O jogo do ofuscamento — Resenha de Petrônio Domingues (UFS) sobre o livro “Racismo sem racistas: o racismo da cegueira de cor e a persistência da desigualdade na América”, de Eduardo Bonilla-Silva

Eduardo Bonilla-Silva | Imagem: DukeScholars

Resumo: Em Racismo sem racistas: o racismo da cegueira de cor e a persistência da desigualdade na América, Eduardo Bonilla-Silva explora o “racismo da cegueira de cor” nos EUA, uma ideologia que justifica desigualdades raciais sem reconhecer o racismo estrutural. Ele critica a postura das pessoas brancas que negam responsabilidade pelas desvantagens raciais. A obra, elogiada por sua originalidade e rigor teórico, enfrenta críticas por seu tom proselitista na conclusão, onde prescreve ações antirracistas.

Palavras-chave: Racismo, Racistas, Racismo Estrutural.


Os Estados Unidos são um país marcado historicamente pelas desigualdades raciais, conforme atestam todos os indicadores nos domínios da educação, moradia, mercado de trabalho, saúde, mídia, representação política etc. Como é possível que persista essa desigualdade em um país no qual a maioria das pessoas brancas afirma que a raça não é mais relevante? Mais importante ainda: como as pessoas brancas explicam a aparente contradição entre sua cegueira de cor e a desigualdade estadunidense identificada pela cor? Em Racismo sem racistas, Eduardo Bonilla-Silva busca responder a essas questões.

Nascido em Porto Rico, Bonilla-Silva é sociólogo, professor da Universidade Duke, localizada na cidade de Durham, na Carolina do Norte. Já recebeu vários prêmios, como o Lewis A. Coser, dedicado aos sociólogos cujo trabalho estabelece novos parâmetros no campo da Sociologia. Racismo sem racistas, lançado nos Estados Unidos em 2006, foi indicado como Choice Outstanding Academic Title (Título Acadêmico de Destaque) pela American Library Association. O livro foi traduzido para o português e publicado no Brasil em 2020. Seu objetivo é entender uma nova ideologia racial emergente nos Estados Unidos, designada pelo autor como “racismo da cegueira de cor”.

Essa ideologia, que adquiriu projeção no final dos anos de 1960, explica a desigualdade racial contemporânea como o resultado de uma dinâmica não racial. Enquanto para o racismo do Jim Crow (termo para designar as leis promulgadas no Sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial entre 1876 e 1965) a posição social dos negros se devia à sua inferioridade biológica e moral, o “racismo da cegueira de cor” evita tais argumentos simplistas. Em vez disso, as pessoas brancas desenvolveram explicações sofisticadas para a desigualdade racial contemporânea que as isentam de qualquer responsabilidade pela situação de desvantagens e subordinações das pessoas de cor.

Segundo Bonilla-Silva, o racismo da cegueira de cor tornou-se a ideologia racial dominante. As práticas desse “novo racismo” são sutis, institucionais e aparentemente não raciais. Diferentemente do período Jim Crow, quando a desigualdade racial era imposta por meios explícitos (por exemplo, cartazes dizendo “Negros não são bem-vindos aqui”), as práticas raciais atuais operam segundo o modelo “ora você vê, ora você não vê”. Independentemente do local (bancos, restaurantes, admissões a escolas ou transações imobiliárias), a manutenção do privilégio branco é tão velada que desafia leituras raciais simplistas. Assim, os contornos do racismo da cegueira de cor se ajustam bem ao novo racismo estadunidense.

Comparado ao racismo Jim Crow, a ideologia da cegueira de cor assemelha-se a um “racismo leve”. Em vez de valer-se de xingamentos, o racismo da cegueira de cor faz uso de expressões mais suaves, preservando o privilégio da branquitude sem alarde, sem nomear aqueles a quem submete e aqueles a quem recompensa. Assim, as pessoas brancas enunciam posições que salvaguardam seus interesses raciais sem que soem “racistas”. Protegidas pelo escudo da cegueira de cor, elas podem expressar ressentimento em relação às minorias; criticar sua moralidade, seus valores e sua ética de trabalho; e até alegar que são vítimas de um “racismo reverso”.

