Empoderada — Resenha de Diogeano Marcelo de Lima (FP), sobre o livro “Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império”, de Rosa Symanski

Rosa Symanski | Imagem: Ricardo Migliorini/CMO

Resumo: “Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império”, de Rosa Symanski, busca ilustrar a vida de Maria Quitéria como mulher e guerreira. A obra mistura narrativa ficcional com fatos históricos, mas enfrenta críticas pela falta de clareza entre ficção e realidade e a escassez de detalhes pós-independência.

Palavras-chave: Maria Quitéria, Biografia, Mulher.


Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império é o livro que descreve a vida de uma das construtoras do Brasil. Escrita por Rosa Symanski, em 2021, e publicada pela Poligrafia Editora, a obra apresenta o seguinte questionamento: Quem foi Maria Quitéria como mulher e como guerreira? O prefácio, assinado por Gabriella Esmeralda Aquino Silva, formada em Filosofia e descendente de Maria Quitéria, descreve o livro como “uma jornada bela e doce” (Pág. 2) para o conhecimento íntimo da biografia de Maria Quitéria, que deve interessar a todos os envolvidos pela luta feminista, os historiadores e leitores de ficção.

Rosa Symanski, jornalista especializada em economia e finanças com mais de 25 anos de carreira, trabalhou em veículos como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Agência Estado. Desde 2017, realiza palestras em São Paulo sobre o impacto das Fake News. A autora pesquisa extensivamente sobre grandes personagens do país, como demonstrado neste romance histórico. O livro é organizado em 14 capítulos, além de prefácio, epílogo e referências bibliográficas, distribuídos ao longo de 215 páginas. A estratégia narrativa inclui a revisão bibliográfica sobre as ações de Maria Quitéria. Inclui também entrevistas com profissionais da História, Arqueologia, Antropologia, Filosofia, Música e Literatura.

Nos dois primeiros capítulos, a autora apresenta a adolescência de Maria Quitéria na Fazenda de seu pai, no Recôncavo Baiano. Ambientado em 1820, o capítulo retrata a relação de Maria Quitéria com sua amiga Maria de Lurdes e seus conflitos com a madrasta, Maria Rosa, que lhe cobrava uma postura mais feminina. Mostra, ainda, o conturbado relacionamento de Maria Quitéria com sua madrasta, Maria Rosa, incomodada com a independência de Maria Quitéria e seu desinteresse pelos afazeres domésticos. Quitéria preferia passar seu tempo caçando e cavalgando, o que lhe deu prática no manejo de armas de fogo. A autora também destaca a beleza de Maria Quitéria e o seu temperamento selvagem.

No terceiro capítulo, a autora faz a transição da fase adolescente para a adulta, na qual Maria Quitéria se tornou mais atraente, despertando a atenção de Antônio, seu primeiro amor. Descreve os primeiros relacionamentos amorosos de Maria Quitéria, julgados fora dos padrões da época. Na sequência (quarto capítulo), retrata o retorno do primeiro amor de Maria Quitéria a Coimbra, para terminar os estudos em Direito, após três meses de romance. O capítulo mostra, com detalhes, o trajeto de despedida do casal.

No quinto capítulo, a autora narra o cotidiano da protagonista na vida da fazenda, a caça, a montaria de cavalo e o pastoreio do gado, junto com sua amiga Maria de Lourdes e a saudade de seu amor Antônio. A autora ainda relata a preocupação de Maria de Lourdes com o fato de Maria Quitéria não ser mais virgem, destacando que, naquela época, uma moça perder a virgindade antes do casamento trazia duras consequências para as mulheres.

No capítulo seguinte (o sexto), a autora introduz um importante personagem para a formação cultural e religiosa de Maria Quitéria. Tratava-se de um escravo muito requisitado na região devido aos seus dons curativas e à prática do Vodum, crença cultuada na sua cidade de origem, Daomé, África. Essas práticas e o assentimento de seus adeptos eram reprovadas por Maria Rosa.

