O que pode a Epistemologia Histórica? Resenha de “L’épistémologie historique: Histoire et méthodes”, organizado por Jean-François Braunstein, Iván Moya Diez e Matteo Vagelli

Resenhado por Tiago Santos Almeida (UnB) | 01 maio 2022.


Jean-François Braunstein | Foto: Zoé Ducournau

L’épistémologie historique. Histoire et méthodes (Paris: Éditions de la Sorbonne, 2019), organizado por Jean-François Braunstein e seus ex-alunos Iván Moya Diez e Matteo Vagelli, reúne algumas das comunicações apresentadas nas edições de 2015 e 2016 das Journées d’épistémologie historique.

Mais ou menos no mesmo período, meu colega Marcos Camolezi e eu fizemos e publicamos, no segundo número da revista Intelligere, uma entrevista com Braunstein, então supervisor do nosso estágio de pesquisa na Université Paris 1. Num dos momentos mais interessantes da conversa, Marcos lembrou que, nas décadas finais do século XX, a Epistemologia Histórica “parecia uma ocupação de velhos, um assunto fora de moda” e, antecipando uma resposta vindicadora, questionou: “qual a situação da epistemologia histórica hoje?” (Almeida; Camolezi, 2015, p.159).

“Antes de mais nada”, Braunstein respondeu, “é preciso que nos entendamos sobre o que chamamos de epistemologia histórica. São os trabalhos de vocês que vão precisar o que ela é. Trata-se apenas de uma abordagem filosófica muito geral da História das Ciências, ou ela permite ir mais longe?” (Almeida; Camolezi, 2015, p.159). O “vocês”, no caso, se refere a um grupo de pesquisadores de diferentes nacionalidades, mas sobretudo europeus, que desenvolviam suas pesquisas de pós-graduação em Paris, animados pela abertura do arquivo pessoal e de trabalho de Georges Canguilhem localizado no CAPHÉS – Centre d’Archives en Philosophie, Histoire et Édition des Sciences, na rue d’Ulm, pela leitura renovada de Gaston Bachelard, pelo reconhecimento tardio de Michel Foucault como um historiador das ciências e pela tradução, em obras originais recentes, da Épistémologie Historique em Historical Epistemology e Historische Epistemologie.

Sentindo a mudança nos ares, aqueles jovens pesquisadores defenderam suas teses, organizaram eventos e publicaram artigos e livros exibindo, despudoradamente, o rótulo “epistemologia histórica”, como explícito neste livro. Na apresentação de L’épistémologie historique. Histoire et méthodes, assim como naquela entrevista publicada na revista Intelligere, a questão da relação entre a “velha” e a “nova” epistemologia histórica organiza a exposição do objeto. Numa ponta, os debates franceses que animaram as obras de Abel Rey, Bachelard, Canguilhem e Foucault; na outra, as contribuições originais de autores como Ian Hacking, Arnold Davidson, Hans-Jörg Rheinberger e Lorraine Daston.

Vê-se bem que a questão não era apenas de cronologia, mas também de geografia. Ao se perguntar se havia ou não uma relação substancial entre o que aqueles autores faziam sob o mesmo nome geral, os pesquisadores que, em 2015, reunidos na Sorbonne, fundaram a rede internacional Épistémologie Historique – Research Network on the History and Methods of Historical Epistemology ajudaram a anular a antiga intepretação que insistia em apresentar a epistemologia histórica como uma escola filosófica nacional francesa. Desde então, ela vem sendo explicada, sobretudo, como um “estilo” filosófico (Braunstein) de prática da História das Ciências, resultante de um processo transnacional de “historicização da epistemologia” (Rheinberger) que aconteceu em diferentes países da Europa a partir das primeiras décadas do século passado. Foi assim que Braunstein e Rheinberger, mas também Daston, puderam reivindicar para a epistemologia histórica a obra do polonês Ludwik Fleck, ainda hoje visto por muitos como uma espécie de “fundador mítico” da sociologia do conhecimento.

