismo, transcendendo o combate à submissão dos corpos, é necessário resistir à submissão das mentes. Produzir ciência, neste contexto, é demonstrar caminhos alternativos, negar que a narrativa histórica seja transformada em um conto de fadas a serviço dos valores e interesses de determinado grupo. Obras críticas, como a resenhada, são fundamentais para que continuemos contando, por um lado, com a esperança de um futuro melhor para a sociedade humana e, por outro, na certeza de que esse futuro não será dado por elites político-econômicas, mas sim, conquistado por uma sociedade consciente e ativa. Nesse sentido, o dossiê pode ser dividido em três tipos de contribuição: os artigos que discutem a estrutura ou contexto do livro didático de História; os que tratam do conteúdo do livro didático e os que apenas tangenciam o livro didático com objeto.

No artigo “Passado, presente e futuro dos livros didáticos de História frente a uma BNCC sem futuro, Sonia Regina Miranda e Fabiana Rodrigues de Almeida refletem sobre as conexões entre as políticas dos livros didáticos e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), percebendo-as como territórios em disputa e batalhas de narrativas. Entendem que “há uma relação diretamente proporcional entre o esforço contemporâneo de consolidação da BNCC e o desmonte da política pública para os livros didáticos tal como a mesma evoluiu ao longo das suas quase quatro décadas” (p. 12). Ambos os processos são influenciados por movimentos que buscam o predomínio, no ensino, de concepções ultrapassadas de História e do afastamento das universidades da construção dessas duas políticas. Acompanhando discussões do Ensino de História nos últimos anos percebemos que, em um nível básico, está significativamente conhecida a relação entre as mudanças na política pública para com os livros didáticos e a BNCC, como expresso em uma série de comentários realizados de forma oral em eventos acadêmicos. Porém, o artigo em questão é um dos poucos trabalhos, até o momento, a abordar de forma sistematizada estas mudanças.

Frente à grande quantidade de saberes necessários, a produção de livros didáticos tem se tornado uma tarefa coletiva. Assim, surge a indagação da existência ou do fim do autor nos livros escolares. No texto “Livros didáticos: autoria em questão”, Adriana Soares Ralejo e Ana Maria Ferreira da Costa Monteiro empregam Michel Foucault para propor a autoria como uma função ao invés de um indivíduo. Elas afirmam, porém, que as mesmas atividades da função-autor continuam existindo atualmente nos livros escolares.

No artigo “Por que as narrativas nacionais permanecem? Revisão de literatura sobre novas perspectivas na pesquisa dos livros didáticos de história”, Maria Grever e Tina van der Vlies demonstram que os livros didáticos continuam organizando suas narrativas históricas, predominantemente, em torno da narrativa nacional, ou seja, histórias são histórias “que pensam a origem da nação e suas façanhas, bem como caracterizam as comunidades nacionais, produzidas com o objetivo de dar um sentido ao passado e fazê-lo coeso com o presente e com um projeto de futuro” (p. 42). As autoras refletem sobre o porquê dessas narrativas permanecerem presentes nos livros escolares, retomando, para tanto, o processo de construção da disciplina de História. Em seguida, apresentam as principais perspectivas de análise sobre a temática, destacando importância de uma abordagem holística do livro didático. Elas demonstram que diferentes discursos convivem neste material, inclusive narrativas que não condizem com uma interpretação focada na nação.

