Para conhecer Eric Hobsbawm – Resenha de Eric Hobsbawm: uma vida na história, de Richard Evans

Resenhado por Katty Cristina Lima Sá (G/Tempo/UFS) | 02 maio 2022


Richard Evans Foto Philipp Ebellin

Alguns sobrenomes possuem uma grafia difícil de ser executada corretamente, sendo esse o caso de “Hobsbaum”, geralmente escrito com “u”, que designa o historiador Eric John Ernest Hobsbawm, inglês nascido na cidade de Alexandria em 1917, filho de pai britânico e mãe austríaca, ambos judeus. Contudo, a versão de Eric Hobsbawm – que, durante seu registro, teve, erroneamente, o “w” colocado ao invés do “u” – dificilmente será esquecida graças às obras que ele assina e à biografia em que ele mesmo se apresenta como título. Referimo-nos à obra Eric Hobsbawm: uma vida na história, escrita por Richard Evans e lançada, no Brasil, em 2021.

Evans é especialista em história europeia dos séculos XIX e XX, com foco nos estudos sobre a Alemanha nazista. Foi professor da Universidade de Cambridge e autor de diversos livros, com destaque para a trilogia O Terceiro Reich. Em sua obra mais recente, Evans traz a trajetória de uma figura cosmopolita desde suas origens, alguém que conheceu e foi conhecido em todos os continentes. Não se trata de uma biografia produzida para responder um problema, tampouco de um texto que procura engrandecer ou detratar a imagem do biografado. O objetivo do livro é situar a vida de Hobsbawm e sua atuação como historiador no contexto do século XX; trata-se de apresentá-lo ao mundo do século XXI através de suas “próprias palavras” (p.10).

O leitor, no entanto, pode questionar: o próprio Hobsbawm já não havia feito isso em Tempos Interessantes, sua autobiografia lançada em 2002?  Para Evans, a escrita do seu biografado era um livro de memórias, enquanto a sua recorreria a fontes contemporâneas aos pensamentos e ações de Hobsbawm. De fato, o autor utiliza fontes acerca da vida de Eric, que incluem entrevistas com parentes e amigos, relatórios da inteligência britânica sobre suas atividades políticas, resenhas das obras por ele lançadas, além de diários pessoais. Os últimos são as fontes de maior importância e recorrência ao longo do livro; elas são citadas continuamente, criando a sensação de estar em proximidade com o biografado. Desse modo, torna-se fácil abandonar a etiqueta acadêmica e chamá-lo apenas de Eric.

Com vida longeva, Eric faleceu aos 95 anos, em 01 de outubro de 2012. Para acompanhar o biografado de forma linear, a obra foi dividida em dez capítulos. Começamos com a chegada dos avós paternos à Grã-Bretanha na década de 1870, vindos do Reino da Polônia, e ao contexto que ocasionou o nascimento de Eric no Egito. Em seguida, somos transportados à infância do futuro historiador em Viena e à adolescência na Berlim dos últimos anos da República de Weimar (1919-1933). Conhecemos um jovem que, desde cedo, demonstrou inclinação para vida intelectual, ao mesmo tempo em que mantinha uma intensa atividade política no Partido Comunista Alemão.

Aos 14 anos de idade, Eric ficou órfão e passou a viver com seus tios; em 1933, pouco após a ascensão de Hitler, mudou-se com a família para Londres. Nesse caso, não se tratava de uma fuga das primeiras perseguições antissemitas dos nazistas, mas de uma causalidade que findou os negócios de seu tio Sidney em Berlim. Hobsbawm ingressou na Universidade de Cambridge, em 1936, de modo que foi o primeiro membro de sua família a ingressar no ensino superior. Com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ele se tornou um historiador comunista no Exército Britânico e, ao término do conflito, um marxista que construía sua carreira acadêmica em meio à Guerra Fria (1945-1991).