No sétimo capítulo, a autora narra o crescente apego de Maria Quitéria por seu amante. Enquanto Antônio não retornava para os braços de Maria Quitéria, ela foi cortejada por Luís, filho de um lavrador da região, durante as missas nos finais de semana. Luís encontrou em Gonçalo, pai da jovem, o incentivo para que resultasse no casamento dos dois. Entretanto, preferia deixar a filha a decisão de namorar o rapaz, uma vez que não compartilhava do pensamento predominante da época, de as filhas casarem com alguém indicado pelo pai, como forma de aumentar as posses. Maria Quitéria, porém, não chegou a assumir compromisso com o jovem Luís, pois ainda nutria a esperança de vê-lo novamente, apesar de ele estar prometido a uma noiva de Salvador.

No oitavo capítulo, a autora narra a espera de Maria Quitéria pelo seu amor, Antônio de Coimbra, enquanto resiste às tentativas de seu pai, Gonçalo, de apresentá-la a outros pretendentes. Também descreve o desencontro amoroso entre Antônio e Maria Quitéria, pois este, ao retornar de Coimbra, estava destinado, pelo tio, a ser marido de Camila, uma moça fina e educada de grandes posses.

No nono capítulo, nos é contado o casamento entre Antônio e Camila. Apesar de toda a pompa do casamento aristocrático, Antônio estava inconformado com o casamento imposto, pois Maria Quitéria ainda morava em seus pensamentos. Durante a festa de casamento, o pai da noiva discute o seu descontentamento com a Revolução do Porto, que reivindicava o retorno da corte para Portugal. Nuno, por outro lado, afirma a sua lealdade à Coroa, declarando não encontrar qualquer absurdo a exigência dos revolucionários.

O décimo capítulo trata da desilusão amorosa de Maria Quitéria com Antônio. Foi após a desilusão e a visita de Tadeu, soldado enviado pela junta militar para recrutar combatentes para a guerra contra os lusos, que Maria Quitéria começou a se interessar pelo alistamento militar. Diante da negativa de Gonçalo em contribuir no esforço de guerra, Maria Quitéria sentiu o desejo de lutar contra a exploração portuguesa no Brasil. Nossa personagem se viu atraída pela causa não apenas por admiração a Dom Pedro I, mas também à sua esposa, Maria Antonieta, que estava envolvida diretamente com a independência do Brasil. Com a ajuda da irmã Teresa, Maria Quitéria conseguiu se alistar no exército disfarçada de homem.

No capítulo 11, após realizar um resumo dos acontecimentos que desencadearam a guerra contra os lusos, a autora descreve a primeira missão de Maria Quitéria como soldado. Ela foi deslocada para realizar a defesa da Ilha da Maré, um ponto estratégico para o abastecimento de víveres. Também é narrado um dos conflitos mais notáveis ocorridos na guerra pela Independência, nos arredores de Salvador — BA, que contou com a corajosa participação de Maria Quitéria na defesa do Brasil.

Nos capítulos 12 e 13, a autora narra o relacionamento assumido por Maria Quitéria e Antônio, durante o período em que serviram ao exército. Ela frisa a alforria dos escravos que lutaram a favor de Dom Pedro I para a consolidação da independência do Brasil, destacando a libertação do escravo Joaquim, aquele que servia de curandeiro na fazenda de Gonçalo.

No capítulo 14, é detalhada a composição das forças de Dom Pedro I. Maria Quitéria estava arregimentada ao batalhão de voluntários, junto a Antônio e outras 150 mulheres arregimentadas no exército de Dom Pedro I. O referido capítulo é marcado pela morte de Antônio, o amor de Maria Quitéria e de Camila. No epílogo, por fim, é descrita a coroação de Maria Quitéria com os louros confeccionados pelas freiras do Convento da Soledade, em retribuição ao desempenho e à bravura nas batalhas decisivas.