No texto “Narrativas sobre o nazismo e o fascismo nas coleções didáticas de História: saber escolar e demandas do tempo presente”, os conteúdos historiográficos referidos são analisados em dois livros didáticos do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2018. Maria Aparecida da Silva Cabral e Marilu de Freitas Faricelli entendem que o contexto atual tem resultado em uma intensa guerra de narrativas. Assim, decidem observar, nas coleções, qual interpretação é apresentada sobre estes temas e demonstram que, embora as duas coleções façam diferentes reconstruções quanto ao fascismo e ao nazismo, ambas possuem importante potencial formativo, com visões críticas das ideologias fascista e nazista e uma abordagem pedagógica significativamente desenvolvida. É necessário destacar que a análise das obras do PNLD 2018 não deve pressupor que as mesmas narrativas qualificadas sobre o fascismo e o nazismo permanecerá em obras posteriores. Ainda que lançados na conjuntura do Golpe de 2016, os livros do PNLD 2018 (publicados em 2016) ainda não tinham influência tão expressiva da ascensão fascista advinda  do bolsonarismo. Novas pesquisas serão necessárias para verificar se as considerações das autoras ainda permanecem atuais.

Andressa da Silva Gonçalves e Mauro Cezar Coelho são os autores de “As narrativas didáticas sobre o bandeirante: entre a mitologia bandeirante e a crítica histórica”. Eles afirmam a importância de observarmos historicamente a narrativa do livro escolar, demonstrando que, o livro didático repercute o mito bandeirante mesmo incluindo algumas das mais recentes críticas ao mito em questão. Ao protagonizar a figura do bandeirante, eles afirmam, submetemo-nos ao mito de que o bandeirantismo foi o vetor central da expansão do território brasileiro, marginalizando uma série de atores e discussões históricas. O bandeirante permanece desnecessariamente central na narrativa da História brasileira, mas sua imagem já não é mais a de um herói. Sua experiência é solapada por análises críticas, que contribuem para desconstruir os equívocos consolidados na memória social, como a demonstração dos conflitos com povos indígenas. Enquanto os textos-base tendem a repercutir uma narrativa histórica voltada às ações dos bandeirantes, outros elementos, como boxes e atividades, colocam esta narrativa em questão. Trata-se de transformação importante, ainda que continue sendo necessário atribuir maior espaço para outros (as) agentes sociais na narrativa do livro escolar, já que, tanto para demonstrar suas ações históricas como para questioná-las, o bandeirante permanece o ator central.

No texto “A abordagem da temática indígena e da História da África nos livros didáticos: uma experiência na formação docente”, Ingrid Silva de Oliveira Leite demonstra que os livros didáticos, problemáticos em determinados aspectos, podem ser utilizados para o ensino-aprendizagem.  Junto aos alunos de Licenciatura em História do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, ela desenvolveu uma “prática de oficinas utilizando os livros didáticos para refletir sobre a abordagem da História da África, da diversidade da experiência do negro no Brasil e da temática indígena” (p. 157). Em um primeiro momento, instruiu os alunos a analisarem a narrativa sobre o tema. Em seguida, considerando as críticas realizadas, os alunos proporiam aulas, utilizando os livros investigados. O destaque na abordagem da autora é o fato de que a atividade não se restringiu à crítica ao livro didático. O trabalho avançou no sentido de construir propostas de uso do artefato com o objetivo de resolver esses problemas.

No artigo “O ensino de História no Brasil e seus pesquisadores: breves notas sobre uma herança de tensões e proposições”, Letícia Mistura e Flávia Eloisa Caimi revisam a história do ensino de História, afirmando que a prática foi uma “batata quente” jogada da História para a Educação, e vice-versa, até os anos 70 do século passado. Concebia-se a existência de uma discussão educacional geral, que se aplicaria para qualquer conteúdo. Aos historiadores caberia prover o conhecimento do conteúdo historiográfico disponibilizado aos professores. Atualmente, essa dicotomia tem se transformado, significativamente, com a emergência do Ensino de História enquanto área específica de reflexão. Essa área tem se transformado de forma positiva nas últimas décadas, processo que é explicado ao longo do artigo com riqueza de detalhes. A percepção desse processo de quebra de dicotomia possibilita a construção de reflexões que pensem como a pesquisa do livro didático e as próprias características deste material são afetadas pela presença de abismos ou aproximações entre as reflexões da História, da Educação e do Ensino de História.