Em sua obra, Richard Evans destacou alguns traços de personalidade que se tornaram marcantes em Eric Hobsbawm, sendo o primeiro deles sua adesão ao comunismo. Como dito anteriormente, Eric iniciou sua atuação política na esquerda ainda na adolescência, motivado pela situação econômica de sua família durante a década de 1920: seus pais faziam parte da classe média, porém viviam em constante dificuldade econômica, situação que se agravou após a morte de Percy, pai de Eric, em 1929. O comunismo, cujo internacionalismo já era um atrativo ao garoto inglês residente na Europa Central, afirmava que a pobreza não era uma vergonha, mas uma virtude, bem como o sentimento de ser um outsider.

Durante sua passagem no exército, o então recém-formado de Cambridge não foi para os campos de batalha, porém sua tentativa de alçar certos cargos foi barrada por ele ser considerado “politicamente perigoso”. A partir desse período, teve início a investigação da inteligência britânica acerca das ações do historiador que perdurou por décadas. Seu posicionamento político também foi visto como empecilho para ascensão de sua carreira, de modo que ele não foi aceito como professor universitário na instituição em que se graduou e teve obras de reconhecido mérito não publicadas, a começar por sua tese de doutorado.

Eric manteve-se filiado ao Partido Comunista Britânico por grande parte da sua vida, apesar de possuir com ele claras discordâncias, sendo descrito por Evans como um “outsider dentro do movimento”. Após o Vigésimo Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1956, ocasião em que os crimes cometidos por Stálin foram divulgados, a fratura entre Hobsbawm e outros membros do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico ficou evidente. Ao lado de nomes, como Edward Thompson e Christopher Hill, Eric esteve ligado à criação de uma Nova Esquerda Britânica, bem como à Escola Inglesa do Marxismo, que propunha uma articulação entre a história social, a cultural e a política. Para Hobsbawm, essa nova visão do marxismo na história e a revista a ela articulada, a Past & Present, seria a equivalência inglesa da Escola dos Annales.

Outro ponto de discordância entre Eric e o partido era o jazz. Se, para o partido, tratava-se de uma degeneração burguesa, para Eric, era uma paixão nascida no sótão de seu primo Denis em 1934. Durante a década de 1950, o envolvimento de Hobsbawm com o cenário do jazz se aprofundou, ele frequentou os principais bares britânicos e viu a apresentação de importantes músicos. Desse modo, tornou- se um crítico, apresentando programas na rádio BBC e atuando como colunista no Observer. Eric não assinava esses textos com seu nome real, mas sob o pseudônimo de Francis Newton, identidade conhecida entre os entusiastas do jazz.

As críticas de Eric, ou de Newton, logo ultrapassaram os perfis de musicistas e se atentaram a aspectos sociais. As condições de trabalho, os instrumentos utilizados, o mercado da música e a morte prematura de cantores chamaram a atenção do historiador que logo se pôs a analisar o jazz como um fenômeno de uma época, uma forma de arte ligada ao seu contexto histórico e social. Em 1959, foi publicada a primeira edição de The Jazz Scene, traduzida no Brasil como História Social do Jazz, em 1989. Para Evans, o que unia Eric ao comunismo e ao jazz era o sentimento de pertença e de acolhida oferecidos a quem havia perdido os pais precocemente.

A busca por estabilidade emocional e familiar ressalta o aspecto humano de Eric para além do intelectual engajado. Sobre o tema, vemos a precipitação em seu casamento com Muriel Seaman, ocorrido em 1945, e o envolvimento emocional em uma série de relacionamentos casuais, alguns deles com mulheres casadas. Tal lado mais íntimo do biografado, possivelmente seria malvisto pelos conservadores, de modo que, ao apresentá-lo, o autor reforça que seu intuito é mostrar Eric Hobsbawm como um homem comum que desenvolveu sua identidade pessoal e intelectual durante o “breve século XX”.

