Percursos Monetários Brasileiros — Resenha de Marcos Manoel Silva Severiano (URCA) sobre o livro “A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013”, de Gustavo Franco

Gustavo Franco | Foto: Fábio Motta/Estadão

Resumo: A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013, é o mais novo livro de Gustavo Franco. Trata-se de uma escrita do passado econômico brasileiro após a implementação da moeda fiduciária no país, que viveu a gênese tardia do Banco Central e passou por oito padrões financeiros.

Palavras-chave: História Econômica, Moeda, Economia Brasileira, Inflação.


A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira1933–2013, do economista Gustavo Henrique de Barroso Franco, recebeu em 2018 a sua segunda edição, apenas um ano após a publicação original, pela editora Zahar. Nas suas 848 páginas, o autor constrói um dialogo entre História, Direito e Economia, rico em documentações, para tentar apresentar sua tese de que o Brasil apresentou, ao longo de sua história econômica, momentos de hiperinflação, bem como para destacar a importância de instituições como o Banco Central em um país com uma moeda fiduciária, quando ela perde seu vínculo direto com algo material, seja ouro, prata ou qualquer metal, e passa a ter seu valor apenas pela relação de confiança estabelecida nas relações sociais, fundamentada na lei. O autor, deixa claro, desde o prefácio, que as legislações servirão de fio condutor para um estudo sobre a economia brasileira, perfazendo oito décadas e oito padrões monetários adotados no Brasil durante o período estudado.

Gustavo Franco é economista de formação, com mestrado pela PUC-Rio e doutorado pela Universidade de Harvard, exercendo o cargo de professor do departamento de economia da PUC-Rio desde 1986, instituição notadamente reconhecida por seus professores vinculados ao mainstream da Ciência Econômica. Como economista, o autor fez parte da equipe que desenvolveu o Plano Real, responsável pela criação da atual moeda brasileira, e exerceu o cargo de presidente do Banco Central do Brasil em 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Como escritor, Gustavo Franco possuí mais de dez obras publicadas, tendo vencido o prêmio BNDES, em 1982, com a sua tese de mestrado, intitulada Reforma Monetária e Instabilidade Durante a Transição Republicana¸ onde estuda a crise do encilhamento na República Velha brasileira, e o Prêmio Haralambros Simionides 1987 com sua tese de doutorado Aspects of the Economics of Hyperinflations: Theoretical Issues and Historical Studies of Four European Hyperinflations of the 1920s, defendida em Harvard, onde estuda as crises monetárias europeias no pós Primeira Guerra Mundial. Gustavo Franco ainda foi laureado com outros prêmios na área de economia e atuou na fundação do Partido Novo no Brasil. A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013 é a sua obra mais recente e compila muitos dos aprendizados e teorias desenvolvidas em sua trajetória profissional e em suas obras anteriores.

Em A Moeda e a Lei, Gustavo Franco desenvolve a narrativa, ao longo de nove capítulos. Nos dois primeiros, o autor apresenta um resumo da história da moeda fiduciária no Brasil. Começando pelas primeiras ações tomadas ainda no governo Vargas para a construção de alternativas frente a crise provocada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929, destacando a promessa de uma moeda mais forte e capaz de lidar com os fluxos do mercado, até a estabilização promovida pela criação do Plano Real, do qual o próprio autor auxiliou na construção, e os desafios para o futuro econômico brasileiro. As bases conceituais a serem trabalhadas ao longo do livro também são destacadas, apresentando ao leitor os jargões econômicos e as abordagens adotadas para eles. No primeiro capítulo, o autor ainda delineia seu plano para o livro, orientando o leitor acerca das discussões que serão elencadas, permitindo-nos organizar a reflexão a partir dali em três eixos: As teorias sobre a moeda (desenvolvidas nos capítulos 3 ao 4), O papel do Banco Central nas políticas de câmbio (abordado nos capítulos 5 e 6) e os planos econômicos dos governos após a redemocratização (nos capítulos 7 e 8), tendo no último capítulo as suas considerações finais a respeito do tema, mas deixando claro que a discussão não se esgota na temporalidade adotada.