Em “Los materiales didácticos para la enseñanza de la historia en la formación docente”, Victor Amado Salto e Alicia Graciela Funes focam nas práticas de pesquisa e formação no campo do Ensino de História. Percebem que a educação deve ser um ato radical de democratizar a democracia (p. 230). Mais que pensar materiais didáticos para os professores, é necessário construir estes materiais com os docentes. Considerando esses múltiplos agentes na produção de materiais didáticos, é possível tornar o ensino mais significativo. Os autores demonstram uma série bastante diversa de materiais produzidos com o professorado, evidenciando a  variedade de objetos de acordo com as séries e os temas em questão. Ao buscar articular uma variedade de abordagens e materiais com a realidade dos estudantes, os autores entendem a contribuir para o desenvolvimento de práticas de cidadania crítica.

Miguel Angel Jara, autor de “Los materiales didácticos en la enseñanza de la historia y de las ciencias sociales en Argentina: percepciones del professorado”, trabalha sobre dados obtidos a partir de depoimentos de docentes argentinos que cursavam pós-graduação. Dentre as perguntas do questionário aplicado, indaga sobre materiais didáticos em uso, percebendo certa perda da centralidade do livro didático. Jara acredita que isso se deva ao fato de que nem todos os profissionais projetam  suas aulas a partir das necessidades curriculares. Porém, pouca atenção é dada ao uso criativo do livro didático. Ao refletir sobre o porquê desta perda de centralidade, o autor elenca três fatores principais. Primeiramente, o livro didático não é tão valorizado na academia, focando-se no estudo de objetos como fontes ou imagens. Em segundo lugar, é possível que os livros didáticos não mais reflitam o currículo. Por fim, a falta de atualização dos livros escolares também pode ser um fator importante.

No artigo intitulado “Uma nova história geral didática para compreender o mundo e agir como cidadãos globais”, Ivo Mattozzi defende a necessidade de mudança na História ensinada, a fim de que não se torne irrelevante. Para opor-se a uma narrativa baseada na sucessão de fatos (sem significados para o aluno), Mattozzi discute modelos alternativos de História Geral, demonstrando possibilidades na forma de narrar a História no ambiente escolar. Dentre outros fatores, destaca a necessidade de focar eventos para além dos consagrados (como temáticas militares e político-institucionais), estabelecer relações a partir do presente e abordar a diversidade de agentes históricos. Consideramos que as discussões atuais caminham para amenizar as problemáticas supracitadas, mas estamos longe de solucionar esses problemas. Comparando as proposições do artigo à nossa experiência com a pesquisa de livros didáticos, é possível entender que os livros didáticos têm, aos poucos, atendido a estas três demandas, ainda que sob uma espécie de “remendo” à história canônica consolidada. A singularidade da proposta do autor seria partir do próprio diálogo com o presente, bem como da busca por atender a uma pluralidade de agentes e eventos para pensar que História será contada, ao invés de realizar modificações na História Canônica para tentar minimamente incluir estes elementos.

O último artigo do dossiê é escrito por Margarida Maria Dias de Oliveira e Itamar Freitas. Em “Patrimônio e ensino de história: cinco decisões do professor”, os autores demonstram que as pesquisas atuais sobre Patrimônio e Ensino de História focam na categorização do patrimônio em termos do seu campo semântico ou na instrumentalização de práticas docentes para ensinar sobre o patrimônio. Embora interessantes no âmbito acadêmico, essas abordagens dicotômicas possuem contribuição limitada para a prática docente. Trabalhos que estabeleçam diálogo profundo entre teoria patrimonial e prática educativa ainda são escassos. Visando minimizar essa lacuna e auxiliar aos docentes com a preparação de suas práticas, os autores reiteram que os docentes que se debruçam sobre a matéria devem, em geral, refletir sobre cinco questões centrais. A discussão sobre os cinco tópicos levantados no artigo é uma importante ferramenta para o planejamento educativo. Ela pode ajudar na inclusão do Patrimônio em livros didáticos de História como objeto e meio de aprendizagem histórica, posto que o artefato é, compreensivamente, compelido a dar conta de uma grande quantidade de temáticas históricas.