Eric Hobsbawm (1976) | Foto: Wesley/Keystone/Getty

A obra traz ainda um episódio da vida privada de Hobsbawm que nos revela aspectos da sociedade britânica de meados do século passado: seu divórcio de Muriel, ocorrido em 1953. Até 1969, as leis da Inglaterra exigiam a prova de uma “ofensa matrimonial” para conceder o fim do casamento; por conta disso, em caso de separações consensuais, a parte dita “culpada”  alugava um quarto de hotel em Brighton onde tirava fotos comprometedoras com o “corresponsável” pelo divórcio ( p.277). Foi assim que Muriel e Eric agiram, sendo ela a parte “culpada”. O procedimento descrito por Evans nos remete aos episódios das “vendas de esposas” ocorridos na Inglaterra, Escócia e País de Gales durante o século XIX, que consistiam em um ritual popular para demarcar um divórcio. Esse costume foi analisado por Edward Thompson e publicado no livro Costumes em comum (1980).

No início da década de 1960, Eric encontrou a estabilidade emocional que, segundo Evans, foi fundamental para manter sua produtividade até o final da vida: o casamento com Marlene Schwarz, com quem teve dois filhos. Schwarz era vienense, nascida em 1932 e recém-regressa de um trabalho com a Organização das Nações Unidas (ONU) no Congo. O historiador comunista aficionado por jazz atraiu-se pela inteligência de Marlene, bem como por sua fluência no francês. Em 1964, foi lançada A Era das Revoluções, que deu início a uma quadrilogia composta ainda por: A Era do Capital (1975), A Era dos Impérios (1987) e a Era dos Extremos (1994). Como as outras publicações de Hobsbawm, inclusive as que não fazem parte da quadrilogia, a primeira das Eras se destacou por seu estilo claro, boas generalizações e abordagem transnacional.

A partir desse ponto, a biografia escrita por Richard Evans analisa os processos de escrita e de recepção das obras de Hobsbawm, ao lado de sua ascensão como escritor e professor. Evans expõe que, com intuito de refletir sobre temas que o intrigava durante a elaboração de seus livros, Eric realizava amplos debates com seus alunos da graduação, o que mostra como os processos de ensino e pesquisa estavam interligados para esse profissional. Em relação à recepção, o autor traz resenhas contemporâneas aos lançamentos das obras de Eric, com posicionamentos políticos alinhados, ou não, aos dele. Em ambos os casos, percebemos que são tecidos tanto elogios quanto críticas, no geral, relacionadas à reduzida importância atribuída pelo historiador aos nacionalismos ou à omissão acerca da história das mulheres.

Como pessoas de pensamento e visões de mundo formados durante os anos de 1930, percebemos que Eric também possuía suas limitações em relação ao mundo da segunda metade do século XX. Ele não apreciava o rock’n’roll, antipatizava com os Beatles e com a ideia de “cultura pop”, e não percebia validade nas revoltas juvenis de 1968. O feminismo e os estudos de gênero, para esse marxista, desviavam a atenção da luta de classes e criava fraturas entre as trabalhadoras. Ainda assim, Eric testemunhou os momentos mais marcantes do século XX, e parecia válido estender suas “Eras” àquela permeada por luzes e sombras e por extremos.

Escrever sobre o tempo de sua própria vida, o tempo presente, não foi algo simples para o historiador, que temia não resguardar o distanciamento necessário. Lembremos que ele já havia escrito sobre o presente com sua história social do jazz, mas não julgou aquilo um trabalho de historiador. Entretanto, Eric percebeu que era necessário explicar o que estava acontecendo aos que viviam em um século repleto de revoluções, o que deveria ser feito em termos históricos e dentro de uma perspectiva global (p.525).

Lançado em 1994, A Era dos Extremos  – o breve século XX foi um sucesso de vendas, especialmente no Brasil, a exemplo de outras obras suas. Dividido em três partes, “A Era da Catástrofe”, “A Era de Ouro” e “O Desmoronamento”, A Era dos Extremos traz uma visão pessimista sobre o futuro, o que viria a ser o século XXI, de modo que Tony Judt percebeu um “ar de Jeremias”, de “iminente desgraça” na narrativa de Eric Hobsbawm (p.536). Esse pessimismo e ar desconfiado em relação ao seu tempo não era algo novo. Ainda adolescente, Eric escrevera em seu diário: “Eu estou no século XX e sei que nada é certo” (p.99).