Essa é a tese que Bonilla-Silva defende no livro, para explicar o surpreendente enigma do “racismo sem racistas”. Para o desenvolvimento dessa tese, o autor estruturou o livro em dez capítulos. No primeiro, mostra como o racismo da cegueira de cor surgiu como uma nova ideologia racial no fim dos anos de 1960, em sintonia com a consolidação do “novo racismo” que configurou a nova estrutura racial da América. No segundo, Bonilla-Silva aborda como esse “novo racismo” emergiu e delineia suas principais práticas e mecanismos nas áreas social, econômica, política e de controle social. Tais práticas e mecanismos sociais para a reprodução do privilégio racial assumiram um novo formato, fugidio e aparentemente desracializado, suscitando novas racionalizações para justificar a nova ordem racial, eis o tema do terceiro capítulo.

Todas as ideologias desenvolvem um conjunto de qualidades estilísticas, uma certa maneira de transmitir suais ideias ao público. O racismo da cegueira da cor não é diferente. No capítulo quarto, o autor registra os principais elementos estilísticos dessa ideologia, Já no capítulo quinto, discute as story lines e histórias pessoais que surgiram na era pós-movimento dos direitos civis, em vista de fornecer carga emotiva ao racismo da cegueira da cor.

Usando dados sistemáticos de entrevistas e referências, Bonilla-Silva analisa no capítulo sexto os padrões de interações inter-raciais das pessoas brancas e conclui que elas tendem a manejar e circular no que o autor rotula de “habitus branco”, ou um conjunto de “redes e associações primárias com outros brancos, que reforça a ordem racial ao promover solidariedade racial entre brancos e sentimentos emotivos negativos em relação a ‘outros’ raciais”.

No capítulo sétimo, Bonilla-Silva enfoca os “traidores da raça”, ou seja, as pessoas brancas que não respaldam a ideologia da cegueira de cor. Ainda assim, o “novo racismo” afeta inclusive as pessoas brancas progressistas. Será que também afeta as pessoas negras? A tentativa de responder a essa indagação é o tema do capítulo oitavo. Embora as pessoas negras tenham desenvolvido uma ideologia de oposição, o racismo da cegueira de cor os atinge de forma indireta.

No capítulo nono, o autor refuta as afirmações de que os Estados Unidos ainda estão estruturados em torno de uma linha divisória birracial e postula que nação esteja se convertendo em direção a uma ordem trirracial ou “plural”, semelhante à existente em muitos países da América Latina e Caribe. No capítulo décimo, o autor examina o fenômeno Barack Obama e sugere que ele não é uma expressão do pós-racialismo, mas parte do cenário de cegueira de cor pautado no livro. Na “conclusão”, Bonilla-Silva avalia as implicações do “novo racismo”, da latino-americanização das assimetrias raciais e da Obamérica para a luta pela justiça racial e social nesse país.

Um ponto controverso do livro talvez seja o fato de Bonilla-Silva — embora tecer análises bem fundamentadas e respaldadas pelas fontes e evidências factuais — assumir, pelo menos no tópico “conclusão”, um caráter proselitista. Não é para menos. Desde cedo, seu trabalho acadêmico se vinculou a um intenso ativismo social. No final do livro, o autor prescreve às pessoas brancas como “combater o racismo da cegueira de cor na América”. Apesar de reconhecer que não existe um único caminho para isso, ele não se satisfaz em traçar um diagnóstico das desigualdades raciais; também prescreve a “receita” — “o que deve ser feito” politicamente para superar tal quadro. Na sua avaliação, as pessoas brancas devem se engajar nas organizações, mobilizações e coalizões de cunho antirracista, afinal, “embora o trabalho do movimento social seja lento, difícil e um pouco inconcluso, em última análise, é mais provável que seja a principal forma de mudar o mundo” (p.x).

Por outro lado, os pontos positivos da obra são muitos: a originalidade da abordagem, o rigor teórico-metodológico e a consistência das fontes compulsadas. Gostaria de destacar, porém, a ousadia do autor em demonstrar que o racismo se modifica em características, feições e dimensões de acordo com as transformações sociais. Há um “novo racismo” nos Estados Unidos de pós-movimentos pelos direitos civis, fundado na “cegueira de cor”, cujas práticas são discretas, fluídas e aparentemente desprovidas de caráter racial. Isso não se confunde com um “racismo cordial” ou “racismo dissimulado”, nem significa que o “racismo Jim Crow” (defesa aberta da supremacia branca) tenha desaparecido.