Com esses comentários, em síntese, pensamos que o dossiê contribui com a pesquisa sobre o Ensino de História, na medida em que nos atualiza sobre as perspectivas de abordar o livro didático desse componente curricular. Apesar de nem todos os artigos empregarem o livro didático com objeto ou questão central, o Dossiê amplia nosso conhecimento em termos das narrativas históricas presentes no livro didático, das estruturas gerais que o compõem, das possibilidades de transformação cientifica e socialmente engajadas desse material. Destacamos, também, o diálogo entre múltiplas autoridades, internacionais e nacionais que, relativas ao livro didático de História. De modo geral, as pesquisas demonstram a complexa rede de relações entre transformações e permanências no livro escolar, apresentando, cada uma a seu modo, alternativas possíveis para que os livros didáticos permaneçam relacionados tanto com as áreas do conhecimento nas quais se situam como às realidades sociais a que se destinam.

Na apresentação do Dossiê “Ensino de História, livro didático e formação docente”, os organizadores destacaram que a coletânea em questão é ferramenta de luta e enfrentamentos, contendo as digitais de seu tempo, marcado por batalhas entre forças de caráter fascista e suas oposições. Após a observação dos artigos envolvidos, podemos constatar essa função. Frente aos diversos ensinamentos apresentados, o dossiê contribui para a resistência às visões deturpadas em relação à produção do conhecimento. É mais um passo à nossa caminhada em direção a uma sociedade democrática não apenas formalmente, mas também em termos de conteúdo.


Sumário de Dossiê Temático “Ensino de História, livro didático e formação docente”


Resenhista

Rafael Fiedoruk Quinzani é mestrando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Licenciado (2019) e Bacharel (2020) em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Entre outros trabalhos, publicou  “Abordagem da Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964-1985) na segunda edição do livro didático História em Movimento”, em parceria com José Iran Ribeiro. É membro da Equipe Editorial da Revista Espacialidades. ID: https://orcid.org/0000-0002-2332-6877. E-mail: [email protected]

 


Para citar esta resenha

CAVALCANTI, Erinaldo Vicente; ROCHA, Helenice Aparecida Bastos (org.). Dossiê: Ensino de História, livro didático e formação docente. In: Revista Escritas do Tempo. Marabá, v.2, n.5, p.4-264, 2020. Disponível em:<https://periodicos.unifesspa.edu.br/index.php/escritasdotempo/issue/view/27>. Acesso em: 30 mar. 2021. DOI: https://doi.org/10.47694/issn.2674-7758.v2.i5.2020. Resenha de: QUINZANI, Rafael Fiedoruk. Contexto, conteúdo e diálogos transversais. Crítica Historiográfica, v.2, n.4, p.34-39, mar./abr. 2022.

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Contexto, conteúdo e diálogos transversais – Resenha do dossiê “Ensino de História, livro didático e formação docente”, organizado por Erinaldo Vicente Cavalcanti e Helenice Aparecida Rocha

Resenhado por Rafael Fiedoruk Quinzani (UFRN) | 27 fevereiro 2022


Erinaldo Cavalcanti e Helenice Rocha | Imagens: UNIFESSPA e acervo pessoal

O dossiê “Ensino de História, livro didático e formação docente” foi lançado pela Revista Escritas do Tempo (n. 2, v. 5, 2020)  sob a organização de Erinaldo Vicente Cavalcanti e Helenice Aparecida Rocha. Aqui, refletimos sobre a contribuição desse conjunto de textos para as análises sobre a contextualização, o conteúdo e os diálogos transversais possíveis do livro didático de História.