O ceticismo de Eric em relação ao presente e ao futuro, aos rumos que as sociedades globalizadas tomavam, segundo Evans, provém das análises que ele fez de seu meio, de sua erudição cultivada durante toda vida e de seu testemunho de grandes acontecimentos dentro e fora da Europa. Ao serem expostas e contextualizadas por Evans, elas nos fazem refletir sobre o nosso século XXI, as escolhas políticas, econômicas e sociais que fazemos e sobre o papel que o historiador tem e deverá assumir frente a tudo isso. No passado, a história fechada e alimentadora dos nacionalismos provocou guerras e não foi capaz de cessar o avanço da intolerância. Hoje, podemos nos questionar: que responsabilidade nós temos frente ao fortalecimento da extrema direita e de práticas racistas, machistas e xenófobas?

A biografia de Eric Hobsbawm escrita por Richard Evans cumpre plenamente seu objetivo: ela nos apresenta Eric em sua totalidade, em sua atuação como homem e historiador. Sem dúvida, conhecemo-nos através de suas próprias palavras e olhares, vemos como o mundo reagiu a Hobsbawm ao mesmo tempo em que o influenciou. Podemos dizer que, com essa obra, conhecemos Eric Hobsbawm por entre a Era dos Extremos, pois Evans apresenta o biografado e explica o momento histórico em que ele estava vivendo.

Apesar de não almejar ser um trabalho biográfico no aspecto tradicional das biografias na história após a década de 1970, Eric Hobsbawm: uma vida na história é um trabalho feito por um historiador. Sendo assim, não há uma problemática por trás da análise biográfica, nem se trata de um estudo de micro história; entretanto, o livro tem uma visão abrangente, faz bom uso das suas fontes, com indicação do local onde foram encontradas. Sua escrita merece ser destacada pela simplicidade, leveza e fácil compreensão, que situa contexto e biografado, de modo que não é preciso ser um especialista em história do século XX para compreender a narrativa. Na verdade, a obra nos faz aprender tanto sobre a Era dos Extremos quanto sobre o historiador que a apresentou e a explicou de forma tão brilhante.

Referências

BARROS, José D’Assunção. História Cultural: um panorama teórico e historiográfico. Textos de História, vol.11, nº 1-2, 2003.

EVANS, Richard J. Eric Hobsbawm: uma vida na história. Tradução de Cláudio Costa.  São Paulo, Planeta, 2021.

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos – o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marco Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOBSBAWM, Eric. História Social do jazz. Tradução de A. Noronha. São Paulo/Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2021.

THOMPSON, Edward P. A venda das esposas. In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das letras, 1998.


Sumário de Eric Hobsbawm: uma vida na história

Apresentação, por Luís Inácio Lula da Silva

Prefácio

  1. “O garoto inglês”
  2. “Feio como o pecado, mas que cabeça”
  3. “Um calouro que sabe sobre tudo”
  4. “Um intelectual de esquerda no Exército inglês”
  5. “Um outsider no movimento”
  6. “Um personagem perigoso”
  7. Escritor de livros de bolso”
  8. “Guru intelectual”
  9. “Jeremias”
  10. “Tesouro nacional”.

Resenhista

Katty Cristina Lima Sá é Mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Graduada em História pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS). Entre outros trabalhos, publicou Para conhecer o Islã: a Religião, a Civilização e os saberes produzidos pelos muçulmanos e a “‘Guerra Santa’ pela Perspectiva Comparada: um estudo sobre a concepção de jihad através das revistas Inspire e Dabiq” . Foi uma das organizadoras de História Comparada e Tempo Presente (EDUPE, 2021). Orcid:https://orcid.org/0000-0001-9855-317X . E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

EVANS, Richard J. Eric Hobsbawm: uma vida na história. Tradução de Cláudio Costa.  São Paulo: Planeta, 2021. 1255p. Resenha de: SÁ, Katty Cristina Lima. Para conhecer Eric Hobsbawm. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, p.x-x, abr./mai. 2022Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/?p=2714>


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Para conhecer Eric Hobsbawm – Resenha de Eric Hobsbawm: uma vida na história, de Richard Evans

