Cantando pelas cidades – Resenha de Pedro Aune (EM Villa Lobos) sobre o livro “As origens da canção urbana”, de José Ramos Tinhorão

José Ramos Tinhorão | Imagem: Vermelho

Resumo: As Origens da Canção Urbana, de José Ramos Tinhorão, explora a evolução da canção nos centros urbanos usando fontes diversificadas. Embora ofereça insights valiosos sobre influências sociais e econômicas na música, a obra de Tinhorão é criticada por sua linguagem densa e conclusões por vezes indeterminadas.

Palavras-chave: canção urbana; história da música; MPB.


O livro As Origens da Canção Urbana de José Ramos Tinhorão foi publicado originalmente em Lisboa no ano de 1997, sendo lançado no Brasil pela Editora 34 em 2011. A obra de caráter histórico e musicológico se apoia em fontes diversas como documentos oficiais, cartas e textos teatrais com o objetivo de apontar forças sociais e econômicas que tenham contribuído para a consolidação da canção como música característica dos centros urbanos.

José Ramos Tinhorão (1928-2021) foi jornalista, crítico, colecionador e pesquisador da música popular brasileira, tendo colaborado com veículos como o Jornal do Brasil, Rede Globo, Veja e Pasquim. Ficou conhecido por posições polêmicas em geral baseadas na denúncia da influência estrangeira sobre a música brasileira, tecendo diversas e duras críticas à Bossa Nova, à Música Popular Brasileira (MPB) e à música comercial em geral. Em sua obra, Tinhorão dedicou diversos trabalhos à história da música popular, adotando uma perspectiva social e crítica. O autor afirma a existência de uma lacuna no que diz respeito à gênese do que seria a canção urbana em geral que os 21 capítulos do livro buscam preencher.

Os capítulos iniciais buscam apontar as novas questões e demandas surgidas com o estabelecimento dos grandes centros urbanos de forma acentuada durante o período renascentista. Partindo do caso da Lisboa do século IV, o autor afirma que o aumento da demanda por serviços decorrente do crescimento populacional acelerado na metrópole colonial levou à acentuação da divisão e especialização do trabalho em diversos setores. A mesma lógica se aplicaria aos serviços ligados ao entretenimento, acarretando o estímulo a uma variedade de atividades ligadas à prática e ao ensino de artes. A demanda por modos de diversão, as “novas novidades”, adequadas ao ritmo de vida das cidades, contribuiriam para a consolidação de linguagens artísticas adaptadas ao ambiente urbano. Com isso, formas de música, teatro e poesia se estabelecem ocupando os teatros, salões e praças das cidades emergentes.

O autor evidencia, também, os conflitos entre classes que contribuem para dar forma às práticas artísticas. Por um lado, a aristocracia que historicamente deteve os recursos, a autoridade política, econômica e militar, e determinava as práticas sociais compreendidas como “refinadas”. Por outro, a burguesia com seu poder econômico ascendente que buscava afirmação, mimetizando as práticas da aristocracia. Assim, a burguesia procuraria afirmar sua posição através do consumo de bens associados à nobreza que por sua vez buscava distanciar-se desta, chegando a fazer uso de meios legais restringindo o acesso a esses bens. A música praticada nesses meios ressoava a busca por distinção. Em paralelo, as classes populares desenvolviam práticas próprias que embora mantivessem algum diálogo com os hábitos das elites, eram a representação daquilo do que buscavam se afastar.

Os capítulos centrais do livro descrevem percurso histórico da canção. Tinhorão distingue a canção urbana como poesia cantada por solista acompanhado por instrumentos em oposição à música rural cantada em coro ou em verso e refrão. Tinhorão discute as possíveis origens históricas do termo cantar solo, atribuindo ao latim solatium ou consolo, chamando também a atenção para os registros de um “cantar de solau” que, embora evoque alguma discussão, é apontado pelo autor como cantar sem acompanhamento.

O autor defende que a canção urbana se relaciona com os cantos épicos da antiguidade, onde a música se unia à linguagem falada na narração de fatos e mitos. Mais tarde, a canção se prestaria à temática das conquistas militares e de feitos heroicos para posteriormente incorporar a temática do amor romântico. Bardos, menestréis, escudeiros, cegos, barbeiros e mendigos teriam carregado a tradição da canção que narrava batalhas, acontecimentos, casos de amor ou galhofas.