Nestes dois primeiros capítulos o autor superlativa os momentos de crise da economia brasileira, tentando evidenciar ao leitor o conceito de hiperinflação por ele adotado, visto que segundo o conceito oficial, o Brasil não teria atingido os níveis necessários para este enquadramento. O autor utiliza-se de diversas fontes, como relatórios do banco central, análises das taxas de câmbio e legislações adotadas ao longo do período para respaldar a narrativa que traça ao longo da obra. Conceitos como nominalismo e desindexação são destrinchados para facilitar, ao leitor pouco versado nos termos da Economia, mas mesmo assim, requerendo do mesmo, muita atenção quanto aos dados, estatísticas e projeções apresentadas, para que não se perca nos percursos narrativos abordados.

Nos capítulos três e quatro o autor traça uma caminhada temporal acerca das moedas brasileiras, passando pelas oito moedas adotas pelo estado (Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real e Real) apresentando as políticas econômicas desenvolvidas na esperança de “salvar” o país de crises ou revitalizar a vida social a partir da injeção de dinheiro. De Vargas aos governos do PT no século XXI, o autor analisa que a moeda teve um cunho politico muito mais forte que uma reflexão econômica real, passando por épocas de grandes controles do Estado sobre as questões fiscais, como na Era Vargas, resvalando em ampliação de dívidas externas e internas, em favor de um projeto desenvolvimentista sem consciência econômica. Essa análise favorece o discurso de Gustavo Franco, para exaltar a construção do plano econômico do qual fez parte: o Plano Real. Neste ponto, um destaque para suas contribuições na “vitória” desta moeda no controle dos problemas sociais gerados pelas altas de preços, cobranças internacionais e dificuldades de governabilidades, mas o autor não se furta a criticar os caminhos que essa mesma moeda tomaria após a sua saída dos postos de gestor econômico nacional, valorizando as interferências politicas passadas e presentes na economia como pontos causadores de uma situação “desastrosa” para a economia.

Nos capítulos cinco e seis de A moeda e a Lei, Gustavo Franco nos leva a conhecer a história do Banco Central do Brasil, órgão criado em 1964 para ser a principal autoridade monetária do país. Segundo o autor, essa autarquia federal, apesar de autônoma, sempre foi aparelhada pelos governantes em favor de ações populistas. Nascido tardiamente, começando a funcionar em 1965, em plena Ditadura Militar, acabou por servir para impulsionar uma falsa ideia de “milagre econômico” as custas de aumento das dívidas nacionais. Suas atribuições frente à emissão de moeda, gestão do câmbio e executor políticas monetárias para controle de juros, que deveriam visar ao estímulo ao desenvolvimento econômico e garantir a supervisão das demais entidades bancarias nacionais, privadas e públicas, eram desvirtuadas antecipando uma situação desastrosa que resultaria nas crises inflacionárias vivenciadas nas décadas de 1980/90, onde a falta de controle e os endividamentos existentes começaram a resvalar de forma mais incisiva nos cidadãos do país.

Os capítulos sete e oito são destinados aos principais intuitos do autor na construção desta obra. Apresentando os fracassos das medidas adotadas após a redemocratização com planos como Bresser (1987), Verão (1989), Collor 1 (1990) e Collor 2 (1991), tentando corrigir a desvalorização existente com ações que impactaram nos saldos das poupanças. O controle inflacionário tornava-se complicado e gerava medidas desastrosas por parte do Estado, culminando num aumento da inflação para índices superiores a 50% ao mês. As privatizações e redução da máquina pública foram ações adotadas para conter, segundo o autor, de forma precipitada o caos financeiro que o país se encontrava. Neste ponto, o autor retoma a ideia de Hiperinflação existente no Brasil, comparando os picos existentes no país com casos específicos da Europa (Alemanha, Hungria) e América Latina (Argentina).

Todo esse cenário serve, ao autor, para a exaltação da sua contribuição para a retomada econômica nacional com o plano Real, inspirado nos feitos de Hjalmar Schacht durante o governo de Weimar na Alemanha.

Hjalmar Schacht | Imagem: Central BankingLibrary of Congress

Em sua conclusão, no capítulo nove, o autor propõe uma retomada da autonomia do Banco Central e uma política econômica mais equilibrada, com controle do fisco e melhor monitoramento das políticas sociais, para uma retomada da questão econômica. Tudo é superlativo neste percurso construído pelo autor, com destaque para as dramaticidades econômicas que garantem uma exaltação da participação do próprio autor na concepção de uma solução econômica para o país retratada no plano Real. O Brasil, para Gustavo Franco, padece deste espectro da política pairando nos campos econômicos, sempre esperando uma salvação vinda de uma ideia genial ou um salvador (como o próprio autor).