Resenhado por Katty Cristina Lima Sá (G/Tempo/UFS) | 02 maio 2022


Richard Evans Foto Philipp Ebellin

Alguns sobrenomes possuem uma grafia difícil de ser executada corretamente, sendo esse o caso de “Hobsbaum”, geralmente escrito com “u”, que designa o historiador Eric John Ernest Hobsbawm, inglês nascido na cidade de Alexandria em 1917, filho de pai britânico e mãe austríaca, ambos judeus. Contudo, a versão de Eric Hobsbawm – que, durante seu registro, teve, erroneamente, o “w” colocado ao invés do “u” – dificilmente será esquecida graças às obras que ele assina e à biografia em que ele mesmo se apresenta como título. Referimo-nos à obra Eric Hobsbawm: uma vida na história, escrita por Richard Evans e lançada, no Brasil, em 2021.

Evans é especialista em história europeia dos séculos XIX e XX, com foco nos estudos sobre a Alemanha nazista. Foi professor da Universidade de Cambridge e autor de diversos livros, com destaque para a trilogia O Terceiro Reich. Em sua obra mais recente, Evans traz a trajetória de uma figura cosmopolita desde suas origens, alguém que conheceu e foi conhecido em todos os continentes. Não se trata de uma biografia produzida para responder um problema, tampouco de um texto que procura engrandecer ou detratar a imagem do biografado. O objetivo do livro é situar a vida de Hobsbawm e sua atuação como historiador no contexto do século XX; trata-se de apresentá-lo ao mundo do século XXI através de suas “próprias palavras” (p.10).

O leitor, no entanto, pode questionar: o próprio Hobsbawm já não havia feito isso em Tempos Interessantes, sua autobiografia lançada em 2002?  Para Evans, a escrita do seu biografado era um livro de memórias, enquanto a sua recorreria a fontes contemporâneas aos pensamentos e ações de Hobsbawm. De fato, o autor utiliza fontes acerca da vida de Eric, que incluem entrevistas com parentes e amigos, relatórios da inteligência britânica sobre suas atividades políticas, resenhas das obras por ele lançadas, além de diários pessoais. Os últimos são as fontes de maior importância e recorrência ao longo do livro; elas são citadas continuamente, criando a sensação de estar em proximidade com o biografado. Desse modo, torna-se fácil abandonar a etiqueta acadêmica e chamá-lo apenas de Eric.

Com vida longeva, Eric faleceu aos 95 anos, em 01 de outubro de 2012. Para acompanhar o biografado de forma linear, a obra foi dividida em dez capítulos. Começamos com a chegada dos avós paternos à Grã-Bretanha na década de 1870, vindos do Reino da Polônia, e ao contexto que ocasionou o nascimento de Eric no Egito. Em seguida, somos transportados à infância do futuro historiador em Viena e à adolescência na Berlim dos últimos anos da República de Weimar (1919-1933). Conhecemos um jovem que, desde cedo, demonstrou inclinação para vida intelectual, ao mesmo tempo em que mantinha uma intensa atividade política no Partido Comunista Alemão.

Aos 14 anos de idade, Eric ficou órfão e passou a viver com seus tios; em 1933, pouco após a ascensão de Hitler, mudou-se com a família para Londres. Nesse caso, não se tratava de uma fuga das primeiras perseguições antissemitas dos nazistas, mas de uma causalidade que findou os negócios de seu tio Sidney em Berlim. Hobsbawm ingressou na Universidade de Cambridge, em 1936, de modo que foi o primeiro membro de sua família a ingressar no ensino superior. Com o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ele se tornou um historiador comunista no Exército Britânico e, ao término do conflito, um marxista que construía sua carreira acadêmica em meio à Guerra Fria (1945-1991).