Matteo Vagelli, Jean-François Braunstein e Iván Moya Diez | Imagem: Hypotheses

Após a apresentação escrita pelos organizadores, a honrosa tarefa de abertura do volume coube àquele que, na França, depois de Foucault, mais aproximou a epistemologia histórica da historiografia profissional: François Delaporte. Aluno de Canguilhem e Foucault, Delaporte, falecido no mesmo ano de publicação do livro, fez questão, naquele que talvez seja o último texto a receber sua autorização para publicação, de reforçar os traços distintivos do “estilo francês de História das Ciências”. Seu texto começa com uma longa citação de Foucault acerca da relação entre a historiografia francesa das ciências e a resposta de Kant à pergunta sobre a Aufklärung, tema que ocupou o filósofo-historiador francês nos seus últimos anos de vida. A tese de Foucault é que, na França, a atitude de modernidade da História das Ciências é uma consequência da confrontação kantiana do pensamento racional não apenas a partir da sua natureza e do seu fundamento, dos seus poderes e direitos, mas também da sua história e da sua geografia. A partir daí, Delaporte dá início a uma relevante análise historiográfica, começando pela importância da obra filosófica de Auguste Comte para a formação disciplinar da História das Ciências e da Medicina na França. Canguilhem sempre insistiu sobre essa questão, ao mesmo tempo que dirigia críticas demolidoras à tradição historiográfica positivista.

Delaporte também apresenta alguns dos traços daquele estilo francês de História das Ciências a partir da comparação com a chamada “escola germano-estadunidense” de História da Medicina, marcada pelos nomes de Henry Sigerist, Erwin Ackerknecht, Owsei Temkim, Charles Rosenberg, Georges Rosen e Richard Henry Shryock, que teriam dado uma orientação sociológica à disciplina. Tive a oportunidade de conversar sobre o tema com Delaporte nos poucos encontros que tivemos, inclusive durante uma de suas visitas ao Brasil, onde conseguiu imprimir sua marca na historiografia das doenças e da medicina tropical, sendo bastante lembrado pelo debate teórico-metodológico fundamental que inaugurou em torno da história da doença de Chagas. Diferente dele, entretanto, tenho insistido sobre a importância dos trabalhos de Sigerist e de Ackerknecht para a obra de Canguilhem. A discordância de Delaporte, apesar das múltiplas referências de Canguilhem aos dois historiadores, tanto na obra publicada quanto em suas notas de cursos preservadas no CAPHÉS, era, no fundo, uma tentativa de deixar de fora da teoria da história do velho mestre certos elementos do debate entre ciência e ideologia que marcou o contexto intelectual francês entre o final dos anos 60 e o início da década seguinte. Delaporte considerava a questão como um assunto “menor” da obra tardia de Canguilhem, uma espécie de rara concessão que ele havia feito a Althusser e a alguns dos seus alunos que eram próximos do filósofo marxista, especialmente Dominique Lecourt e Pierre Macherey.

Delaporte ainda defende, em seu texto, a importância da obra de Alexandre Koyré para a formação do quadro teórico-metodológico da historiografia das ciências na França, sem o qual, ele afirma, não seria possível compreender, verdadeiramente, a originalidade da obra de Michel Foucault. O “desconhecimento dos axiomas metodológicos que foram aplicados por Bachelard, Koyré e Canguilhem bloqueia o acesso a Naissance de la clinique”, escreveu. “Certo, Foucault teve o cuidado de esclarecer que suas análises não são estudos de História das Ciências. Mas as ferramentas técnicas e conceituais mobilizadas em Une archéologie du regard médical são importadas do domínio da história das ciências” (p. 19).

Nessa reflexão sobre um ethos compartilhado, sua “atitude de modernidade”, a referência ao tema inicial da Aufklärung poderia ser retomada, pois foi a reflexão de Foucault sobre o tema kantiano que permitiu aos comentadores e historiadores da historiografia explicar o caráter político da epistemologia histórica, sua preocupação permanente com o presente, seu esforço para mostrar a arbitrariedade, o dogmatismo e a violência por trás daquilo que percebemos como natural e necessário, para, assim, abrir a possibilidade de novos futuros, novos modos de constituição do nosso ser histórico no presente (Almeida, 2019) – vem daí as ideias de “ontologia histórica” e de “biografia dos objetos científicos”, que Hacking e Daston, respectivamente, encontraram em Foucault.