O que Bonilla-Silva demonstra é que o racismo segregacionista cedeu espaço para um novo racismo, que se utiliza da linguagem do liberalismo para negar o peso do racismo na sociedade, hipotecando aos negros a responsabilidade pelos seus infortúnios, já que não teria o ‘preparo necessário exigido pelo mercado’ ou cuja cultura não se adaptaria aos ‘exigidos padrões de desempenho’. Ou seja, a desigualdade entre brancos e não brancos é justificada pela ‘dinâmica do mercado’ ou de ‘fenômenos que ocorrem naturalmente e das limitações culturais imputadas aos negros’.

Fernando Dias: O negro que se tornou o primeiro caso na Justiça de racismo no Brasil | Imagem: Mauro Pimentel/El País

Aqui está um livro que não se rende a simplificações. A questão racial é apresentada em suas nuances mais complexas. Bonilla-Silva é um autor arrojado, que busca transformar suas ideias em libelo para uma ação transformadora. Racismo sem racistas é um livro inovador, pois evidencia como o “racismo da cegueira de cor” vai além das concepções que apreendem o racismo como resultado da ação individual. Em vez disso, ressalta a dimensão estrutural e institucional do racismo, permitindo que a crítica se volte ao sistema que produz os sujeitos raciais e, com eles, a desigualdade.

Provavelmente por conta de seu caráter inovador, o livro de Eduardo Bonilla-Silva tem repercutido transnacionalmente, influenciando inclusive intelectuais brasileiros. Silvio Almeida, por exemplo, declara no prefácio à edição brasileira, que muitos dos arrazoados que ele teceu na obra Racismo Estrutural (2018) basearam-se no livro de Bonilla-Silva, hoje traduzido em língua portuguesa. É verdade que o racismo no Brasil tenha diferenças com a realidade dos Estados Unidos, mas, tanto lá quanto aqui, as transformações conjunturais na economia e na política se refletem no processo de racialização, de modo que a “retórica baseada na cegueira de cor, na meritocracia e na igualdade formal, típicas do liberalismo, também chegam a nós de um modo bastante particular”. Neste contexto, Racismo sem racistas “serve-nos como um ponto de partida também para análises sobre o racismo na América Latina, particularmente no Brasil” (p.x).

O livro cumpre os objetivos anunciados. A mensagem final do livro o demonstra de modo impactante: a mais relevante luta antirracista não é aquela travada apenas contra indivíduos ou grupos racistas; é sobretudo a luta contra o sistema político e econômico que produz (e retroalimenta) o racismo. A obra merece ser lida e debatida por todas as pessoas interessadas em conhecer as novas roupagens e configurações do racismo na sociedade contemporânea.

Sumário de “Racismo sem racistas”

  • Prefácio
  • 1. O estranho enigma da raça na América contemporânea
  • 2. O novo racismo
  • 3. Os enquadramentos centrais do racismo da cegueira de cor
  • 4. O estilo da cegueira de cor
  • 5. “Não consegui aquele emprego por causa de um homem negro”
  • 6. Espreitando a Casa (Branca) da cegueira de cor
  • 7. Todos os brancos são Archie Bunkers refinados?
  • 8. Negros também são cegos à cor?
  • 9. E Pluribus Unum ou o mesmo perfume antigo em um novo frasco?
  • 10. Da Obamérica à Trumpamérica
  • 11. Conclusão: o que deve ser feito?

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Petrônio Domingues – Doutor em História (USP); Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS); Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Coordenador do Grupo de Pesquisa Pós-Abolição no Mundo Atlântico. Organizador e autor de alguns livros, como Protagonismo negro em São Paulo (indicado como finalista do Prêmio Jabuti) e Diásporas imaginadas (em parceria com Kim D. Butler). ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/6212236670265547; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0116-5064; Redes sociais: @petronio.domingues; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

BONILLA-SILVA, Eduardo. Racismo sem racistas: o racismo da cegueira de cor e a persistência da desigualdade na América. Tradução: Margarida Goldsztajn. São Paulo: Perspectiva, 2020. 512p. Resenha de: DOMINGUES, Petrônio. O jogo do ofuscamento. Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.15, jan./fev., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/cegueira-de-cor-resenha-de-petronio-domingues-ufs-sobre-o-livro-racismo-sem-racistas-de-eduardo-bonilla-silva-2/>.