Em sua obra, Richard Evans destacou alguns traços de personalidade que se tornaram marcantes em Eric Hobsbawm, sendo o primeiro deles sua adesão ao comunismo. Como dito anteriormente, Eric iniciou sua atuação política na esquerda ainda na adolescência, motivado pela situação econômica de sua família durante a década de 1920: seus pais faziam parte da classe média, porém viviam em constante dificuldade econômica, situação que se agravou após a morte de Percy, pai de Eric, em 1929. O comunismo, cujo internacionalismo já era um atrativo ao garoto inglês residente na Europa Central, afirmava que a pobreza não era uma vergonha, mas uma virtude, bem como o sentimento de ser um outsider.

Durante sua passagem no exército, o então recém-formado de Cambridge não foi para os campos de batalha, porém sua tentativa de alçar certos cargos foi barrada por ele ser considerado “politicamente perigoso”. A partir desse período, teve início a investigação da inteligência britânica acerca das ações do historiador que perdurou por décadas. Seu posicionamento político também foi visto como empecilho para ascensão de sua carreira, de modo que ele não foi aceito como professor universitário na instituição em que se graduou e teve obras de reconhecido mérito não publicadas, a começar por sua tese de doutorado.

Eric manteve-se filiado ao Partido Comunista Britânico por grande parte da sua vida, apesar de possuir com ele claras discordâncias, sendo descrito por Evans como um “outsider dentro do movimento”. Após o Vigésimo Congresso do Partido Comunista da URSS, em 1956, ocasião em que os crimes cometidos por Stálin foram divulgados, a fratura entre Hobsbawm e outros membros do Grupo de Historiadores do Partido Comunista Britânico ficou evidente. Ao lado de nomes, como Edward Thompson e Christopher Hill, Eric esteve ligado à criação de uma Nova Esquerda Britânica, bem como à Escola Inglesa do Marxismo, que propunha uma articulação entre a história social, a cultural e a política. Para Hobsbawm, essa nova visão do marxismo na história e a revista a ela articulada, a Past & Present, seria a equivalência inglesa da Escola dos Annales.

Outro ponto de discordância entre Eric e o partido era o jazz. Se, para o partido, tratava-se de uma degeneração burguesa, para Eric, era uma paixão nascida no sótão de seu primo Denis em 1934. Durante a década de 1950, o envolvimento de Hobsbawm com o cenário do jazz se aprofundou, ele frequentou os principais bares britânicos e viu a apresentação de importantes músicos. Desse modo, tornou- se um crítico, apresentando programas na rádio BBC e atuando como colunista no Observer. Eric não assinava esses textos com seu nome real, mas sob o pseudônimo de Francis Newton, identidade conhecida entre os entusiastas do jazz.

As críticas de Eric, ou de Newton, logo ultrapassaram os perfis de musicistas e se atentaram a aspectos sociais. As condições de trabalho, os instrumentos utilizados, o mercado da música e a morte prematura de cantores chamaram a atenção do historiador que logo se pôs a analisar o jazz como um fenômeno de uma época, uma forma de arte ligada ao seu contexto histórico e social. Em 1959, foi publicada a primeira edição de The Jazz Scene, traduzida no Brasil como História Social do Jazz, em 1989. Para Evans, o que unia Eric ao comunismo e ao jazz era o sentimento de pertença e de acolhida oferecidos a quem havia perdido os pais precocemente.

A busca por estabilidade emocional e familiar ressalta o aspecto humano de Eric para além do intelectual engajado. Sobre o tema, vemos a precipitação em seu casamento com Muriel Seaman, ocorrido em 1945, e o envolvimento emocional em uma série de relacionamentos casuais, alguns deles com mulheres casadas. Tal lado mais íntimo do biografado, possivelmente seria malvisto pelos conservadores, de modo que, ao apresentá-lo, o autor reforça que seu intuito é mostrar Eric Hobsbawm como um homem comum que desenvolveu sua identidade pessoal e intelectual durante o “breve século XX”.

