A escola do século XXI – Resenha de “Manual didático do professor de História: História local e Aprendizagem Significativa”, de Moisés Santos Reis Amaral

Resenhado por Douglas Silva (SEED-SE/UFS) | ID: https://orcid.org/0000-0002-1036-2270.


Ilustração de Mateus Oliveira Queiroz para o Manual didático do professor de História História local e aprendizagem significativa.

Manual Didático do professor de História: História local e Aprendizagem significativa, de Moisés Santos Reis Amaral, propõe metodologias ativas para o ensino de História com o uso das modernas tecnologias na educação básica a fim de aproximar o estudante e a atualidade e de envolvê-lo no processo de ensino-aprendizagem. Essa tarefa, segundo o autor, exige formação continuada numa guinada para a criticidade e a interação.

O livro aborda a história local do município de Fátima-BA, lugar onde o autor trabalha como professor da rede municipal de ensino. Ele é graduado em História pelo Centro Universitário Ages, especializado em História e Cultura Afro-brasileira pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci e Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Amaral também passou temporada na rede particular de ensino e atua como tutor e palestrante nas áreas de Educação, Ensino de História e Geografia.

Na introdução, há um debate sobre os desafios do professor de história atual para a aplicação das novas tecnologias diante da formação continuada em uma sociedade ávida por assimilação rápida de conteúdo e que, dentro de uma lógica de competitividade, exige celeridade por parte do professor. Dessa forma, segundo o autor, a rede mundial de computadores tornou-se uma ferramenta imprescindível de ensinar e aprender.

Pondera o autor, entretanto, que o professor deve filtrar as informações e recursos que podem ser úteis ao seu trabalho em sala de aula e que, ao mesmo tempo, o conteúdo selecionado não deve ser apenas constituído por conceitos, fatos e processos ou destituído de base científica, risco permanente que se corre diante de um volume de informações baseadas no negacionismo em reação ao saber científico. A obra também critica o ensino tradicional e sua aplicabilidade futura, defendendo uma História que valorize a contribuição dos grupos socialmente excluídos, dado que a literatura historiográfica escolar ainda permanece calcada em ícones, efemérides e numa perspectiva eurocêntrica.

Contudo, o autor não faz menção à importância de que a sua e qualquer outra obra que trate de História local não seja um instrumento de manipulação de fatos históricos por grupos políticos do lugar com finalidade de utilizar subterfúgios em escolas públicas para autopropaganda. Do mesmo modo, a obra deveria fazer menção, nessa parte introdutória, ao fato de que o historiador que produz o resgate local necessita ter uma autocobrança no sentido de não colocar o afeto pelo lugar acima da pesquisa científica.

Amaral propõe um manual com sequências didáticas sobre a História local do município de Fátima para possibilitar ao professor de História a atividade prática com seus estudantes. O livro é composto por nove capítulos. Após a introdução, apresenta seis capítulos que discorrem sobre destacados fatos da história local e que correspondem (cada um deles) às etapas de um planejamento destinado a estudantes dos anos finais do ensino fundamental e médio com a possibilidade, segundo é mencionado, de adaptações aos anos iniciais do ensino fundamental. Em todos eles, o autor segue uma ordem uniforme de orientações para os docentes que consiste em: objetivo geral, destinatário (público-alvo), habilidades desenvolvidas, valores priorizados, relação sugerida com os conteúdos prescritos no currículo escolar em vigor, recursos empregados pelos estudantes (conexão de rede sem fio, computadores, impressão, material gráfico, fotografias antigas impressas em papel ofício, data-show, gravador de voz, câmera fotográfica, material gráfico), descrição da fonte principal, descrição da atividade, questões para reflexão, possíveis resultados, proposta de avaliação e adaptação para outros destinatários.

Não obstante essas importantes questões, a parte introdutória carece de uma importante indagação: como implementar um conjunto de ações pedagógicas por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) sem a garantia de uma universalização desses recursos entre os estudantes, principalmente, na escola pública brasileira?

Em todas as atividades propostas, há a preocupação de tratar da história local com participação ativa dos discentes. É o que percebemos nos capítulos iniciais – “Contando histórias de coronéis” e “O Volante Fatimense”. Ali, o autor expõe como o “coronelismo”, o “cangaço” e a forma patriarcal de estabelecer líderes no interior do Nordeste brasileiro, em particular, nos municípios de Fátima e Cícero Dantas, são forjados na ausência da vontade popular, na romantização de pessoas da cena local detentoras de poder econômico, na exclusão social que desencadeia diversos problemas, dentre eles a criminalidade ontem e hoje, mudando apenas os personagens e as modalidades de crime.