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n. 15, jan./fev., 2024 | ISSN 2764-2666

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O jogo do ofuscamento — Resenha de Petrônio Domingues (UFS) sobre o livro “Racismo sem racistas: o racismo da cegueira de cor e a persistência da desigualdade na América”, de Eduardo Bonilla-Silva

Eduardo Bonilla-Silva | Imagem: DukeScholars

Resumo: Em Racismo sem racistas: o racismo da cegueira de cor e a persistência da desigualdade na América, Eduardo Bonilla-Silva explora o “racismo da cegueira de cor” nos EUA, uma ideologia que justifica desigualdades raciais sem reconhecer o racismo estrutural. Ele critica a postura das pessoas brancas que negam responsabilidade pelas desvantagens raciais. A obra, elogiada por sua originalidade e rigor teórico, enfrenta críticas por seu tom proselitista na conclusão, onde prescreve ações antirracistas.

Palavras-chave: Racismo, Racistas, Racismo Estrutural.


Os Estados Unidos são um país marcado historicamente pelas desigualdades raciais, conforme atestam todos os indicadores nos domínios da educação, moradia, mercado de trabalho, saúde, mídia, representação política etc. Como é possível que persista essa desigualdade em um país no qual a maioria das pessoas brancas afirma que a raça não é mais relevante? Mais importante ainda: como as pessoas brancas explicam a aparente contradição entre sua cegueira de cor e a desigualdade estadunidense identificada pela cor? Em Racismo sem racistas, Eduardo Bonilla-Silva busca responder a essas questões.

Nascido em Porto Rico, Bonilla-Silva é sociólogo, professor da Universidade Duke, localizada na cidade de Durham, na Carolina do Norte. Já recebeu vários prêmios, como o Lewis A. Coser, dedicado aos sociólogos cujo trabalho estabelece novos parâmetros no campo da Sociologia. Racismo sem racistas, lançado nos Estados Unidos em 2006, foi indicado como Choice Outstanding Academic Title (Título Acadêmico de Destaque) pela American Library Association. O livro foi traduzido para o português e publicado no Brasil em 2020. Seu objetivo é entender uma nova ideologia racial emergente nos Estados Unidos, designada pelo autor como “racismo da cegueira de cor”.

Essa ideologia, que adquiriu projeção no final dos anos de 1960, explica a desigualdade racial contemporânea como o resultado de uma dinâmica não racial. Enquanto para o racismo do Jim Crow (termo para designar as leis promulgadas no Sul dos Estados Unidos, que institucionalizaram a segregação racial entre 1876 e 1965) a posição social dos negros se devia à sua inferioridade biológica e moral, o “racismo da cegueira de cor” evita tais argumentos simplistas. Em vez disso, as pessoas brancas desenvolveram explicações sofisticadas para a desigualdade racial contemporânea que as isentam de qualquer responsabilidade pela situação de desvantagens e subordinações das pessoas de cor.

Segundo Bonilla-Silva, o racismo da cegueira de cor tornou-se a ideologia racial dominante. As práticas desse “novo racismo” são sutis, institucionais e aparentemente não raciais. Diferentemente do período Jim Crow, quando a desigualdade racial era imposta por meios explícitos (por exemplo, cartazes dizendo “Negros não são bem-vindos aqui”), as práticas raciais atuais operam segundo o modelo “ora você vê, ora você não vê”. Independentemente do local (bancos, restaurantes, admissões a escolas ou transações imobiliárias), a manutenção do privilégio branco é tão velada que desafia leituras raciais simplistas. Assim, os contornos do racismo da cegueira de cor se ajustam bem ao novo racismo estadunidense.

Comparado ao racismo Jim Crow, a ideologia da cegueira de cor assemelha-se a um “racismo leve”. Em vez de valer-se de xingamentos, o racismo da cegueira de cor faz uso de expressões mais suaves, preservando o privilégio da branquitude sem alarde, sem nomear aqueles a quem submete e aqueles a quem recompensa. Assim, as pessoas brancas enunciam posições que salvaguardam seus interesses raciais sem que soem “racistas”. Protegidas pelo escudo da cegueira de cor, elas podem expressar ressentimento em relação às minorias; criticar sua moralidade, seus valores e sua ética de trabalho; e até alegar que são vítimas de um “racismo reverso”.