Os organizadores são intelectuais conhecidos nos domínios do Ensino de História. Erinaldo Cavalcanti é graduado em História (UPE), Mestre e Doutor em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e professor da Faculdade de História da Universidade Federal do Sul e Sudoeste do Pará (UNIFESSPA). Helenice Rocha é graduada em História (UFF), Mestre e Doutora em Educação (UFF) e professora do Departamento de Ciências Humanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Quanto ao dossiê em questão, ele é apresentado como experiência literalmente contextualizada: “Toda escrita, ao grafar em palavras as experiências humanas, traz incrustadas as digitais do seu tempo” (p. 4). O dossiê é marcado por uma situação de reordenamento da vida frente à pandemia de Covid-19 e por disputas dentre diversos projetos de História escolar e acadêmica que visam se consolidar, muitos deles projetados por visões inadequadas da História, como as expressas pelo governo Bolsonaro.

Frente a essas disputas, os organizadores percebem a escrita como forma de resistência a um conjunto de forças de caráter fascista. Ora, um Ensino de História crítico é um importante enfrentamento ao fascismo. O fascismo se alimenta de uma cultura baseada no medo e na submissão. Para além de conflitos políticos, a luta contra o fascismo também se dá no campo psicossocial. Portanto, para derrotar o fascismo, transcendendo o combate à submissão dos corpos, é necessário resistir à submissão das mentes. Produzir ciência, neste contexto, é demonstrar caminhos alternativos, negar que a narrativa histórica seja transformada em um conto de fadas a serviço dos valores e interesses de determinado grupo. Obras críticas, como a resenhada, são fundamentais para que continuemos contando, por um lado, com a esperança de um futuro melhor para a sociedade humana e, por outro, na certeza de que esse futuro não será dado por elites político-econômicas, mas sim, conquistado por uma sociedade consciente e ativa. Nesse sentido, o dossiê pode ser dividido em três tipos de contribuição: os artigos que discutem a estrutura ou contexto do livro didático de História; os que tratam do conteúdo do livro didático e os que apenas tangenciam o livro didático com objeto.

No artigo “Passado, presente e futuro dos livros didáticos de História frente a uma BNCC sem futuro, Sonia Regina Miranda e Fabiana Rodrigues de Almeida refletem sobre as conexões entre as políticas dos livros didáticos e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), percebendo-as como territórios em disputa e batalhas de narrativas. Entendem que “há uma relação diretamente proporcional entre o esforço contemporâneo de consolidação da BNCC e o desmonte da política pública para os livros didáticos tal como a mesma evoluiu ao longo das suas quase quatro décadas” (p. 12). Ambos os processos são influenciados por movimentos que buscam o predomínio, no ensino, de concepções ultrapassadas de História e do afastamento das universidades da construção dessas duas políticas. Acompanhando discussões do Ensino de História nos últimos anos percebemos que, em um nível básico, está significativamente conhecida a relação entre as mudanças na política pública para com os livros didáticos e a BNCC, como expresso em uma série de comentários realizados de forma oral em eventos acadêmicos. Porém, o artigo em questão é um dos poucos trabalhos, até o momento, a abordar de forma sistematizada estas mudanças.

Frente à grande quantidade de saberes necessários, a produção de livros didáticos tem se tornado uma tarefa coletiva. Assim, surge a indagação da existência ou do fim do autor nos livros escolares. No texto “Livros didáticos: autoria em questão”, Adriana Soares Ralejo e Ana Maria Ferreira da Costa Monteiro empregam Michel Foucault para propor a autoria como uma função ao invés de um indivíduo. Elas afirmam, porém, que as mesmas atividades da função-autor continuam existindo atualmente nos livros escolares.

No artigo “Por que as narrativas nacionais permanecem? Revisão de literatura sobre novas perspectivas na pesquisa dos livros didáticos de história”, Maria Grever e Tina van der Vlies demonstram que os livros didáticos continuam organizando suas narrativas históricas, predominantemente, em torno da narrativa nacional, ou seja, histórias são histórias “que pensam a origem da nação e suas façanhas, bem como caracterizam as comunidades nacionais, produzidas com o objetivo de dar um sentido ao passado e fazê-lo coeso com o presente e com um projeto de futuro” (p. 42). As autoras refletem sobre o porquê dessas narrativas permanecerem presentes nos livros escolares, retomando, para tanto, o processo de construção da disciplina de História. Em seguida, apresentam as principais perspectivas de análise sobre a temática, destacando importância de uma abordagem holística do livro didático. Elas demonstram que diferentes discursos convivem neste material, inclusive narrativas que não condizem com uma interpretação focada na nação.

