Erudição sertaneja – Resenha de Marcelo Santos Nascimento (UFS) e Raul Soares Bomfim (UFS), sobre o livro “Educação no sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950 – 1970)” organizado por Cacia Valeria de Rezende

Cácia Valeria de Rezende | Imagem: Imprensa Oficial de Sergipe

Resumo: Educação no sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950 – 1970), é o livro de Cácia Valeria de Rezende que aborda a trajetória de professoras que atuam no semiárido do estado de Sergipe, pondo ênfase nos projetos e práticas pedagógicas de combate ao analfabetismo entre crianças, jovens e adultos.

Palavras-chave: Professoras, Alfabetização, Sertão.


O livro “Educação no sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950 – 1970)”, de autoria de Cácia Valeria de Rezende, publicado em 2017 pela Editora Diário Oficial do Estado de Sergipe (EDISE), é uma pesquisa de mestrado que tem como objetivo desvelar a trajetória de vida de mulheres sertanejas que se tornaram professoras e que deram ao sertão o seu bem mais precioso: a educação. A obra analisa a trajetória de 21 educadoras do semiárido sergipano em um recorte temporal que abrange o período de 1950 a 1970, época marcada pela presença do cangaceiro Lampião e pelas grandes secas na região.

A autora Cacia Valéria de Rezende é natural de Nossa Senhora da Glória. É graduada em Pedagogia e História pela Unit, além de pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade São Luís de França. É também mestre em Educação pela Unit e membro da Academia Gloriense de Letras e se especializa em Educação Empreendedora pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Na construção desse livro, estruturado em XX capítulos, a autora utilizou a história social e cultural inglesa para compreender os costumes, mentalidades, valores e tradições atribuídas à escola do sertão como também a história oral para tecer parte da memória social de representações escolares.

O capítulo um faz breve contextualização dos aspectos culturais, econômicos e históricos do nordeste com o objetivo de levar o leitor a compreender os processos políticos na ruralização do ensino, na qual tinha por finalidade a construção do nacionalismo e de uma sociedade “civilizada”, onde era necessário ser alfabetizado, mas que ia além: em Sergipe tentava-se barrar o êxodo rural e o “parasitismo” nos grandes aglomerados. No entanto, as políticas públicas adotadas nem sempre foram eficientes em atender as demandas da população, pois apresentavam problemas desde a estrutura física dessas escolas até questões relacionadas à formação dos professores que atuariam na alfabetização da sociedade, sem esquecer do fiasco do movimento brasileiro de alfabetização de jovens e adultos (MOBRAL), que produziu a figura do semianalfabeto.

O capítulo em tela apresenta uma linguagem clara, de fácil compreensão, facilitando o leitor a compreender o surgimento e expansão da educação no Nordeste e no Brasil por meio de uma sequência de cronológica apresentando documentos e declarações da época o que possibilita melhor compreensão dos fatos ocorridos. Porem, o texto tem um direcionamento maior ao surgimento do MOBRAL e a educação de jovens e adultos e aos resultados negativos do movimento de alfabetização desse público. Assim, sobre alfabetização de crianças, o texto não esclarece sobre o fracasso da alfabetização deste grupo.

O capítulo dois tem por objetivo revelar as tradições, os costumes e valores do homem rural, bem como desenrolar o novelo de memórias, lembranças e histórias de sertanejos que moravam no alto sertão sergipano. A partir dessas vivências, busca-se recordar a situação da educação escolar na região. Para a autora, a educação no alto sertão era baseada em valores emancipatórios transmitidos por meio dos ensinamentos das famílias, da igreja e das regras da comunidade, ou seja, uma educação informal que visava transmitir os valores, as tradições e os costumes daquela época. Entre alguns desses ensinamentos, o trabalho tinha centralidade na vida social, de modo que muitas crianças pobres eram obrigadas a ir para a roça a fim de produzir e reproduzir alimentos, o que as levava a abandonar os estudos. Uma das primeiras formas de ensinamento era feita por meio da oralidade, ensinando as crianças a terem dignidade e credibilidade por meio das relações de troca.