Apesar do investimento na pesquisa e na escrita, a obra apresenta algumas inconsistências. As acontecimentos carecem de referências às fontes, às quais são bastante escassas e se limitam a alguns eventos do movimento de independência do Brasil.

Para o leitor que quer fazer uso do livro como testemunho da história, não é possível separar o ficcional e o testemunhal na história de Maria Quitéria. Essa dificuldade encontramos, especialmente, na reprodução de diálogos entre os personagens.

Detalhe do retrato de Maria Quitéria de Jesus Medeiros | Pintura de Domenico Failutti (1920)/Wikipédia

Outros pontos negativos da obra são, por exemplo: a ausência da descrição do que aconteceu com Maria Quitéria após a independência do Brasil, dos impactos que a participação das mulheres na guerra gerou na sociedade da época. Pelo livro, não sabemos se foi possível, ao menos para Maria Quitéria, ter um destino diferente das moças da época, que eram, tradicionalmente, destinadas ao casamento, a maternidade e aos afazeres domésticos.

Como pontos positivos, destacamos que a autora consegue mostrar a mulher Maria Quitéria, sem explícitos prejulgamentos, como também contar um pouco da história do Brasil, por meio da trajetória de uma pessoa. Ela narra acontecimentos da Guerra pela Independência do Brasil, na qual contribuíram centenas de mulheres, boa parte delas relegadas ao anonimato da história, mas representadas na personagem de Maria Quitéria.

Além disso, trata-se se uma narração intimista, aproximando o leitor da personagem, fugindo da mera narração de fatos históricos valorizados por si mesmos. Essa atitude possibilita ao leitor a compreensão sobre os pontos chaves que formaram a mentalidade da mulher que não aceitava a imposição das regras limitantes sobre participação da mulher em sociedade e era, ao mesmo tempo, doce e carinhosa, com o seu pai e com o amado Antônio.

Em resumo, a autora obtém êxito em nos apresentar uma história leve e inspiradora de uma mulher que quebrou paradigmas, conquistando o reconhecimento do próprio imperador Dom Pedro I e de toda a corte real. Por essa razão, a autora cumpre integralmente o objetivo explicitado no livro, ao mostrar Maria Quitéria da forma mais simples e humana possível.

Sumário de Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império

  • Prefácio
  • A caçadora
  • A madrasta
  • Maria Quitéria… mulher!
  • De volta a Coimbra
  • Maria Quitéria na labuta
  • O escravo Joaquim
  • A volta de Antônio
  • Lucas da Feira
  • O casamento
  • Maria Quitéria Guerreira
  • Salvador, cidade sitiada
  • Romance no quartel
  • Portugueses marotos na mira
  • A Batalha da Foz do Paraguaçu
  • Epílogo
  • Homenagens e mais homenagens
  • Referências bibliográficas

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Diogeano Marcelo de Lima é especialista em Direito (UFCG), Direito Processual Civil (LFG) e Direito Médico  (FCERS), advogado militante na área previdenciária e professor da Faculdade Pitágoras.  Entre outros trabalhos, publicou: A evolução histórica do direito fundamental a propriedade nas constituições brasileiras frente à limitação de sua função social e Do fornecimento de medicamentos off-label via Poder Judiciário à luz da Bioética Principialista. Redes sociais: @prof. Diogeano Marcelo; ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/3136883553927889; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8880-8394 ; E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

SYAMANSKI, Rosa. Maria Quitéria, a soldada que conquistou o Império. Cotia. Poligrafia Editora, 2021. 215p.  Resenha de: LIMA, Diogeano Marcelo de.  Empoderada. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.14, nov./dez., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/empoderada-resenha-de-diogeano-marcelo-de-lima-fp-sobre-o-livro-maria-quiteria-a-soldada-que-conquistou-o-imperio-de-rosa-symanski/>.