Eric Hobsbawm (1976) | Foto: Wesley/Keystone/Getty

A obra traz ainda um episódio da vida privada de Hobsbawm que nos revela aspectos da sociedade britânica de meados do século passado: seu divórcio de Muriel, ocorrido em 1953. Até 1969, as leis da Inglaterra exigiam a prova de uma “ofensa matrimonial” para conceder o fim do casamento; por conta disso, em caso de separações consensuais, a parte dita “culpada”  alugava um quarto de hotel em Brighton onde tirava fotos comprometedoras com o “corresponsável” pelo divórcio ( p.277). Foi assim que Muriel e Eric agiram, sendo ela a parte “culpada”. O procedimento descrito por Evans nos remete aos episódios das “vendas de esposas” ocorridos na Inglaterra, Escócia e País de Gales durante o século XIX, que consistiam em um ritual popular para demarcar um divórcio. Esse costume foi analisado por Edward Thompson e publicado no livro Costumes em comum (1980).

No início da década de 1960, Eric encontrou a estabilidade emocional que, segundo Evans, foi fundamental para manter sua produtividade até o final da vida: o casamento com Marlene Schwarz, com quem teve dois filhos. Schwarz era vienense, nascida em 1932 e recém-regressa de um trabalho com a Organização das Nações Unidas (ONU) no Congo. O historiador comunista aficionado por jazz atraiu-se pela inteligência de Marlene, bem como por sua fluência no francês. Em 1964, foi lançada A Era das Revoluções, que deu início a uma quadrilogia composta ainda por: A Era do Capital (1975), A Era dos Impérios (1987) e a Era dos Extremos (1994). Como as outras publicações de Hobsbawm, inclusive as que não fazem parte da quadrilogia, a primeira das Eras se destacou por seu estilo claro, boas generalizações e abordagem transnacional.

A partir desse ponto, a biografia escrita por Richard Evans analisa os processos de escrita e de recepção das obras de Hobsbawm, ao lado de sua ascensão como escritor e professor. Evans expõe que, com intuito de refletir sobre temas que o intrigava durante a elaboração de seus livros, Eric realizava amplos debates com seus alunos da graduação, o que mostra como os processos de ensino e pesquisa estavam interligados para esse profissional. Em relação à recepção, o autor traz resenhas contemporâneas aos lançamentos das obras de Eric, com posicionamentos políticos alinhados, ou não, aos dele. Em ambos os casos, percebemos que são tecidos tanto elogios quanto críticas, no geral, relacionadas à reduzida importância atribuída pelo historiador aos nacionalismos ou à omissão acerca da história das mulheres.

Como pessoas de pensamento e visões de mundo formados durante os anos de 1930, percebemos que Eric também possuía suas limitações em relação ao mundo da segunda metade do século XX. Ele não apreciava o rock’n’roll, antipatizava com os Beatles e com a ideia de “cultura pop”, e não percebia validade nas revoltas juvenis de 1968. O feminismo e os estudos de gênero, para esse marxista, desviavam a atenção da luta de classes e criava fraturas entre as trabalhadoras. Ainda assim, Eric testemunhou os momentos mais marcantes do século XX, e parecia válido estender suas “Eras” àquela permeada por luzes e sombras e por extremos.

Escrever sobre o tempo de sua própria vida, o tempo presente, não foi algo simples para o historiador, que temia não resguardar o distanciamento necessário. Lembremos que ele já havia escrito sobre o presente com sua história social do jazz, mas não julgou aquilo um trabalho de historiador. Entretanto, Eric percebeu que era necessário explicar o que estava acontecendo aos que viviam em um século repleto de revoluções, o que deveria ser feito em termos históricos e dentro de uma perspectiva global (p.525).

Lançado em 1994, A Era dos Extremos  – o breve século XX foi um sucesso de vendas, especialmente no Brasil, a exemplo de outras obras suas. Dividido em três partes, “A Era da Catástrofe”, “A Era de Ouro” e “O Desmoronamento”, A Era dos Extremos traz uma visão pessimista sobre o futuro, o que viria a ser o século XXI, de modo que Tony Judt percebeu um “ar de Jeremias”, de “iminente desgraça” na narrativa de Eric Hobsbawm (p.536). Esse pessimismo e ar desconfiado em relação ao seu tempo não era algo novo. Ainda adolescente, Eric escrevera em seu diário: “Eu estou no século XX e sei que nada é certo” (p.99).