Após a apresentação dos organizadores do livro e o texto de Delaporte, o livro é dividido em dois grandes blocos – Historicités, objectivités, rationalités e Objets épistémiques, savoirs, Sciences – que reúnem dezesseis artigos de média extensão. No primeiro, seguindo o habitual das pesquisas de pós-graduação em filosofia, encontramos comentários, ditos “retratos”, sobre os autores que compartilharam o estilo epistemológico-histórico ou compuseram o seu contexto intelectual de formação, sobretudo na França: Bachelard, Canguilhem, Foucault, Cavaillès e Althusser, notadamenre, mas também Husserl, Hacking, Daston e Peter Galison. Já os textos do segundo bloco, nas palavras dos organizadores, levantam questões “sobre os procedimentos de constituição dos objetos que a epistemologia histórica irá estudar e sobre os problemas metodológicos concretos com os quais seus princípios são confrontados nesta ocasião” (p. 10). São tematizados a história das técnicas de observação nas ciências sociais, a historicidade e a formalização das matemáticas, a épistémè computacional da medicina, a genética das populações e o conceito de célula cancerosa, sem deixar de relacionar esses objetos a questões teóricas da abordagem, como a fenomenotécnica, o anacronismo e a velha questão da relação entre História das Ciências e “História geral”.

Michel Foucault, Georges Canguilhem e Louis Althusser | Imagens: Filosófica Biblioteca, Ex-isto e Wikimedia commons

O esforço de coesão dos organizadores merece ser reconhecido, dado o caráter multifacetado das contribuições, como não poderia deixar de ser numa coletânea que reúne trabalhos inscritos livremente por seus autores em eventos que almejavam mesmo à pluralidade temática. O uso meramente tateante dos recursos metodológicos da epistemologia histórica por parte de alguns autores do volume não minimiza seus méritos por tê-los identificado. Pode-se lamentar que o livro tenha, ainda, um caráter muito internalista, negligenciando os frutíferos diálogos que a epistemologia histórica tem mantido com a história cultural e a geografia dos saberes, por exemplo. Aliás, a desconsideração pela virada espacial, que ajudaria a mostrar, inclusive, a força política dessa forma de crítica histórica das racionalidades científicas, é algo inevitavelmente percebido por qualquer leitor não europeu do livro.

A coletânea é um trabalho extremamente bem-intencionado e bem-vindo, que amplia e aprofunda a noção de epistemologia histórica ao esclarecer muitos elementos das obras dos filósofos-historiadores que compartilham o estilo. Precisamos também agradecer aos organizadores e à editora por disponibilizarem, gratuitamente, o livro para download. Primeiro fruto de reflexões coletivas realizadas há mais de meia década, a comparação entre os textos publicados no livro e o desenvolvimento atual dos trabalhos de seus autores, em seus respectivos campos de investigação, permite responder afirmativamente àquela questão feita por Braunstein: sim, a epistemologia histórica pode ir mais longe.

Referências

ALMEIDA, Tiago S. e CAMOLEZI, Marcos. “Entrevista com Jean-François Braunstein”. Intelligere, vol. 2, n. 1, p. 159. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/revistaintelligere/article/view/114452 >.

ALMEIDA, Tiago Santos. “Erguendo barreiras contra o irracionalismo: História das Ciências e diagnóstico da atualidade em Gaston Bachelard”. Tempo. 2019, v. 25, n. 3, pp. 715-736. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/TEM-1980-542X2019v250310>.

Sumário de L’épistémologie historique: Histoire et méthodes

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Resenhista

Tiago Santos Almeida – Doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), professor de Teoria da História da Universidade de Brasília, pesquisador visitante do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia e coordenador do GT História da Ciência e Tecnologia da ANPUH-GO. Publicou, entre outros trabalhos, Canguilhem e a gênese do possível: estudo sobre a historicização das ciências (2018) e organizou a coletânea Historicidade e Objetividade (2017), de Lorraine Daston. E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

BRAUNSTEIN, Jean-François, MOYA DIEZ, Iván e VAGELLI, Matteo (orgs.). L’épistémologie historique: Histoire et méthodes. Paris: Éditions de la Sorbonne, 2019. Disponível em: < http://books.openedition.org/psorbonne/39172 >. Resenha de: ALMEIDA, Tiago Santos. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, 10-15, maio/jun., 2022. Disponível em<https://www.criticahistoriografica.com.br/?p=2738>

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Outras resenhas de L’épistémologie historique: Histoire et méthodes

Marcela Renée Becerra Batán – Epistemología e Historia de la Ciencia (2020)

© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA)

Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, maio/jun. 2022 | ISSN 2764-2666

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O que pode a Epistemologia Histórica? Resenha de “L’épistémologie historique: Histoire et méthodes”, organizado por Jean-François Braunstein, Iván Moya Diez e Matteo Vagelli

Resenhado por Tiago Santos Almeida (UnB) | 01 maio 2022.