No último terço do livro, Tinhorão debate a influência de modismos estrangeiros na já consolidada sociedade urbana da Lisboa do século XVIII. As novas modas predominantemente oriundas da França exercem influência nos hábitos das elites, bem como das camadas mais populares. Modismos oriundos das colônias vem também a impactar o dia a dia da metrópole carregando os frutos do caldeirão cultural e racial que se via nas colônias. Danças e músicas resultantes da fusão de elementos culturais dos diversos povos que, por caminhos distintos e por vezes sangrentos, se encontravam nas colônias viravam moda na metrópole. A modinha brasileira com suas letras é citada como exemplo de protótipo de canção urbana moderna, apesar da associação desta com a música erudita, fruto da existência maior do registro em partitura das modinhas “elitizadas” em comparação com sua versão popular original. As sincopes características das músicas africanas marca as novas canções que animam o lazer das camadas populares e gradualmente passam a ecoar nos salões das elites financeiras.

Embora traga análises coerentes e perspectivas válidas, a proposta de definir “a origem” da canção urbana apresentada pelo autor pode não ser realizável visto que as definições propostas sobre o que comporia a dita canção urbana se aplicam a diversos fenômenos musicais localizados em distintos pontos históricos e geográficos. A linguagem carregada, densa em digressões, embora contribua para diversas possibilidades, às vezes negligenciadas a respeito da constituição dos estilos musicais, não leva (talvez por não ser possível levar) a uma conclusão clara do qual seria de fato a origem da canção, deixando o leitor com uma coletânea de indícios.

Todavia, a riqueza de fontes aliada a abordagem sagaz e a perspectiva social e concreta, contribuem para fazer deste livro uma rica fonte para o entendimento do desenvolvimento social da música popular urbana ocidental, cumprindo, assim, parcialmente, objetivo proposto. O intenso trabalho de pesquisa contribui para iluminar os caminhos da canção através do desenvolvimento social e seus conflitos. O uso de cartas e textos teatrais como fonte servem para pintar quadros de momentos específicos das sociedades do passado em seu relacionamento com a música.

Sumário de As origens da Canção Urbana

  • Notas à presente edição
  • Introdução
  • 1. Cidade moderna, necessidades novas
  • 2. Todos querem ser iguais
  • 3. O tempo das “novas novidades”
  • 4. “Grandeza de Lisboa”, anonimato das massas
  • 5. A “boa aventura” do “viver do prazer”
  • 6. Cantiguinhas de uma “certa ralé”
  • 7. Quando os “ínfimos” cantam amores
  • 8. Da recitação ao canto solista
  • 9. Canto épico, romance amoroso
  • 10. Democratização do “cantar romance”
  • 11. Romances são cantos, versos são letras
  • 12. Canto popular e guitarra (que era viola)
  • 13. Música dos barbeiros e dos teatros
  • 14. “Verás como canto solo” (Gil Vicente)
  • 15. Cantar de solau: uma forma de cantar
  • 16. “As cantigas do deserto: “Adeus corte, adeus cidade”
  • 17. O tempo das “modas novas”
  • 18. As danças negras das ruas
  • 19. A sincopa negra nos salões
  • 20. Caldas Barbosa e a Viola de Lereno
  • 21. Modinha Brasileira: enfim, uma canção popular

Resenhista

Pedro Aune é graduado e mestre em Música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é Professor de música (contrabaixo) da Escola de Música Villa Lobos. Entre outros trabalhos, publicou Três áreas de trabalho do contrabaixista (1970-2000). ID LATTES:  http://cnpq.br/7896625717296232; ID ORCID: https://orcid.org/0009000162315812. E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

TINHORÃO, José Ramos. As origens da canção urbana. São Paulo: Editora 34, 2011. 224p. Resenha de: AUNE, Pedro. Cantando pelas cidades. Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/cantando-pelas-cidades-resenha-de-pedro-aune-em-villa-lobos-sobre-o-livro-as-origens-da-cancao-urbana-de-jose-ramos-tinhorao/>.