O livro expõe um rigoroso trabalho de pesquisa acerca da economia brasileira, feito ao longo de toda sua carreia como economista e professor e resultado do curso ministrado pelo autor aos alunos da PUC-Rio ao longo de vários anos. Com uma linguagem repleta de jargões econômicos e legais, os leitores menos familiarizados com o meio podem se sentir assustados e privados das compreensões que o autor tenta executar. Os capítulos acerca da gênese do Banco Central e de seu desenvolvimento conseguem atingir leitores mais familiarizados com os aspectos históricos, conseguindo perceber neles as relações político-econômicas, que o autor tenta trazer ao longo de todo o livro, com mais facilidade. As partes acerca do plano Real, deixam evidente o quanto o envolvimento de Gustavo Franco na concepção do projeto, destilam sentimentos pessoais, mesmo que sutilmente, criando heróis e vilões mais subjetivados.

O passeio pela história da moeda brasileira, sob os caminhos da lei, traçados por Gustavo Franco, permitem também acesso a uma gama ampla de referências para reflexões acerca do tema, de maioria pública. A variedade de fontes utilizadas ampliam a credibilidade da obra, mas o fato do autor fazer parte de alguns episódios trabalhados faz com que alguns documentos utilizados para suas análises sejam frutos dos acessos garantidos pelas prerrogativas dos cargos exercidos. Apesar disso, o trabalho prima pela fundamentação teórica acerca do tema, tentando, mesmo que nem sempre sendo bem sucedido, aproximar ao leitor leigo a compreensão dos impactos políticos numa ideia de moeda baseada na confiança existente entre os cidadãos e o Estado. A Moeda e a Lei merece uma leitura minuciosa por parte dos interessados em conhecer mais acerca da história econômica brasileira, principalmente da relação estabelecida entre Economia e as esferas de poder quando a moeda perde seu vínculo com o material e passa a se sustentar no imaterial das relações sociais, algo tão complexo em um país como o Brasil onde estas relações não escondem seus interesses.

Sumário de A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013

  • 1. Moeda fiduciária no Brasil: um sumário de oitenta anos, 1933–2013
  • 2. As metamorfoses da moeda: nominalismo, desindexação e dívida
  • 3. A moeda brasileira e a dos outros: a era dos controles, 1933–1983
  • 4. A moeda brasileira e a dos outros: a liberalização e seus descontentes, 1983–2013
  • 5. A gênese tardia do banco central: antecedentes, projetos e criação
  • 6. O Banco Central desfigurado: anatomia do desastre, 1964–1993
  • 7. Planos heterodoxos, suas ilusões e inovações
  • 8. O Plano Real e a reconstrução da moeda
  • 9. Balanço e perspectivas do aperfeiçoamento institucional da moeda
  • Lista de siglas úteis
  • Notas
  • Referências bibliográficas
  • índice Onomástico

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Marcos Manoel Silva Severiano é licenciado em História (URCA), bacharel em Psicologia (UniLeão), com especialização em Gestão Escolar (Faculdade Descomplica) e Docência do Ensino Superior (UniLeão), mestrando em História pelo ProfHistória (URCA). Desenvolve atividades nas áreas de educação, história e psicologia, atuando com gestão escolar, direção pedagógica e coordenação pedagógica, além de professor do Ensino Médio da rede estadual e privada no Estado do Ceará. Também é criador de conteúdo digital através do Canal Paradigmata no Youtube e Spotify. Redes sociais: marcosrua47 ID Lattes: http://lattes.cnpq.br/5429477567940296. ID ORCID: https://orcid.org/0009-0009-0876-624X; Email: [email protected].


Para citar esta resenha

FRANCO, Gustavo H. de B. A moeda e a lei: uma história monetária brasileira (1933-2013). 2.edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. 848p. Resenha de: SEVERIANO, Marcos Manoel Silva. Percursos Monetários Brasileiros. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.12, jul./ago., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/percursos-monetarios-brasileiros-resenha-de-marcos-manoel-silva-severiano-urca-sobre-o-livro-a-moeda-e-a-lei-uma-historia-monetaria-brasileira-1933-2013-de-gu/>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 12, jul./ago., 2023 | ISSN 2764-2666

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Percursos Monetários Brasileiros — Resenha de Marcos Manoel Silva Severiano (URCA) sobre o livro “A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013”, de Gustavo Franco

Gustavo Franco | Foto: Fábio Motta/Estadão

Resumo: A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013, é o mais novo livro de Gustavo Franco. Trata-se de uma escrita do passado econômico brasileiro após a implementação da moeda fiduciária no país, que viveu a gênese tardia do Banco Central e passou por oito padrões financeiros.