A proposta desses dois capítulos é fazer o estudante estabelecer pontes entre esses dois fatos e o cotidiano do espaço onde abita. A avaliação dos resultados enfatiza que o aluno deve ser capaz de fazer essas interrelações com os textos de apoio oferecidos e lidos bem como com os trabalhos posteriormente desenvolvidos, porém, talvez fosse necessária a explicitação de como proceder com possíveis percalços que os estudantes porventura tenham passado na assimilação do conhecimento com rendimento não fosse satisfatório. Desconsiderar que entre os estudantes possam existir não nascidos ou não viventes há muito tempo no município é temerário aos objetivos propostos, pois a esses o conhecimento sobre a realidade estudada pode deter um período maior que os demais, confrontando as narrativas locais com os conhecimentos prévios a partir das histórias vividas ou narradas por familiares e pessoas próximas.

Nos capítulos “Narrativas de Seu Faustino: Beatos e cangaceiros nas terras da Feirinha” e “Fátima: de Ângelo Lagoa à emancipação, do barracão à independência”, a ideia do autor é tratar da espacialidade e formação do lugar a partir de fatos e processos históricos relevantes e atravessados pela violência. A obra instiga os estudantes a refletir sobre as origens desse problema social e sua relação com a pobreza. Neles estão dispostas narrativas de pessoas da comunidade que testemunharam alguns desses acontecimentos e que oferecem importantes informações sobre a formação territorial do atual município de Fátima. Contém ainda imagens fotográficas que destacam, em diferentes tempos históricos, diversos acontecimentos da história do lugar.

São propostas atividades práticas de iniciação à pesquisa e a escrita histórica como a prospecção e seleção de fontes históricas. Posteriormente, são desenvolvidas atividades dissertativas sobre os conteúdos e outras de caráter descritivo no que tange às fotografias. A possibilidade de adaptar as tarefas propostas para uma atividade oral àqueles com dificuldade textual parece ser um aspecto relevante do trabalho.

No capítulo seguinte – “A criação de gado e o povoamento do Sertão” – os alunos são convidados a produzir dissertações que contenham criticidade a partir da temática proposta no capítulo e que esses textos possam alimentar uma página da internet e, assim, contribuir para a criação de uma ferramenta que ofereça o conhecimento da História local de uma maneira amplificada e democrática.

A abordagem da história local de Fátima-BA dialoga com diversos contextos políticos e sociais do Sertão Nordestino do final do século XIX ao curso do século XX e seus reflexos na vida das pessoas do lugar: a Guerra de Canudos, o Cangaço, o Coronelismo e a criação de novos municípios no Pós-ditadura militar entre os anos de 1964 e 1985.

Ilustração de Luta Contra Canudos (Esteves, Jozz e Sanoki, 2014, p. 12)

Em “Apêndice” tem-se diversas fontes para o subsídio ao emprego dos cinco capítulos anteriores. São textos, narrativas transcritas na íntegra, fotografias de eventos históricos do município de Fátima fundamentais à compreensão da História local.

Em “Considerações Finais”, o autor retoma indagações sobre a formação de um professor de História preparado para uma escola que supere barreiras do ensino reprodutor de conteúdos e que possa ser o principal agente dessa transformação estimulando a criticidade e a versatilidade.

A obra é construída por uma linguagem de fácil compreensão e tem a preocupação em demonstrar de maneira clara a sequência de tarefas e procedimentos propostos aos professores. Permite aos docentes pensar de maneira mais ampliada sobre a necessidade de se incluir em seu cotidiano de sala de aula a história do chão de seus estudantes, contada a partir dos referenciais de cientistas históricos e intelectuais locais, mas também, por pessoas “invisíveis”, que comunicam, em suas memórias, relevantes dados que outrora foram desprezados por uma historiografia totalizante.

Possibilita flexibilidade no ensinar quando permite estratégias de releituras a partir de faixas etárias distintas. O reconhecimento de que o livro tem um zelo pela adaptação das tarefas propostas a diferentes níveis de ensino nos permite observar que seria importante poder alcançar às crianças e jovens especiais que são contemplados pela educação inclusiva à luz da vasta legislação atualmente existente no Brasil.

Falando de escola pública, também é oportuno registrar que são necessárias outras indicações de trabalho do conteúdo quando não se tem recursos de informática disponíveis no ambiente escolar e sobretudo quando os estudantes, em sua maioria carentes economicamente, não dispõem de aparelhos eletrônicos nem de acesso a dados de internet, sejam eles de áreas rurais ou urbanas.