 


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024 | ISSN 2764-2666.

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José Ramos Tinhorão | Imagem: Vermelho

Resumo: As Origens da Canção Urbana, de José Ramos Tinhorão, explora a evolução da canção nos centros urbanos usando fontes diversificadas. Embora ofereça insights valiosos sobre influências sociais e econômicas na música, a obra de Tinhorão é criticada por sua linguagem densa e conclusões por vezes indeterminadas.

Palavras-chave: canção urbana; história da música; MPB.


O livro As Origens da Canção Urbana de José Ramos Tinhorão foi publicado originalmente em Lisboa no ano de 1997, sendo lançado no Brasil pela Editora 34 em 2011. A obra de caráter histórico e musicológico se apoia em fontes diversas como documentos oficiais, cartas e textos teatrais com o objetivo de apontar forças sociais e econômicas que tenham contribuído para a consolidação da canção como música característica dos centros urbanos.

José Ramos Tinhorão (1928-2021) foi jornalista, crítico, colecionador e pesquisador da música popular brasileira, tendo colaborado com veículos como o Jornal do Brasil, Rede Globo, Veja e Pasquim. Ficou conhecido por posições polêmicas em geral baseadas na denúncia da influência estrangeira sobre a música brasileira, tecendo diversas e duras críticas à Bossa Nova, à Música Popular Brasileira (MPB) e à música comercial em geral. Em sua obra, Tinhorão dedicou diversos trabalhos à história da música popular, adotando uma perspectiva social e crítica. O autor afirma a existência de uma lacuna no que diz respeito à gênese do que seria a canção urbana em geral que os 21 capítulos do livro buscam preencher.

Os capítulos iniciais buscam apontar as novas questões e demandas surgidas com o estabelecimento dos grandes centros urbanos de forma acentuada durante o período renascentista. Partindo do caso da Lisboa do século IV, o autor afirma que o aumento da demanda por serviços decorrente do crescimento populacional acelerado na metrópole colonial levou à acentuação da divisão e especialização do trabalho em diversos setores. A mesma lógica se aplicaria aos serviços ligados ao entretenimento, acarretando o estímulo a uma variedade de atividades ligadas à prática e ao ensino de artes. A demanda por modos de diversão, as “novas novidades”, adequadas ao ritmo de vida das cidades, contribuiriam para a consolidação de linguagens artísticas adaptadas ao ambiente urbano. Com isso, formas de música, teatro e poesia se estabelecem ocupando os teatros, salões e praças das cidades emergentes.

O autor evidencia, também, os conflitos entre classes que contribuem para dar forma às práticas artísticas. Por um lado, a aristocracia que historicamente deteve os recursos, a autoridade política, econômica e militar, e determinava as práticas sociais compreendidas como “refinadas”. Por outro, a burguesia com seu poder econômico ascendente que buscava afirmação, mimetizando as práticas da aristocracia. Assim, a burguesia procuraria afirmar sua posição através do consumo de bens associados à nobreza que por sua vez buscava distanciar-se desta, chegando a fazer uso de meios legais restringindo o acesso a esses bens. A música praticada nesses meios ressoava a busca por distinção. Em paralelo, as classes populares desenvolviam práticas próprias que embora mantivessem algum diálogo com os hábitos das elites, eram a representação daquilo do que buscavam se afastar.

Os capítulos centrais do livro descrevem percurso histórico da canção. Tinhorão distingue a canção urbana como poesia cantada por solista acompanhado por instrumentos em oposição à música rural cantada em coro ou em verso e refrão. Tinhorão discute as possíveis origens históricas do termo cantar solo, atribuindo ao latim solatium ou consolo, chamando também a atenção para os registros de um “cantar de solau” que, embora evoque alguma discussão, é apontado pelo autor como cantar sem acompanhamento.

O autor defende que a canção urbana se relaciona com os cantos épicos da antiguidade, onde a música se unia à linguagem falada na narração de fatos e mitos. Mais tarde, a canção se prestaria à temática das conquistas militares e de feitos heroicos para posteriormente incorporar a temática do amor romântico. Bardos, menestréis, escudeiros, cegos, barbeiros e mendigos teriam carregado a tradição da canção que narrava batalhas, acontecimentos, casos de amor ou galhofas.