Palavras-chave: História Econômica, Moeda, Economia Brasileira, Inflação.


A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira1933–2013, do economista Gustavo Henrique de Barroso Franco, recebeu em 2018 a sua segunda edição, apenas um ano após a publicação original, pela editora Zahar. Nas suas 848 páginas, o autor constrói um dialogo entre História, Direito e Economia, rico em documentações, para tentar apresentar sua tese de que o Brasil apresentou, ao longo de sua história econômica, momentos de hiperinflação, bem como para destacar a importância de instituições como o Banco Central em um país com uma moeda fiduciária, quando ela perde seu vínculo direto com algo material, seja ouro, prata ou qualquer metal, e passa a ter seu valor apenas pela relação de confiança estabelecida nas relações sociais, fundamentada na lei. O autor, deixa claro, desde o prefácio, que as legislações servirão de fio condutor para um estudo sobre a economia brasileira, perfazendo oito décadas e oito padrões monetários adotados no Brasil durante o período estudado.

Gustavo Franco é economista de formação, com mestrado pela PUC-Rio e doutorado pela Universidade de Harvard, exercendo o cargo de professor do departamento de economia da PUC-Rio desde 1986, instituição notadamente reconhecida por seus professores vinculados ao mainstream da Ciência Econômica. Como economista, o autor fez parte da equipe que desenvolveu o Plano Real, responsável pela criação da atual moeda brasileira, e exerceu o cargo de presidente do Banco Central do Brasil em 1995, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Como escritor, Gustavo Franco possuí mais de dez obras publicadas, tendo vencido o prêmio BNDES, em 1982, com a sua tese de mestrado, intitulada Reforma Monetária e Instabilidade Durante a Transição Republicana¸ onde estuda a crise do encilhamento na República Velha brasileira, e o Prêmio Haralambros Simionides 1987 com sua tese de doutorado Aspects of the Economics of Hyperinflations: Theoretical Issues and Historical Studies of Four European Hyperinflations of the 1920s, defendida em Harvard, onde estuda as crises monetárias europeias no pós Primeira Guerra Mundial. Gustavo Franco ainda foi laureado com outros prêmios na área de economia e atuou na fundação do Partido Novo no Brasil. A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013 é a sua obra mais recente e compila muitos dos aprendizados e teorias desenvolvidas em sua trajetória profissional e em suas obras anteriores.

Em A Moeda e a Lei, Gustavo Franco desenvolve a narrativa, ao longo de nove capítulos. Nos dois primeiros, o autor apresenta um resumo da história da moeda fiduciária no Brasil. Começando pelas primeiras ações tomadas ainda no governo Vargas para a construção de alternativas frente a crise provocada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929, destacando a promessa de uma moeda mais forte e capaz de lidar com os fluxos do mercado, até a estabilização promovida pela criação do Plano Real, do qual o próprio autor auxiliou na construção, e os desafios para o futuro econômico brasileiro. As bases conceituais a serem trabalhadas ao longo do livro também são destacadas, apresentando ao leitor os jargões econômicos e as abordagens adotadas para eles. No primeiro capítulo, o autor ainda delineia seu plano para o livro, orientando o leitor acerca das discussões que serão elencadas, permitindo-nos organizar a reflexão a partir dali em três eixos: As teorias sobre a moeda (desenvolvidas nos capítulos 3 ao 4), O papel do Banco Central nas políticas de câmbio (abordado nos capítulos 5 e 6) e os planos econômicos dos governos após a redemocratização (nos capítulos 7 e 8), tendo no último capítulo as suas considerações finais a respeito do tema, mas deixando claro que a discussão não se esgota na temporalidade adotada.