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 14, nov./dez., 2023 | ISSN 2764-2666

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Empoderada — Resenha de Diogeano Marcelo de Lima (FP), sobre o livro “Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império”, de Rosa Symanski

Rosa Symanski | Imagem: Ricardo Migliorini/CMO

Resumo: “Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império”, de Rosa Symanski, busca ilustrar a vida de Maria Quitéria como mulher e guerreira. A obra mistura narrativa ficcional com fatos históricos, mas enfrenta críticas pela falta de clareza entre ficção e realidade e a escassez de detalhes pós-independência.

Palavras-chave: Maria Quitéria, Biografia, Mulher.


Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império é o livro que descreve a vida de uma das construtoras do Brasil. Escrita por Rosa Symanski, em 2021, e publicada pela Poligrafia Editora, a obra apresenta o seguinte questionamento: Quem foi Maria Quitéria como mulher e como guerreira? O prefácio, assinado por Gabriella Esmeralda Aquino Silva, formada em Filosofia e descendente de Maria Quitéria, descreve o livro como “uma jornada bela e doce” (Pág. 2) para o conhecimento íntimo da biografia de Maria Quitéria, que deve interessar a todos os envolvidos pela luta feminista, os historiadores e leitores de ficção.

Rosa Symanski, jornalista especializada em economia e finanças com mais de 25 anos de carreira, trabalhou em veículos como Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Agência Estado. Desde 2017, realiza palestras em São Paulo sobre o impacto das Fake News. A autora pesquisa extensivamente sobre grandes personagens do país, como demonstrado neste romance histórico. O livro é organizado em 14 capítulos, além de prefácio, epílogo e referências bibliográficas, distribuídos ao longo de 215 páginas. A estratégia narrativa inclui a revisão bibliográfica sobre as ações de Maria Quitéria. Inclui também entrevistas com profissionais da História, Arqueologia, Antropologia, Filosofia, Música e Literatura.

Nos dois primeiros capítulos, a autora apresenta a adolescência de Maria Quitéria na Fazenda de seu pai, no Recôncavo Baiano. Ambientado em 1820, o capítulo retrata a relação de Maria Quitéria com sua amiga Maria de Lurdes e seus conflitos com a madrasta, Maria Rosa, que lhe cobrava uma postura mais feminina. Mostra, ainda, o conturbado relacionamento de Maria Quitéria com sua madrasta, Maria Rosa, incomodada com a independência de Maria Quitéria e seu desinteresse pelos afazeres domésticos. Quitéria preferia passar seu tempo caçando e cavalgando, o que lhe deu prática no manejo de armas de fogo. A autora também destaca a beleza de Maria Quitéria e o seu temperamento selvagem.

No terceiro capítulo, a autora faz a transição da fase adolescente para a adulta, na qual Maria Quitéria se tornou mais atraente, despertando a atenção de Antônio, seu primeiro amor. Descreve os primeiros relacionamentos amorosos de Maria Quitéria, julgados fora dos padrões da época. Na sequência (quarto capítulo), retrata o retorno do primeiro amor de Maria Quitéria a Coimbra, para terminar os estudos em Direito, após três meses de romance. O capítulo mostra, com detalhes, o trajeto de despedida do casal.

No quinto capítulo, a autora narra o cotidiano da protagonista na vida da fazenda, a caça, a montaria de cavalo e o pastoreio do gado, junto com sua amiga Maria de Lourdes e a saudade de seu amor Antônio. A autora ainda relata a preocupação de Maria de Lourdes com o fato de Maria Quitéria não ser mais virgem, destacando que, naquela época, uma moça perder a virgindade antes do casamento trazia duras consequências para as mulheres.

No capítulo seguinte (o sexto), a autora introduz um importante personagem para a formação cultural e religiosa de Maria Quitéria. Tratava-se de um escravo muito requisitado na região devido aos seus dons curativas e à prática do Vodum, crença cultuada na sua cidade de origem, Daomé, África. Essas práticas e o assentimento de seus adeptos eram reprovadas por Maria Rosa.