No texto “Narrativas sobre o nazismo e o fascismo nas coleções didáticas de História: saber escolar e demandas do tempo presente”, os conteúdos historiográficos referidos são analisados em dois livros didáticos do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) 2018. Maria Aparecida da Silva Cabral e Marilu de Freitas Faricelli entendem que o contexto atual tem resultado em uma intensa guerra de narrativas. Assim, decidem observar, nas coleções, qual interpretação é apresentada sobre estes temas e demonstram que, embora as duas coleções façam diferentes reconstruções quanto ao fascismo e ao nazismo, ambas possuem importante potencial formativo, com visões críticas das ideologias fascista e nazista e uma abordagem pedagógica significativamente desenvolvida. É necessário destacar que a análise das obras do PNLD 2018 não deve pressupor que as mesmas narrativas qualificadas sobre o fascismo e o nazismo permanecerá em obras posteriores. Ainda que lançados na conjuntura do Golpe de 2016, os livros do PNLD 2018 (publicados em 2016) ainda não tinham influência tão expressiva da ascensão fascista advinda  do bolsonarismo. Novas pesquisas serão necessárias para verificar se as considerações das autoras ainda permanecem atuais.

Andressa da Silva Gonçalves e Mauro Cezar Coelho são os autores de “As narrativas didáticas sobre o bandeirante: entre a mitologia bandeirante e a crítica histórica”. Eles afirmam a importância de observarmos historicamente a narrativa do livro escolar, demonstrando que, o livro didático repercute o mito bandeirante mesmo incluindo algumas das mais recentes críticas ao mito em questão. Ao protagonizar a figura do bandeirante, eles afirmam, submetemo-nos ao mito de que o bandeirantismo foi o vetor central da expansão do território brasileiro, marginalizando uma série de atores e discussões históricas. O bandeirante permanece desnecessariamente central na narrativa da História brasileira, mas sua imagem já não é mais a de um herói. Sua experiência é solapada por análises críticas, que contribuem para desconstruir os equívocos consolidados na memória social, como a demonstração dos conflitos com povos indígenas. Enquanto os textos-base tendem a repercutir uma narrativa histórica voltada às ações dos bandeirantes, outros elementos, como boxes e atividades, colocam esta narrativa em questão. Trata-se de transformação importante, ainda que continue sendo necessário atribuir maior espaço para outros (as) agentes sociais na narrativa do livro escolar, já que, tanto para demonstrar suas ações históricas como para questioná-las, o bandeirante permanece o ator central.

No texto “A abordagem da temática indígena e da História da África nos livros didáticos: uma experiência na formação docente”, Ingrid Silva de Oliveira Leite demonstra que os livros didáticos, problemáticos em determinados aspectos, podem ser utilizados para o ensino-aprendizagem.  Junto aos alunos de Licenciatura em História do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, ela desenvolveu uma “prática de oficinas utilizando os livros didáticos para refletir sobre a abordagem da História da África, da diversidade da experiência do negro no Brasil e da temática indígena” (p. 157). Em um primeiro momento, instruiu os alunos a analisarem a narrativa sobre o tema. Em seguida, considerando as críticas realizadas, os alunos proporiam aulas, utilizando os livros investigados. O destaque na abordagem da autora é o fato de que a atividade não se restringiu à crítica ao livro didático. O trabalho avançou no sentido de construir propostas de uso do artefato com o objetivo de resolver esses problemas.