Jean-François Braunstein | Foto: Zoé Ducournau

L’épistémologie historique. Histoire et méthodes (Paris: Éditions de la Sorbonne, 2019), organizado por Jean-François Braunstein e seus ex-alunos Iván Moya Diez e Matteo Vagelli, reúne algumas das comunicações apresentadas nas edições de 2015 e 2016 das Journées d’épistémologie historique.

Mais ou menos no mesmo período, meu colega Marcos Camolezi e eu fizemos e publicamos, no segundo número da revista Intelligere, uma entrevista com Braunstein, então supervisor do nosso estágio de pesquisa na Université Paris 1. Num dos momentos mais interessantes da conversa, Marcos lembrou que, nas décadas finais do século XX, a Epistemologia Histórica “parecia uma ocupação de velhos, um assunto fora de moda” e, antecipando uma resposta vindicadora, questionou: “qual a situação da epistemologia histórica hoje?” (Almeida; Camolezi, 2015, p.159).

“Antes de mais nada”, Braunstein respondeu, “é preciso que nos entendamos sobre o que chamamos de epistemologia histórica. São os trabalhos de vocês que vão precisar o que ela é. Trata-se apenas de uma abordagem filosófica muito geral da História das Ciências, ou ela permite ir mais longe?” (Almeida; Camolezi, 2015, p.159). O “vocês”, no caso, se refere a um grupo de pesquisadores de diferentes nacionalidades, mas sobretudo europeus, que desenvolviam suas pesquisas de pós-graduação em Paris, animados pela abertura do arquivo pessoal e de trabalho de Georges Canguilhem localizado no CAPHÉS – Centre d’Archives en Philosophie, Histoire et Édition des Sciences, na rue d’Ulm, pela leitura renovada de Gaston Bachelard, pelo reconhecimento tardio de Michel Foucault como um historiador das ciências e pela tradução, em obras originais recentes, da Épistémologie Historique em Historical Epistemology e Historische Epistemologie.

Sentindo a mudança nos ares, aqueles jovens pesquisadores defenderam suas teses, organizaram eventos e publicaram artigos e livros exibindo, despudoradamente, o rótulo “epistemologia histórica”, como explícito neste livro. Na apresentação de L’épistémologie historique. Histoire et méthodes, assim como naquela entrevista publicada na revista Intelligere, a questão da relação entre a “velha” e a “nova” epistemologia histórica organiza a exposição do objeto. Numa ponta, os debates franceses que animaram as obras de Abel Rey, Bachelard, Canguilhem e Foucault; na outra, as contribuições originais de autores como Ian Hacking, Arnold Davidson, Hans-Jörg Rheinberger e Lorraine Daston.

Vê-se bem que a questão não era apenas de cronologia, mas também de geografia. Ao se perguntar se havia ou não uma relação substancial entre o que aqueles autores faziam sob o mesmo nome geral, os pesquisadores que, em 2015, reunidos na Sorbonne, fundaram a rede internacional Épistémologie Historique – Research Network on the History and Methods of Historical Epistemology ajudaram a anular a antiga intepretação que insistia em apresentar a epistemologia histórica como uma escola filosófica nacional francesa. Desde então, ela vem sendo explicada, sobretudo, como um “estilo” filosófico (Braunstein) de prática da História das Ciências, resultante de um processo transnacional de “historicização da epistemologia” (Rheinberger) que aconteceu em diferentes países da Europa a partir das primeiras décadas do século passado. Foi assim que Braunstein e Rheinberger, mas também Daston, puderam reivindicar para a epistemologia histórica a obra do polonês Ludwik Fleck, ainda hoje visto por muitos como uma espécie de “fundador mítico” da sociologia do conhecimento.