No sétimo capítulo, a autora narra o crescente apego de Maria Quitéria por seu amante. Enquanto Antônio não retornava para os braços de Maria Quitéria, ela foi cortejada por Luís, filho de um lavrador da região, durante as missas nos finais de semana. Luís encontrou em Gonçalo, pai da jovem, o incentivo para que resultasse no casamento dos dois. Entretanto, preferia deixar a filha a decisão de namorar o rapaz, uma vez que não compartilhava do pensamento predominante da época, de as filhas casarem com alguém indicado pelo pai, como forma de aumentar as posses. Maria Quitéria, porém, não chegou a assumir compromisso com o jovem Luís, pois ainda nutria a esperança de vê-lo novamente, apesar de ele estar prometido a uma noiva de Salvador.

No oitavo capítulo, a autora narra a espera de Maria Quitéria pelo seu amor, Antônio de Coimbra, enquanto resiste às tentativas de seu pai, Gonçalo, de apresentá-la a outros pretendentes. Também descreve o desencontro amoroso entre Antônio e Maria Quitéria, pois este, ao retornar de Coimbra, estava destinado, pelo tio, a ser marido de Camila, uma moça fina e educada de grandes posses.

No nono capítulo, nos é contado o casamento entre Antônio e Camila. Apesar de toda a pompa do casamento aristocrático, Antônio estava inconformado com o casamento imposto, pois Maria Quitéria ainda morava em seus pensamentos. Durante a festa de casamento, o pai da noiva discute o seu descontentamento com a Revolução do Porto, que reivindicava o retorno da corte para Portugal. Nuno, por outro lado, afirma a sua lealdade à Coroa, declarando não encontrar qualquer absurdo a exigência dos revolucionários.

O décimo capítulo trata da desilusão amorosa de Maria Quitéria com Antônio. Foi após a desilusão e a visita de Tadeu, soldado enviado pela junta militar para recrutar combatentes para a guerra contra os lusos, que Maria Quitéria começou a se interessar pelo alistamento militar. Diante da negativa de Gonçalo em contribuir no esforço de guerra, Maria Quitéria sentiu o desejo de lutar contra a exploração portuguesa no Brasil. Nossa personagem se viu atraída pela causa não apenas por admiração a Dom Pedro I, mas também à sua esposa, Maria Antonieta, que estava envolvida diretamente com a independência do Brasil. Com a ajuda da irmã Teresa, Maria Quitéria conseguiu se alistar no exército disfarçada de homem.

No capítulo 11, após realizar um resumo dos acontecimentos que desencadearam a guerra contra os lusos, a autora descreve a primeira missão de Maria Quitéria como soldado. Ela foi deslocada para realizar a defesa da Ilha da Maré, um ponto estratégico para o abastecimento de víveres. Também é narrado um dos conflitos mais notáveis ocorridos na guerra pela Independência, nos arredores de Salvador — BA, que contou com a corajosa participação de Maria Quitéria na defesa do Brasil.

Nos capítulos 12 e 13, a autora narra o relacionamento assumido por Maria Quitéria e Antônio, durante o período em que serviram ao exército. Ela frisa a alforria dos escravos que lutaram a favor de Dom Pedro I para a consolidação da independência do Brasil, destacando a libertação do escravo Joaquim, aquele que servia de curandeiro na fazenda de Gonçalo.

No capítulo 14, é detalhada a composição das forças de Dom Pedro I. Maria Quitéria estava arregimentada ao batalhão de voluntários, junto a Antônio e outras 150 mulheres arregimentadas no exército de Dom Pedro I. O referido capítulo é marcado pela morte de Antônio, o amor de Maria Quitéria e de Camila. No epílogo, por fim, é descrita a coroação de Maria Quitéria com os louros confeccionados pelas freiras do Convento da Soledade, em retribuição ao desempenho e à bravura nas batalhas decisivas.