Essa é a tese que Bonilla-Silva defende no livro, para explicar o surpreendente enigma do “racismo sem racistas”. Para o desenvolvimento dessa tese, o autor estruturou o livro em dez capítulos. No primeiro, mostra como o racismo da cegueira de cor surgiu como uma nova ideologia racial no fim dos anos de 1960, em sintonia com a consolidação do “novo racismo” que configurou a nova estrutura racial da América. No segundo, Bonilla-Silva aborda como esse “novo racismo” emergiu e delineia suas principais práticas e mecanismos nas áreas social, econômica, política e de controle social. Tais práticas e mecanismos sociais para a reprodução do privilégio racial assumiram um novo formato, fugidio e aparentemente desracializado, suscitando novas racionalizações para justificar a nova ordem racial, eis o tema do terceiro capítulo.

Todas as ideologias desenvolvem um conjunto de qualidades estilísticas, uma certa maneira de transmitir suais ideias ao público. O racismo da cegueira da cor não é diferente. No capítulo quarto, o autor registra os principais elementos estilísticos dessa ideologia, Já no capítulo quinto, discute as story lines e histórias pessoais que surgiram na era pós-movimento dos direitos civis, em vista de fornecer carga emotiva ao racismo da cegueira da cor.

Usando dados sistemáticos de entrevistas e referências, Bonilla-Silva analisa no capítulo sexto os padrões de interações inter-raciais das pessoas brancas e conclui que elas tendem a manejar e circular no que o autor rotula de “habitus branco”, ou um conjunto de “redes e associações primárias com outros brancos, que reforça a ordem racial ao promover solidariedade racial entre brancos e sentimentos emotivos negativos em relação a ‘outros’ raciais”.

No capítulo sétimo, Bonilla-Silva enfoca os “traidores da raça”, ou seja, as pessoas brancas que não respaldam a ideologia da cegueira de cor. Ainda assim, o “novo racismo” afeta inclusive as pessoas brancas progressistas. Será que também afeta as pessoas negras? A tentativa de responder a essa indagação é o tema do capítulo oitavo. Embora as pessoas negras tenham desenvolvido uma ideologia de oposição, o racismo da cegueira de cor os atinge de forma indireta.

No capítulo nono, o autor refuta as afirmações de que os Estados Unidos ainda estão estruturados em torno de uma linha divisória birracial e postula que nação esteja se convertendo em direção a uma ordem trirracial ou “plural”, semelhante à existente em muitos países da América Latina e Caribe. No capítulo décimo, o autor examina o fenômeno Barack Obama e sugere que ele não é uma expressão do pós-racialismo, mas parte do cenário de cegueira de cor pautado no livro. Na “conclusão”, Bonilla-Silva avalia as implicações do “novo racismo”, da latino-americanização das assimetrias raciais e da Obamérica para a luta pela justiça racial e social nesse país.

Um ponto controverso do livro talvez seja o fato de Bonilla-Silva — embora tecer análises bem fundamentadas e respaldadas pelas fontes e evidências factuais — assumir, pelo menos no tópico “conclusão”, um caráter proselitista. Não é para menos. Desde cedo, seu trabalho acadêmico se vinculou a um intenso ativismo social. No final do livro, o autor prescreve às pessoas brancas como “combater o racismo da cegueira de cor na América”. Apesar de reconhecer que não existe um único caminho para isso, ele não se satisfaz em traçar um diagnóstico das desigualdades raciais; também prescreve a “receita” — “o que deve ser feito” politicamente para superar tal quadro. Na sua avaliação, as pessoas brancas devem se engajar nas organizações, mobilizações e coalizões de cunho antirracista, afinal, “embora o trabalho do movimento social seja lento, difícil e um pouco inconcluso, em última análise, é mais provável que seja a principal forma de mudar o mundo” (p.x).

Por outro lado, os pontos positivos da obra são muitos: a originalidade da abordagem, o rigor teórico-metodológico e a consistência das fontes compulsadas. Gostaria de destacar, porém, a ousadia do autor em demonstrar que o racismo se modifica em características, feições e dimensões de acordo com as transformações sociais. Há um “novo racismo” nos Estados Unidos de pós-movimentos pelos direitos civis, fundado na “cegueira de cor”, cujas práticas são discretas, fluídas e aparentemente desprovidas de caráter racial. Isso não se confunde com um “racismo cordial” ou “racismo dissimulado”, nem significa que o “racismo Jim Crow” (defesa aberta da supremacia branca) tenha desaparecido.