Enfim, o Manual didático do professor de História: História local e Aprendizagem Significativa é útil, relevante e oportuno como instrumento de ensino, sobretudo. Mas, como parte de um processo de formação identitária, o professor Reis poderia apresentar resultados de suas experiências conforme os exemplos oferecidos no manual a fim de que o seu leitor potencial pudesse reconhecer as dificuldades, revisá-las e melhor as contornar.

Referências

ESTEVES, D.; JOZZ; SANOKI, A. Luta Contra Canudos. São Paulo: Nemo, 2014.


Sumário de Manual didático do professor de História: História Local e Aprendizagem Significativa

  • Introdução
  • Contando histórias de coronéis
  • O volante Fatimense
  • Narrativas de Seu Faustino: Beatos e cangaceiros nas terras da Feirinha
  • Fátima: de Ângelo Lagoa à emancipação, do barracão à independência.
  • A criação de gado e o povoamento do “Sertão”.
  • Apêndice
  • Considerações Finais
  • Referências Bibliográficas

Resenhista

Douglas Silva é professor do Colégio Estadual Olavo Bilac em Aracaju-SE, da Escola Municipal Maria das Graças Souza Garcez em Itaporanga d’Ajuda e aluno do Mestrado em Ensino de História da Universidade Federal de Sergipe. Publicou entre outros trabalhos: Cidadania em um Universo Relacional: População de Rua em Aracaju-SE projeto de iniciação científica do PBIC/CNPq. E-mail: Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9099513651518567; ID: https://orcid.org/my-orcid?orcid=0000-0002-1036-2270; Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008474169903; Instagram: @douglasleoni13; E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

REIS, Moisés. Manual didático do professor de História: História local e Aprendizagem significativa. Aracaju: 2019. 103p. Resenha de: SILVA, Douglas. A escola do século XXI. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, jul./ago. 2022Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/a-escola-do-seculo-xxi-resenha-de-manual-didatico-do-professor-de-historia-historia-local-e-aprendizagem-significativa-de-moises-santos-reis-amaral/>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.2,n6, jul./ago. 2022 | ISSN 2764-2666

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A escola do século XXI – Resenha de “Manual didático do professor de História: História local e Aprendizagem Significativa”, de Moisés Santos Reis Amaral

Resenhado por Douglas Silva (SEED-SE/UFS) | ID: https://orcid.org/0000-0002-1036-2270.


Ilustração de Mateus Oliveira Queiroz para o Manual didático do professor de História História local e aprendizagem significativa.

Manual Didático do professor de História: História local e Aprendizagem significativa, de Moisés Santos Reis Amaral, propõe metodologias ativas para o ensino de História com o uso das modernas tecnologias na educação básica a fim de aproximar o estudante e a atualidade e de envolvê-lo no processo de ensino-aprendizagem. Essa tarefa, segundo o autor, exige formação continuada numa guinada para a criticidade e a interação.

O livro aborda a história local do município de Fátima-BA, lugar onde o autor trabalha como professor da rede municipal de ensino. Ele é graduado em História pelo Centro Universitário Ages, especializado em História e Cultura Afro-brasileira pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci e Mestre em Ensino de História pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Amaral também passou temporada na rede particular de ensino e atua como tutor e palestrante nas áreas de Educação, Ensino de História e Geografia.

Na introdução, há um debate sobre os desafios do professor de história atual para a aplicação das novas tecnologias diante da formação continuada em uma sociedade ávida por assimilação rápida de conteúdo e que, dentro de uma lógica de competitividade, exige celeridade por parte do professor. Dessa forma, segundo o autor, a rede mundial de computadores tornou-se uma ferramenta imprescindível de ensinar e aprender.

Pondera o autor, entretanto, que o professor deve filtrar as informações e recursos que podem ser úteis ao seu trabalho em sala de aula e que, ao mesmo tempo, o conteúdo selecionado não deve ser apenas constituído por conceitos, fatos e processos ou destituído de base científica, risco permanente que se corre diante de um volume de informações baseadas no negacionismo em reação ao saber científico. A obra também critica o ensino tradicional e sua aplicabilidade futura, defendendo uma História que valorize a contribuição dos grupos socialmente excluídos, dado que a literatura historiográfica escolar ainda permanece calcada em ícones, efemérides e numa perspectiva eurocêntrica.