No último terço do livro, Tinhorão debate a influência de modismos estrangeiros na já consolidada sociedade urbana da Lisboa do século XVIII. As novas modas predominantemente oriundas da França exercem influência nos hábitos das elites, bem como das camadas mais populares. Modismos oriundos das colônias vem também a impactar o dia a dia da metrópole carregando os frutos do caldeirão cultural e racial que se via nas colônias. Danças e músicas resultantes da fusão de elementos culturais dos diversos povos que, por caminhos distintos e por vezes sangrentos, se encontravam nas colônias viravam moda na metrópole. A modinha brasileira com suas letras é citada como exemplo de protótipo de canção urbana moderna, apesar da associação desta com a música erudita, fruto da existência maior do registro em partitura das modinhas “elitizadas” em comparação com sua versão popular original. As sincopes características das músicas africanas marca as novas canções que animam o lazer das camadas populares e gradualmente passam a ecoar nos salões das elites financeiras.

Embora traga análises coerentes e perspectivas válidas, a proposta de definir “a origem” da canção urbana apresentada pelo autor pode não ser realizável visto que as definições propostas sobre o que comporia a dita canção urbana se aplicam a diversos fenômenos musicais localizados em distintos pontos históricos e geográficos. A linguagem carregada, densa em digressões, embora contribua para diversas possibilidades, às vezes negligenciadas a respeito da constituição dos estilos musicais, não leva (talvez por não ser possível levar) a uma conclusão clara do qual seria de fato a origem da canção, deixando o leitor com uma coletânea de indícios.

Todavia, a riqueza de fontes aliada a abordagem sagaz e a perspectiva social e concreta, contribuem para fazer deste livro uma rica fonte para o entendimento do desenvolvimento social da música popular urbana ocidental, cumprindo, assim, parcialmente, objetivo proposto. O intenso trabalho de pesquisa contribui para iluminar os caminhos da canção através do desenvolvimento social e seus conflitos. O uso de cartas e textos teatrais como fonte servem para pintar quadros de momentos específicos das sociedades do passado em seu relacionamento com a música.

Sumário de As origens da Canção Urbana

  • Notas à presente edição
  • Introdução
  • 1. Cidade moderna, necessidades novas
  • 2. Todos querem ser iguais
  • 3. O tempo das “novas novidades”
  • 4. “Grandeza de Lisboa”, anonimato das massas
  • 5. A “boa aventura” do “viver do prazer”
  • 6. Cantiguinhas de uma “certa ralé”
  • 7. Quando os “ínfimos” cantam amores
  • 8. Da recitação ao canto solista
  • 9. Canto épico, romance amoroso
  • 10. Democratização do “cantar romance”
  • 11. Romances são cantos, versos são letras
  • 12. Canto popular e guitarra (que era viola)
  • 13. Música dos barbeiros e dos teatros
  • 14. “Verás como canto solo” (Gil Vicente)
  • 15. Cantar de solau: uma forma de cantar
  • 16. “As cantigas do deserto: “Adeus corte, adeus cidade”
  • 17. O tempo das “modas novas”
  • 18. As danças negras das ruas
  • 19. A sincopa negra nos salões
  • 20. Caldas Barbosa e a Viola de Lereno
  • 21. Modinha Brasileira: enfim, uma canção popular

Resenhista

Pedro Aune é graduado e mestre em Música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente é Professor de música (contrabaixo) da Escola de Música Villa Lobos. Entre outros trabalhos, publicou Três áreas de trabalho do contrabaixista (1970-2000). ID LATTES:  http://cnpq.br/7896625717296232; ID ORCID: https://orcid.org/0009000162315812. E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

TINHORÃO, José Ramos. As origens da canção urbana. São Paulo: Editora 34, 2011. 224p. Resenha de: AUNE, Pedro. Cantando pelas cidades. Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/cantando-pelas-cidades-resenha-de-pedro-aune-em-villa-lobos-sobre-o-livro-as-origens-da-cancao-urbana-de-jose-ramos-tinhorao/>.

 


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024 | ISSN 2764-2666.

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