No artigo “O ensino de História no Brasil e seus pesquisadores: breves notas sobre uma herança de tensões e proposições”, Letícia Mistura e Flávia Eloisa Caimi revisam a história do ensino de História, afirmando que a prática foi uma “batata quente” jogada da História para a Educação, e vice-versa, até os anos 70 do século passado. Concebia-se a existência de uma discussão educacional geral, que se aplicaria para qualquer conteúdo. Aos historiadores caberia prover o conhecimento do conteúdo historiográfico disponibilizado aos professores. Atualmente, essa dicotomia tem se transformado, significativamente, com a emergência do Ensino de História enquanto área específica de reflexão. Essa área tem se transformado de forma positiva nas últimas décadas, processo que é explicado ao longo do artigo com riqueza de detalhes. A percepção desse processo de quebra de dicotomia possibilita a construção de reflexões que pensem como a pesquisa do livro didático e as próprias características deste material são afetadas pela presença de abismos ou aproximações entre as reflexões da História, da Educação e do Ensino de História.

Em “Los materiales didácticos para la enseñanza de la historia en la formación docente”, Victor Amado Salto e Alicia Graciela Funes focam nas práticas de pesquisa e formação no campo do Ensino de História. Percebem que a educação deve ser um ato radical de democratizar a democracia (p. 230). Mais que pensar materiais didáticos para os professores, é necessário construir estes materiais com os docentes. Considerando esses múltiplos agentes na produção de materiais didáticos, é possível tornar o ensino mais significativo. Os autores demonstram uma série bastante diversa de materiais produzidos com o professorado, evidenciando a  variedade de objetos de acordo com as séries e os temas em questão. Ao buscar articular uma variedade de abordagens e materiais com a realidade dos estudantes, os autores entendem a contribuir para o desenvolvimento de práticas de cidadania crítica.

Miguel Angel Jara, autor de “Los materiales didácticos en la enseñanza de la historia y de las ciencias sociales en Argentina: percepciones del professorado”, trabalha sobre dados obtidos a partir de depoimentos de docentes argentinos que cursavam pós-graduação. Dentre as perguntas do questionário aplicado, indaga sobre materiais didáticos em uso, percebendo certa perda da centralidade do livro didático. Jara acredita que isso se deva ao fato de que nem todos os profissionais projetam  suas aulas a partir das necessidades curriculares. Porém, pouca atenção é dada ao uso criativo do livro didático. Ao refletir sobre o porquê desta perda de centralidade, o autor elenca três fatores principais. Primeiramente, o livro didático não é tão valorizado na academia, focando-se no estudo de objetos como fontes ou imagens. Em segundo lugar, é possível que os livros didáticos não mais reflitam o currículo. Por fim, a falta de atualização dos livros escolares também pode ser um fator importante.

No artigo intitulado “Uma nova história geral didática para compreender o mundo e agir como cidadãos globais”, Ivo Mattozzi defende a necessidade de mudança na História ensinada, a fim de que não se torne irrelevante. Para opor-se a uma narrativa baseada na sucessão de fatos (sem significados para o aluno), Mattozzi discute modelos alternativos de História Geral, demonstrando possibilidades na forma de narrar a História no ambiente escolar. Dentre outros fatores, destaca a necessidade de focar eventos para além dos consagrados (como temáticas militares e político-institucionais), estabelecer relações a partir do presente e abordar a diversidade de agentes históricos. Consideramos que as discussões atuais caminham para amenizar as problemáticas supracitadas, mas estamos longe de solucionar esses problemas. Comparando as proposições do artigo à nossa experiência com a pesquisa de livros didáticos, é possível entender que os livros didáticos têm, aos poucos, atendido a estas três demandas, ainda que sob uma espécie de “remendo” à história canônica consolidada. A singularidade da proposta do autor seria partir do próprio diálogo com o presente, bem como da busca por atender a uma pluralidade de agentes e eventos para pensar que História será contada, ao invés de realizar modificações na História Canônica para tentar minimamente incluir estes elementos.