Contudo, o autor não faz menção à importância de que a sua e qualquer outra obra que trate de História local não seja um instrumento de manipulação de fatos históricos por grupos políticos do lugar com finalidade de utilizar subterfúgios em escolas públicas para autopropaganda. Do mesmo modo, a obra deveria fazer menção, nessa parte introdutória, ao fato de que o historiador que produz o resgate local necessita ter uma autocobrança no sentido de não colocar o afeto pelo lugar acima da pesquisa científica.

Amaral propõe um manual com sequências didáticas sobre a História local do município de Fátima para possibilitar ao professor de História a atividade prática com seus estudantes. O livro é composto por nove capítulos. Após a introdução, apresenta seis capítulos que discorrem sobre destacados fatos da história local e que correspondem (cada um deles) às etapas de um planejamento destinado a estudantes dos anos finais do ensino fundamental e médio com a possibilidade, segundo é mencionado, de adaptações aos anos iniciais do ensino fundamental. Em todos eles, o autor segue uma ordem uniforme de orientações para os docentes que consiste em: objetivo geral, destinatário (público-alvo), habilidades desenvolvidas, valores priorizados, relação sugerida com os conteúdos prescritos no currículo escolar em vigor, recursos empregados pelos estudantes (conexão de rede sem fio, computadores, impressão, material gráfico, fotografias antigas impressas em papel ofício, data-show, gravador de voz, câmera fotográfica, material gráfico), descrição da fonte principal, descrição da atividade, questões para reflexão, possíveis resultados, proposta de avaliação e adaptação para outros destinatários.

Não obstante essas importantes questões, a parte introdutória carece de uma importante indagação: como implementar um conjunto de ações pedagógicas por meio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s) sem a garantia de uma universalização desses recursos entre os estudantes, principalmente, na escola pública brasileira?

Em todas as atividades propostas, há a preocupação de tratar da história local com participação ativa dos discentes. É o que percebemos nos capítulos iniciais – “Contando histórias de coronéis” e “O Volante Fatimense”. Ali, o autor expõe como o “coronelismo”, o “cangaço” e a forma patriarcal de estabelecer líderes no interior do Nordeste brasileiro, em particular, nos municípios de Fátima e Cícero Dantas, são forjados na ausência da vontade popular, na romantização de pessoas da cena local detentoras de poder econômico, na exclusão social que desencadeia diversos problemas, dentre eles a criminalidade ontem e hoje, mudando apenas os personagens e as modalidades de crime.

A proposta desses dois capítulos é fazer o estudante estabelecer pontes entre esses dois fatos e o cotidiano do espaço onde abita. A avaliação dos resultados enfatiza que o aluno deve ser capaz de fazer essas interrelações com os textos de apoio oferecidos e lidos bem como com os trabalhos posteriormente desenvolvidos, porém, talvez fosse necessária a explicitação de como proceder com possíveis percalços que os estudantes porventura tenham passado na assimilação do conhecimento com rendimento não fosse satisfatório. Desconsiderar que entre os estudantes possam existir não nascidos ou não viventes há muito tempo no município é temerário aos objetivos propostos, pois a esses o conhecimento sobre a realidade estudada pode deter um período maior que os demais, confrontando as narrativas locais com os conhecimentos prévios a partir das histórias vividas ou narradas por familiares e pessoas próximas.

Nos capítulos “Narrativas de Seu Faustino: Beatos e cangaceiros nas terras da Feirinha” e “Fátima: de Ângelo Lagoa à emancipação, do barracão à independência”, a ideia do autor é tratar da espacialidade e formação do lugar a partir de fatos e processos históricos relevantes e atravessados pela violência. A obra instiga os estudantes a refletir sobre as origens desse problema social e sua relação com a pobreza. Neles estão dispostas narrativas de pessoas da comunidade que testemunharam alguns desses acontecimentos e que oferecem importantes informações sobre a formação territorial do atual município de Fátima. Contém ainda imagens fotográficas que destacam, em diferentes tempos históricos, diversos acontecimentos da história do lugar.

São propostas atividades práticas de iniciação à pesquisa e a escrita histórica como a prospecção e seleção de fontes históricas. Posteriormente, são desenvolvidas atividades dissertativas sobre os conteúdos e outras de caráter descritivo no que tange às fotografias. A possibilidade de adaptar as tarefas propostas para uma atividade oral àqueles com dificuldade textual parece ser um aspecto relevante do trabalho.

No capítulo seguinte – “A criação de gado e o povoamento do Sertão” – os alunos são convidados a produzir dissertações que contenham criticidade a partir da temática proposta no capítulo e que esses textos possam alimentar uma página da internet e, assim, contribuir para a criação de uma ferramenta que ofereça o conhecimento da História local de uma maneira amplificada e democrática.