Matteo Vagelli, Jean-François Braunstein e Iván Moya Diez | Imagem: Hypotheses

Após a apresentação escrita pelos organizadores, a honrosa tarefa de abertura do volume coube àquele que, na França, depois de Foucault, mais aproximou a epistemologia histórica da historiografia profissional: François Delaporte. Aluno de Canguilhem e Foucault, Delaporte, falecido no mesmo ano de publicação do livro, fez questão, naquele que talvez seja o último texto a receber sua autorização para publicação, de reforçar os traços distintivos do “estilo francês de História das Ciências”. Seu texto começa com uma longa citação de Foucault acerca da relação entre a historiografia francesa das ciências e a resposta de Kant à pergunta sobre a Aufklärung, tema que ocupou o filósofo-historiador francês nos seus últimos anos de vida. A tese de Foucault é que, na França, a atitude de modernidade da História das Ciências é uma consequência da confrontação kantiana do pensamento racional não apenas a partir da sua natureza e do seu fundamento, dos seus poderes e direitos, mas também da sua história e da sua geografia. A partir daí, Delaporte dá início a uma relevante análise historiográfica, começando pela importância da obra filosófica de Auguste Comte para a formação disciplinar da História das Ciências e da Medicina na França. Canguilhem sempre insistiu sobre essa questão, ao mesmo tempo que dirigia críticas demolidoras à tradição historiográfica positivista.

Delaporte também apresenta alguns dos traços daquele estilo francês de História das Ciências a partir da comparação com a chamada “escola germano-estadunidense” de História da Medicina, marcada pelos nomes de Henry Sigerist, Erwin Ackerknecht, Owsei Temkim, Charles Rosenberg, Georges Rosen e Richard Henry Shryock, que teriam dado uma orientação sociológica à disciplina. Tive a oportunidade de conversar sobre o tema com Delaporte nos poucos encontros que tivemos, inclusive durante uma de suas visitas ao Brasil, onde conseguiu imprimir sua marca na historiografia das doenças e da medicina tropical, sendo bastante lembrado pelo debate teórico-metodológico fundamental que inaugurou em torno da história da doença de Chagas. Diferente dele, entretanto, tenho insistido sobre a importância dos trabalhos de Sigerist e de Ackerknecht para a obra de Canguilhem. A discordância de Delaporte, apesar das múltiplas referências de Canguilhem aos dois historiadores, tanto na obra publicada quanto em suas notas de cursos preservadas no CAPHÉS, era, no fundo, uma tentativa de deixar de fora da teoria da história do velho mestre certos elementos do debate entre ciência e ideologia que marcou o contexto intelectual francês entre o final dos anos 60 e o início da década seguinte. Delaporte considerava a questão como um assunto “menor” da obra tardia de Canguilhem, uma espécie de rara concessão que ele havia feito a Althusser e a alguns dos seus alunos que eram próximos do filósofo marxista, especialmente Dominique Lecourt e Pierre Macherey.

Delaporte ainda defende, em seu texto, a importância da obra de Alexandre Koyré para a formação do quadro teórico-metodológico da historiografia das ciências na França, sem o qual, ele afirma, não seria possível compreender, verdadeiramente, a originalidade da obra de Michel Foucault. O “desconhecimento dos axiomas metodológicos que foram aplicados por Bachelard, Koyré e Canguilhem bloqueia o acesso a Naissance de la clinique”, escreveu. “Certo, Foucault teve o cuidado de esclarecer que suas análises não são estudos de História das Ciências. Mas as ferramentas técnicas e conceituais mobilizadas em Une archéologie du regard médical são importadas do domínio da história das ciências” (p. 19).

Nessa reflexão sobre um ethos compartilhado, sua “atitude de modernidade”, a referência ao tema inicial da Aufklärung poderia ser retomada, pois foi a reflexão de Foucault sobre o tema kantiano que permitiu aos comentadores e historiadores da historiografia explicar o caráter político da epistemologia histórica, sua preocupação permanente com o presente, seu esforço para mostrar a arbitrariedade, o dogmatismo e a violência por trás daquilo que percebemos como natural e necessário, para, assim, abrir a possibilidade de novos futuros, novos modos de constituição do nosso ser histórico no presente (Almeida, 2019) – vem daí as ideias de “ontologia histórica” e de “biografia dos objetos científicos”, que Hacking e Daston, respectivamente, encontraram em Foucault.