Apesar do investimento na pesquisa e na escrita, a obra apresenta algumas inconsistências. As acontecimentos carecem de referências às fontes, às quais são bastante escassas e se limitam a alguns eventos do movimento de independência do Brasil.

Para o leitor que quer fazer uso do livro como testemunho da história, não é possível separar o ficcional e o testemunhal na história de Maria Quitéria. Essa dificuldade encontramos, especialmente, na reprodução de diálogos entre os personagens.

Detalhe do retrato de Maria Quitéria de Jesus Medeiros | Pintura de Domenico Failutti (1920)/Wikipédia

Outros pontos negativos da obra são, por exemplo: a ausência da descrição do que aconteceu com Maria Quitéria após a independência do Brasil, dos impactos que a participação das mulheres na guerra gerou na sociedade da época. Pelo livro, não sabemos se foi possível, ao menos para Maria Quitéria, ter um destino diferente das moças da época, que eram, tradicionalmente, destinadas ao casamento, a maternidade e aos afazeres domésticos.

Como pontos positivos, destacamos que a autora consegue mostrar a mulher Maria Quitéria, sem explícitos prejulgamentos, como também contar um pouco da história do Brasil, por meio da trajetória de uma pessoa. Ela narra acontecimentos da Guerra pela Independência do Brasil, na qual contribuíram centenas de mulheres, boa parte delas relegadas ao anonimato da história, mas representadas na personagem de Maria Quitéria.

Além disso, trata-se se uma narração intimista, aproximando o leitor da personagem, fugindo da mera narração de fatos históricos valorizados por si mesmos. Essa atitude possibilita ao leitor a compreensão sobre os pontos chaves que formaram a mentalidade da mulher que não aceitava a imposição das regras limitantes sobre participação da mulher em sociedade e era, ao mesmo tempo, doce e carinhosa, com o seu pai e com o amado Antônio.

Em resumo, a autora obtém êxito em nos apresentar uma história leve e inspiradora de uma mulher que quebrou paradigmas, conquistando o reconhecimento do próprio imperador Dom Pedro I e de toda a corte real. Por essa razão, a autora cumpre integralmente o objetivo explicitado no livro, ao mostrar Maria Quitéria da forma mais simples e humana possível.

Sumário de Maria Quitéria: A Soldada que Conquistou o Império

  • Prefácio
  • A caçadora
  • A madrasta
  • Maria Quitéria… mulher!
  • De volta a Coimbra
  • Maria Quitéria na labuta
  • O escravo Joaquim
  • A volta de Antônio
  • Lucas da Feira
  • O casamento
  • Maria Quitéria Guerreira
  • Salvador, cidade sitiada
  • Romance no quartel
  • Portugueses marotos na mira
  • A Batalha da Foz do Paraguaçu
  • Epílogo
  • Homenagens e mais homenagens
  • Referências bibliográficas

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Diogeano Marcelo de Lima é especialista em Direito (UFCG), Direito Processual Civil (LFG) e Direito Médico  (FCERS), advogado militante na área previdenciária e professor da Faculdade Pitágoras.  Entre outros trabalhos, publicou: A evolução histórica do direito fundamental a propriedade nas constituições brasileiras frente à limitação de sua função social e Do fornecimento de medicamentos off-label via Poder Judiciário à luz da Bioética Principialista. Redes sociais: @prof. Diogeano Marcelo; ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/3136883553927889; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8880-8394 ; E-mail: [email protected]


Para citar esta resenha

SYAMANSKI, Rosa. Maria Quitéria, a soldada que conquistou o Império. Cotia. Poligrafia Editora, 2021. 215p.  Resenha de: LIMA, Diogeano Marcelo de.  Empoderada. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.14, nov./dez., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/empoderada-resenha-de-diogeano-marcelo-de-lima-fp-sobre-o-livro-maria-quiteria-a-soldada-que-conquistou-o-imperio-de-rosa-symanski/>.


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 14, nov./dez., 2023 | ISSN 2764-2666

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