Nestes dois primeiros capítulos o autor superlativa os momentos de crise da economia brasileira, tentando evidenciar ao leitor o conceito de hiperinflação por ele adotado, visto que segundo o conceito oficial, o Brasil não teria atingido os níveis necessários para este enquadramento. O autor utiliza-se de diversas fontes, como relatórios do banco central, análises das taxas de câmbio e legislações adotadas ao longo do período para respaldar a narrativa que traça ao longo da obra. Conceitos como nominalismo e desindexação são destrinchados para facilitar, ao leitor pouco versado nos termos da Economia, mas mesmo assim, requerendo do mesmo, muita atenção quanto aos dados, estatísticas e projeções apresentadas, para que não se perca nos percursos narrativos abordados.

Nos capítulos três e quatro o autor traça uma caminhada temporal acerca das moedas brasileiras, passando pelas oito moedas adotas pelo estado (Cruzeiro, Cruzeiro Novo, Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real e Real) apresentando as políticas econômicas desenvolvidas na esperança de “salvar” o país de crises ou revitalizar a vida social a partir da injeção de dinheiro. De Vargas aos governos do PT no século XXI, o autor analisa que a moeda teve um cunho politico muito mais forte que uma reflexão econômica real, passando por épocas de grandes controles do Estado sobre as questões fiscais, como na Era Vargas, resvalando em ampliação de dívidas externas e internas, em favor de um projeto desenvolvimentista sem consciência econômica. Essa análise favorece o discurso de Gustavo Franco, para exaltar a construção do plano econômico do qual fez parte: o Plano Real. Neste ponto, um destaque para suas contribuições na “vitória” desta moeda no controle dos problemas sociais gerados pelas altas de preços, cobranças internacionais e dificuldades de governabilidades, mas o autor não se furta a criticar os caminhos que essa mesma moeda tomaria após a sua saída dos postos de gestor econômico nacional, valorizando as interferências politicas passadas e presentes na economia como pontos causadores de uma situação “desastrosa” para a economia.

Nos capítulos cinco e seis de A moeda e a Lei, Gustavo Franco nos leva a conhecer a história do Banco Central do Brasil, órgão criado em 1964 para ser a principal autoridade monetária do país. Segundo o autor, essa autarquia federal, apesar de autônoma, sempre foi aparelhada pelos governantes em favor de ações populistas. Nascido tardiamente, começando a funcionar em 1965, em plena Ditadura Militar, acabou por servir para impulsionar uma falsa ideia de “milagre econômico” as custas de aumento das dívidas nacionais. Suas atribuições frente à emissão de moeda, gestão do câmbio e executor políticas monetárias para controle de juros, que deveriam visar ao estímulo ao desenvolvimento econômico e garantir a supervisão das demais entidades bancarias nacionais, privadas e públicas, eram desvirtuadas antecipando uma situação desastrosa que resultaria nas crises inflacionárias vivenciadas nas décadas de 1980/90, onde a falta de controle e os endividamentos existentes começaram a resvalar de forma mais incisiva nos cidadãos do país.

Os capítulos sete e oito são destinados aos principais intuitos do autor na construção desta obra. Apresentando os fracassos das medidas adotadas após a redemocratização com planos como Bresser (1987), Verão (1989), Collor 1 (1990) e Collor 2 (1991), tentando corrigir a desvalorização existente com ações que impactaram nos saldos das poupanças. O controle inflacionário tornava-se complicado e gerava medidas desastrosas por parte do Estado, culminando num aumento da inflação para índices superiores a 50% ao mês. As privatizações e redução da máquina pública foram ações adotadas para conter, segundo o autor, de forma precipitada o caos financeiro que o país se encontrava. Neste ponto, o autor retoma a ideia de Hiperinflação existente no Brasil, comparando os picos existentes no país com casos específicos da Europa (Alemanha, Hungria) e América Latina (Argentina).

Todo esse cenário serve, ao autor, para a exaltação da sua contribuição para a retomada econômica nacional com o plano Real, inspirado nos feitos de Hjalmar Schacht durante o governo de Weimar na Alemanha.

Hjalmar Schacht | Imagem: Central BankingLibrary of Congress

Em sua conclusão, no capítulo nove, o autor propõe uma retomada da autonomia do Banco Central e uma política econômica mais equilibrada, com controle do fisco e melhor monitoramento das políticas sociais, para uma retomada da questão econômica. Tudo é superlativo neste percurso construído pelo autor, com destaque para as dramaticidades econômicas que garantem uma exaltação da participação do próprio autor na concepção de uma solução econômica para o país retratada no plano Real. O Brasil, para Gustavo Franco, padece deste espectro da política pairando nos campos econômicos, sempre esperando uma salvação vinda de uma ideia genial ou um salvador (como o próprio autor).