O que Bonilla-Silva demonstra é que o racismo segregacionista cedeu espaço para um novo racismo, que se utiliza da linguagem do liberalismo para negar o peso do racismo na sociedade, hipotecando aos negros a responsabilidade pelos seus infortúnios, já que não teria o ‘preparo necessário exigido pelo mercado’ ou cuja cultura não se adaptaria aos ‘exigidos padrões de desempenho’. Ou seja, a desigualdade entre brancos e não brancos é justificada pela ‘dinâmica do mercado’ ou de ‘fenômenos que ocorrem naturalmente e das limitações culturais imputadas aos negros’.

Fernando Dias: O negro que se tornou o primeiro caso na Justiça de racismo no Brasil | Imagem: Mauro Pimentel/El País

Aqui está um livro que não se rende a simplificações. A questão racial é apresentada em suas nuances mais complexas. Bonilla-Silva é um autor arrojado, que busca transformar suas ideias em libelo para uma ação transformadora. Racismo sem racistas é um livro inovador, pois evidencia como o “racismo da cegueira de cor” vai além das concepções que apreendem o racismo como resultado da ação individual. Em vez disso, ressalta a dimensão estrutural e institucional do racismo, permitindo que a crítica se volte ao sistema que produz os sujeitos raciais e, com eles, a desigualdade.

Provavelmente por conta de seu caráter inovador, o livro de Eduardo Bonilla-Silva tem repercutido transnacionalmente, influenciando inclusive intelectuais brasileiros. Silvio Almeida, por exemplo, declara no prefácio à edição brasileira, que muitos dos arrazoados que ele teceu na obra Racismo Estrutural (2018) basearam-se no livro de Bonilla-Silva, hoje traduzido em língua portuguesa. É verdade que o racismo no Brasil tenha diferenças com a realidade dos Estados Unidos, mas, tanto lá quanto aqui, as transformações conjunturais na economia e na política se refletem no processo de racialização, de modo que a “retórica baseada na cegueira de cor, na meritocracia e na igualdade formal, típicas do liberalismo, também chegam a nós de um modo bastante particular”. Neste contexto, Racismo sem racistas “serve-nos como um ponto de partida também para análises sobre o racismo na América Latina, particularmente no Brasil” (p.x).

O livro cumpre os objetivos anunciados. A mensagem final do livro o demonstra de modo impactante: a mais relevante luta antirracista não é aquela travada apenas contra indivíduos ou grupos racistas; é sobretudo a luta contra o sistema político e econômico que produz (e retroalimenta) o racismo. A obra merece ser lida e debatida por todas as pessoas interessadas em conhecer as novas roupagens e configurações do racismo na sociedade contemporânea.

Sumário de “Racismo sem racistas”

  • Prefácio
  • 1. O estranho enigma da raça na América contemporânea
  • 2. O novo racismo
  • 3. Os enquadramentos centrais do racismo da cegueira de cor
  • 4. O estilo da cegueira de cor
  • 5. “Não consegui aquele emprego por causa de um homem negro”
  • 6. Espreitando a Casa (Branca) da cegueira de cor
  • 7. Todos os brancos são Archie Bunkers refinados?
  • 8. Negros também são cegos à cor?
  • 9. E Pluribus Unum ou o mesmo perfume antigo em um novo frasco?
  • 10. Da Obamérica à Trumpamérica
  • 11. Conclusão: o que deve ser feito?

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Petrônio Domingues – Doutor em História (USP); Professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS); Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e Coordenador do Grupo de Pesquisa Pós-Abolição no Mundo Atlântico. Organizador e autor de alguns livros, como Protagonismo negro em São Paulo (indicado como finalista do Prêmio Jabuti) e Diásporas imaginadas (em parceria com Kim D. Butler). ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/6212236670265547; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0002-0116-5064; Redes sociais: @petronio.domingues; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

BONILLA-SILVA, Eduardo. Racismo sem racistas: o racismo da cegueira de cor e a persistência da desigualdade na América. Tradução: Margarida Goldsztajn. São Paulo: Perspectiva, 2020. 512p. Resenha de: DOMINGUES, Petrônio. O jogo do ofuscamento. Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.15, jan./fev., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/cegueira-de-cor-resenha-de-petronio-domingues-ufs-sobre-o-livro-racismo-sem-racistas-de-eduardo-bonilla-silva-2/>.


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n. 15, jan./fev., 2024 | ISSN 2764-2666

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