O ceticismo de Eric em relação ao presente e ao futuro, aos rumos que as sociedades globalizadas tomavam, segundo Evans, provém das análises que ele fez de seu meio, de sua erudição cultivada durante toda vida e de seu testemunho de grandes acontecimentos dentro e fora da Europa. Ao serem expostas e contextualizadas por Evans, elas nos fazem refletir sobre o nosso século XXI, as escolhas políticas, econômicas e sociais que fazemos e sobre o papel que o historiador tem e deverá assumir frente a tudo isso. No passado, a história fechada e alimentadora dos nacionalismos provocou guerras e não foi capaz de cessar o avanço da intolerância. Hoje, podemos nos questionar: que responsabilidade nós temos frente ao fortalecimento da extrema direita e de práticas racistas, machistas e xenófobas?

A biografia de Eric Hobsbawm escrita por Richard Evans cumpre plenamente seu objetivo: ela nos apresenta Eric em sua totalidade, em sua atuação como homem e historiador. Sem dúvida, conhecemo-nos através de suas próprias palavras e olhares, vemos como o mundo reagiu a Hobsbawm ao mesmo tempo em que o influenciou. Podemos dizer que, com essa obra, conhecemos Eric Hobsbawm por entre a Era dos Extremos, pois Evans apresenta o biografado e explica o momento histórico em que ele estava vivendo.

Apesar de não almejar ser um trabalho biográfico no aspecto tradicional das biografias na história após a década de 1970, Eric Hobsbawm: uma vida na história é um trabalho feito por um historiador. Sendo assim, não há uma problemática por trás da análise biográfica, nem se trata de um estudo de micro história; entretanto, o livro tem uma visão abrangente, faz bom uso das suas fontes, com indicação do local onde foram encontradas. Sua escrita merece ser destacada pela simplicidade, leveza e fácil compreensão, que situa contexto e biografado, de modo que não é preciso ser um especialista em história do século XX para compreender a narrativa. Na verdade, a obra nos faz aprender tanto sobre a Era dos Extremos quanto sobre o historiador que a apresentou e a explicou de forma tão brilhante.

Referências

BARROS, José D’Assunção. História Cultural: um panorama teórico e historiográfico. Textos de História, vol.11, nº 1-2, 2003.

EVANS, Richard J. Eric Hobsbawm: uma vida na história. Tradução de Cláudio Costa.  São Paulo, Planeta, 2021.

HOBSBAWM, Eric. A Era dos Extremos – o breve século XX: 1914-1991. Tradução de Marco Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

HOBSBAWM, Eric. História Social do jazz. Tradução de A. Noronha. São Paulo/Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2021.

THOMPSON, Edward P. A venda das esposas. In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das letras, 1998.


Sumário de Eric Hobsbawm: uma vida na história

Apresentação, por Luís Inácio Lula da Silva

Prefácio

  1. “O garoto inglês”
  2. “Feio como o pecado, mas que cabeça”
  3. “Um calouro que sabe sobre tudo”
  4. “Um intelectual de esquerda no Exército inglês”
  5. “Um outsider no movimento”
  6. “Um personagem perigoso”
  7. Escritor de livros de bolso”
  8. “Guru intelectual”
  9. “Jeremias”
  10. “Tesouro nacional”.

Resenhista

Katty Cristina Lima Sá é Mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Graduada em História pela Universidade Federal de Sergipe. Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/UFS). Entre outros trabalhos, publicou Para conhecer o Islã: a Religião, a Civilização e os saberes produzidos pelos muçulmanos e a “‘Guerra Santa’ pela Perspectiva Comparada: um estudo sobre a concepção de jihad através das revistas Inspire e Dabiq” . Foi uma das organizadoras de História Comparada e Tempo Presente (EDUPE, 2021). Orcid:https://orcid.org/0000-0001-9855-317X . E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

EVANS, Richard J. Eric Hobsbawm: uma vida na história. Tradução de Cláudio Costa.  São Paulo: Planeta, 2021. 1255p. Resenha de: SÁ, Katty Cristina Lima. Para conhecer Eric Hobsbawm. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, p.x-x, abr./mai. 2022Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/?p=2714>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

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