Após a apresentação dos organizadores do livro e o texto de Delaporte, o livro é dividido em dois grandes blocos – Historicités, objectivités, rationalités e Objets épistémiques, savoirs, Sciences – que reúnem dezesseis artigos de média extensão. No primeiro, seguindo o habitual das pesquisas de pós-graduação em filosofia, encontramos comentários, ditos “retratos”, sobre os autores que compartilharam o estilo epistemológico-histórico ou compuseram o seu contexto intelectual de formação, sobretudo na França: Bachelard, Canguilhem, Foucault, Cavaillès e Althusser, notadamenre, mas também Husserl, Hacking, Daston e Peter Galison. Já os textos do segundo bloco, nas palavras dos organizadores, levantam questões “sobre os procedimentos de constituição dos objetos que a epistemologia histórica irá estudar e sobre os problemas metodológicos concretos com os quais seus princípios são confrontados nesta ocasião” (p. 10). São tematizados a história das técnicas de observação nas ciências sociais, a historicidade e a formalização das matemáticas, a épistémè computacional da medicina, a genética das populações e o conceito de célula cancerosa, sem deixar de relacionar esses objetos a questões teóricas da abordagem, como a fenomenotécnica, o anacronismo e a velha questão da relação entre História das Ciências e “História geral”.

Michel Foucault, Georges Canguilhem e Louis Althusser | Imagens: Filosófica Biblioteca, Ex-isto e Wikimedia commons

O esforço de coesão dos organizadores merece ser reconhecido, dado o caráter multifacetado das contribuições, como não poderia deixar de ser numa coletânea que reúne trabalhos inscritos livremente por seus autores em eventos que almejavam mesmo à pluralidade temática. O uso meramente tateante dos recursos metodológicos da epistemologia histórica por parte de alguns autores do volume não minimiza seus méritos por tê-los identificado. Pode-se lamentar que o livro tenha, ainda, um caráter muito internalista, negligenciando os frutíferos diálogos que a epistemologia histórica tem mantido com a história cultural e a geografia dos saberes, por exemplo. Aliás, a desconsideração pela virada espacial, que ajudaria a mostrar, inclusive, a força política dessa forma de crítica histórica das racionalidades científicas, é algo inevitavelmente percebido por qualquer leitor não europeu do livro.

A coletânea é um trabalho extremamente bem-intencionado e bem-vindo, que amplia e aprofunda a noção de epistemologia histórica ao esclarecer muitos elementos das obras dos filósofos-historiadores que compartilham o estilo. Precisamos também agradecer aos organizadores e à editora por disponibilizarem, gratuitamente, o livro para download. Primeiro fruto de reflexões coletivas realizadas há mais de meia década, a comparação entre os textos publicados no livro e o desenvolvimento atual dos trabalhos de seus autores, em seus respectivos campos de investigação, permite responder afirmativamente àquela questão feita por Braunstein: sim, a epistemologia histórica pode ir mais longe.

Referências

ALMEIDA, Tiago S. e CAMOLEZI, Marcos. “Entrevista com Jean-François Braunstein”. Intelligere, vol. 2, n. 1, p. 159. Disponível em: < https://www.revistas.usp.br/revistaintelligere/article/view/114452 >.

ALMEIDA, Tiago Santos. “Erguendo barreiras contra o irracionalismo: História das Ciências e diagnóstico da atualidade em Gaston Bachelard”. Tempo. 2019, v. 25, n. 3, pp. 715-736. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/TEM-1980-542X2019v250310>.

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Para citar esta resenha

BRAUNSTEIN, Jean-François, MOYA DIEZ, Iván e VAGELLI, Matteo (orgs.). L’épistémologie historique: Histoire et méthodes. Paris: Éditions de la Sorbonne, 2019. Disponível em: < http://books.openedition.org/psorbonne/39172 >. Resenha de: ALMEIDA, Tiago Santos. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, 10-15, maio/jun., 2022. Disponível em<https://www.criticahistoriografica.com.br/?p=2738>

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