A abordagem da história local de Fátima-BA dialoga com diversos contextos políticos e sociais do Sertão Nordestino do final do século XIX ao curso do século XX e seus reflexos na vida das pessoas do lugar: a Guerra de Canudos, o Cangaço, o Coronelismo e a criação de novos municípios no Pós-ditadura militar entre os anos de 1964 e 1985.

Ilustração de Luta Contra Canudos (Esteves, Jozz e Sanoki, 2014, p. 12)

Em “Apêndice” tem-se diversas fontes para o subsídio ao emprego dos cinco capítulos anteriores. São textos, narrativas transcritas na íntegra, fotografias de eventos históricos do município de Fátima fundamentais à compreensão da História local.

Em “Considerações Finais”, o autor retoma indagações sobre a formação de um professor de História preparado para uma escola que supere barreiras do ensino reprodutor de conteúdos e que possa ser o principal agente dessa transformação estimulando a criticidade e a versatilidade.

A obra é construída por uma linguagem de fácil compreensão e tem a preocupação em demonstrar de maneira clara a sequência de tarefas e procedimentos propostos aos professores. Permite aos docentes pensar de maneira mais ampliada sobre a necessidade de se incluir em seu cotidiano de sala de aula a história do chão de seus estudantes, contada a partir dos referenciais de cientistas históricos e intelectuais locais, mas também, por pessoas “invisíveis”, que comunicam, em suas memórias, relevantes dados que outrora foram desprezados por uma historiografia totalizante.

Possibilita flexibilidade no ensinar quando permite estratégias de releituras a partir de faixas etárias distintas. O reconhecimento de que o livro tem um zelo pela adaptação das tarefas propostas a diferentes níveis de ensino nos permite observar que seria importante poder alcançar às crianças e jovens especiais que são contemplados pela educação inclusiva à luz da vasta legislação atualmente existente no Brasil.

Falando de escola pública, também é oportuno registrar que são necessárias outras indicações de trabalho do conteúdo quando não se tem recursos de informática disponíveis no ambiente escolar e sobretudo quando os estudantes, em sua maioria carentes economicamente, não dispõem de aparelhos eletrônicos nem de acesso a dados de internet, sejam eles de áreas rurais ou urbanas.

Enfim, o Manual didático do professor de História: História local e Aprendizagem Significativa é útil, relevante e oportuno como instrumento de ensino, sobretudo. Mas, como parte de um processo de formação identitária, o professor Reis poderia apresentar resultados de suas experiências conforme os exemplos oferecidos no manual a fim de que o seu leitor potencial pudesse reconhecer as dificuldades, revisá-las e melhor as contornar.

Referências

ESTEVES, D.; JOZZ; SANOKI, A. Luta Contra Canudos. São Paulo: Nemo, 2014.


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  • Introdução
  • Contando histórias de coronéis
  • O volante Fatimense
  • Narrativas de Seu Faustino: Beatos e cangaceiros nas terras da Feirinha
  • Fátima: de Ângelo Lagoa à emancipação, do barracão à independência.
  • A criação de gado e o povoamento do “Sertão”.
  • Apêndice
  • Considerações Finais
  • Referências Bibliográficas

Resenhista

Douglas Silva é professor do Colégio Estadual Olavo Bilac em Aracaju-SE, da Escola Municipal Maria das Graças Souza Garcez em Itaporanga d’Ajuda e aluno do Mestrado em Ensino de História da Universidade Federal de Sergipe. Publicou entre outros trabalhos: Cidadania em um Universo Relacional: População de Rua em Aracaju-SE projeto de iniciação científica do PBIC/CNPq. E-mail: Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/9099513651518567; ID: https://orcid.org/my-orcid?orcid=0000-0002-1036-2270; Facebook: https://www.facebook.com/profile.php?id=100008474169903; Instagram: @douglasleoni13; E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

REIS, Moisés. Manual didático do professor de História: História local e Aprendizagem significativa. Aracaju: 2019. 103p. Resenha de: SILVA, Douglas. A escola do século XXI. Crítica Historiográfica. Natal, v.2, n.5, jul./ago. 2022Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/a-escola-do-seculo-xxi-resenha-de-manual-didatico-do-professor-de-historia-historia-local-e-aprendizagem-significativa-de-moises-santos-reis-amaral/>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.2,n6, jul./ago. 2022 | ISSN 2764-2666

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