O último artigo do dossiê é escrito por Margarida Maria Dias de Oliveira e Itamar Freitas. Em “Patrimônio e ensino de história: cinco decisões do professor”, os autores demonstram que as pesquisas atuais sobre Patrimônio e Ensino de História focam na categorização do patrimônio em termos do seu campo semântico ou na instrumentalização de práticas docentes para ensinar sobre o patrimônio. Embora interessantes no âmbito acadêmico, essas abordagens dicotômicas possuem contribuição limitada para a prática docente. Trabalhos que estabeleçam diálogo profundo entre teoria patrimonial e prática educativa ainda são escassos. Visando minimizar essa lacuna e auxiliar aos docentes com a preparação de suas práticas, os autores reiteram que os docentes que se debruçam sobre a matéria devem, em geral, refletir sobre cinco questões centrais. A discussão sobre os cinco tópicos levantados no artigo é uma importante ferramenta para o planejamento educativo. Ela pode ajudar na inclusão do Patrimônio em livros didáticos de História como objeto e meio de aprendizagem histórica, posto que o artefato é, compreensivamente, compelido a dar conta de uma grande quantidade de temáticas históricas.

Com esses comentários, em síntese, pensamos que o dossiê contribui com a pesquisa sobre o Ensino de História, na medida em que nos atualiza sobre as perspectivas de abordar o livro didático desse componente curricular. Apesar de nem todos os artigos empregarem o livro didático com objeto ou questão central, o Dossiê amplia nosso conhecimento em termos das narrativas históricas presentes no livro didático, das estruturas gerais que o compõem, das possibilidades de transformação cientifica e socialmente engajadas desse material. Destacamos, também, o diálogo entre múltiplas autoridades, internacionais e nacionais que, relativas ao livro didático de História. De modo geral, as pesquisas demonstram a complexa rede de relações entre transformações e permanências no livro escolar, apresentando, cada uma a seu modo, alternativas possíveis para que os livros didáticos permaneçam relacionados tanto com as áreas do conhecimento nas quais se situam como às realidades sociais a que se destinam.

Na apresentação do Dossiê “Ensino de História, livro didático e formação docente”, os organizadores destacaram que a coletânea em questão é ferramenta de luta e enfrentamentos, contendo as digitais de seu tempo, marcado por batalhas entre forças de caráter fascista e suas oposições. Após a observação dos artigos envolvidos, podemos constatar essa função. Frente aos diversos ensinamentos apresentados, o dossiê contribui para a resistência às visões deturpadas em relação à produção do conhecimento. É mais um passo à nossa caminhada em direção a uma sociedade democrática não apenas formalmente, mas também em termos de conteúdo.


Sumário de Dossiê Temático “Ensino de História, livro didático e formação docente”


Resenhista

Rafael Fiedoruk Quinzani é mestrando em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Licenciado (2019) e Bacharel (2020) em História pela Universidade Federal de Santa Maria. Entre outros trabalhos, publicou  “Abordagem da Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964-1985) na segunda edição do livro didático História em Movimento”, em parceria com José Iran Ribeiro. É membro da Equipe Editorial da Revista Espacialidades. ID: https://orcid.org/0000-0002-2332-6877. E-mail: [email protected]

 


Para citar esta resenha

CAVALCANTI, Erinaldo Vicente; ROCHA, Helenice Aparecida Bastos (org.). Dossiê: Ensino de História, livro didático e formação docente. In: Revista Escritas do Tempo. Marabá, v.2, n.5, p.4-264, 2020. Disponível em:<https://periodicos.unifesspa.edu.br/index.php/escritasdotempo/issue/view/27>. Acesso em: 30 mar. 2021. DOI: https://doi.org/10.47694/issn.2674-7758.v2.i5.2020. Resenha de: QUINZANI, Rafael Fiedoruk. Contexto, conteúdo e diálogos transversais. Crítica Historiográfica, v.2, n.4, p.34-39, mar./abr. 2022.

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