O livro expõe um rigoroso trabalho de pesquisa acerca da economia brasileira, feito ao longo de toda sua carreia como economista e professor e resultado do curso ministrado pelo autor aos alunos da PUC-Rio ao longo de vários anos. Com uma linguagem repleta de jargões econômicos e legais, os leitores menos familiarizados com o meio podem se sentir assustados e privados das compreensões que o autor tenta executar. Os capítulos acerca da gênese do Banco Central e de seu desenvolvimento conseguem atingir leitores mais familiarizados com os aspectos históricos, conseguindo perceber neles as relações político-econômicas, que o autor tenta trazer ao longo de todo o livro, com mais facilidade. As partes acerca do plano Real, deixam evidente o quanto o envolvimento de Gustavo Franco na concepção do projeto, destilam sentimentos pessoais, mesmo que sutilmente, criando heróis e vilões mais subjetivados.

O passeio pela história da moeda brasileira, sob os caminhos da lei, traçados por Gustavo Franco, permitem também acesso a uma gama ampla de referências para reflexões acerca do tema, de maioria pública. A variedade de fontes utilizadas ampliam a credibilidade da obra, mas o fato do autor fazer parte de alguns episódios trabalhados faz com que alguns documentos utilizados para suas análises sejam frutos dos acessos garantidos pelas prerrogativas dos cargos exercidos. Apesar disso, o trabalho prima pela fundamentação teórica acerca do tema, tentando, mesmo que nem sempre sendo bem sucedido, aproximar ao leitor leigo a compreensão dos impactos políticos numa ideia de moeda baseada na confiança existente entre os cidadãos e o Estado. A Moeda e a Lei merece uma leitura minuciosa por parte dos interessados em conhecer mais acerca da história econômica brasileira, principalmente da relação estabelecida entre Economia e as esferas de poder quando a moeda perde seu vínculo com o material e passa a se sustentar no imaterial das relações sociais, algo tão complexo em um país como o Brasil onde estas relações não escondem seus interesses.

Sumário de A Moeda e a Lei: Uma história monetária brasileira, 1933–2013

  • 1. Moeda fiduciária no Brasil: um sumário de oitenta anos, 1933–2013
  • 2. As metamorfoses da moeda: nominalismo, desindexação e dívida
  • 3. A moeda brasileira e a dos outros: a era dos controles, 1933–1983
  • 4. A moeda brasileira e a dos outros: a liberalização e seus descontentes, 1983–2013
  • 5. A gênese tardia do banco central: antecedentes, projetos e criação
  • 6. O Banco Central desfigurado: anatomia do desastre, 1964–1993
  • 7. Planos heterodoxos, suas ilusões e inovações
  • 8. O Plano Real e a reconstrução da moeda
  • 9. Balanço e perspectivas do aperfeiçoamento institucional da moeda
  • Lista de siglas úteis
  • Notas
  • Referências bibliográficas
  • índice Onomástico

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Marcos Manoel Silva Severiano é licenciado em História (URCA), bacharel em Psicologia (UniLeão), com especialização em Gestão Escolar (Faculdade Descomplica) e Docência do Ensino Superior (UniLeão), mestrando em História pelo ProfHistória (URCA). Desenvolve atividades nas áreas de educação, história e psicologia, atuando com gestão escolar, direção pedagógica e coordenação pedagógica, além de professor do Ensino Médio da rede estadual e privada no Estado do Ceará. Também é criador de conteúdo digital através do Canal Paradigmata no Youtube e Spotify. Redes sociais: marcosrua47 ID Lattes: http://lattes.cnpq.br/5429477567940296. ID ORCID: https://orcid.org/0009-0009-0876-624X; Email: [email protected].


Para citar esta resenha

FRANCO, Gustavo H. de B. A moeda e a lei: uma história monetária brasileira (1933-2013). 2.edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. 848p. Resenha de: SEVERIANO, Marcos Manoel Silva. Percursos Monetários Brasileiros. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.12, jul./ago., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/percursos-monetarios-brasileiros-resenha-de-marcos-manoel-silva-severiano-urca-sobre-o-livro-a-moeda-e-a-lei-uma-historia-monetaria-brasileira-1933-2013-de-gu/>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 12, jul./ago., 2023 | ISSN 2764-2666

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