Outro ponto abordado no mesmo capítulo é o processo migratório causado pelos problemas das secas e pela escassez de alimentos, levando os jovens a abandonar a escola em busca de sobrevivência. Em meados do século XIX, a educação no sertão sergipano começou a ser disponibilizada por professoras ambulantes, que ensinavam os filhos dos fazendeiros a ler, escrever e realizar operações básicas de matemática. Os fazendeiros e pequenos agricultores contratavam as professoras sertanejas que sabiam ler, escrever e contar, atendendo assim as populações mais vulneráveis. É relevante mencionar que a presença dessas professoras se deu devido à insuficiência de escolas na zona rural do Estado de Sergipe.

A autora explora questões relevantes, como o papel da mulher no processo formativo no sertão, faz uso de dados estatísticos sobre a quantidade de escolas e legislações, além dos relatos e vivências de moradores para enaltecer o processo de ensino no sertão sergipano. Também traz os índices de mortalidade infantil e as causas das dificuldades de aprendizagem, o êxodo rural como escolha de qualidade de vida e o papel do Estado na gestão e organização do espaço escolar. No entanto, a autora deixou de abordar de forma clara e precisa temas pertinentes que atravessam a formação sócio-histórica brasileira, tais como o trabalho infantil como consequência da evasão escolar, o patriarcado e o coronelismo como relação de poder. Faltou também criticar o Estado na gestão de políticas sociais, como a educação, e destacar a incidência de ideais repetidos. Um exemplo disso é quando a autora aborda como as escolas foram constituídas enquanto unidades escolares.

O capítulo três narra o avanço da educação escolar no interior sergipano, noticiando os interesses de políticos locais que interferiam na aplicação de recursos do fundo nacional de ensino primário, caracterizando um grande desperdício da ajuda federal. Construíram-se um maior número de escolas rurais, o que resultou em um grande número de cargos de professores primários disputados e negociados pelos políticos locais e ocupados em sua maioria por professores leigos, chegando a haver negociações com líderes políticos locais.

Uma dos problemas dessa política foi a baixa remuneração salarial, de modo que poucos professores diplomados com magistério se dispunham a exercer a profissão, e ao longo das décadas houve um corte brusco e desmotivador nos valores recebidos pelos professores. Em decorrência disso, no estado de Sergipe, as moças sergipanas da classe média voltaram a ter suas aspirações em cargos federais e autárquicos, e assim, a classe pobre teve a oportunidade de fazer o magistério, já que as vagas preenchidas pela classe média estavam ociosas.

Por questões salariais, os homens tinham repulsa em se formar como professor, o que favoreceu a inserção das mulheres no mercado de trabalho educacional, mostrando o processo de feminização da educação, fenômeno esse que foi reflexo em todo o Brasil.

A feminização do magistério. Rosario Genta Lugli | Imagem: Univesp

O número de professores que preenchiam as vagas nas escolas era baixo, e mulheres sem formação passaram a lecionar, o que causou deficiência no ensino dos alunos. Essa substituição de professores ocorreu devido aos baixos salários pagos às professoras diplomadas. A evasão, a repetência de alunos em série e a escassez de professores capacitados foram vislumbrados no interior sergipano, sendo a população rural a mais afetada pelo processo de alfabetização. Essa situação mostra a irresponsabilidade do Estado no comprometimento do ensino da população majoritariamente excluída. Ali, no sertão sergipano, não havia grandes índices de aprovação devido à ineficácia da política educacional do Estado, uma vez que os professores eram escolhidos por lideranças políticas. Esses professores eram incapazes de exercer suas funções laborais pelo fato de não terem formação na área da pedagogia. Nessas intervenções do Estado, professores capacitados e diplomados ficavam fora desse processo, pois os mesmos não tinham um apadrinhamento político.

Outro questionamento trazido pela autora é em relação à distribuição das escolas, uma vez que os locais onde essas unidades escolares estariam inseridas eram espaços onde políticos ou apadrinhados tinham suas residências instaladas. Enquanto isso, as demandas sociais do sertão sergipano eram engolidas pelos interesses pessoais dos políticos. Por conta desses conflitos políticos, escolas eram removidas de alguns espaços devido à falta de profissionais, pois os professores eram deslocados para trabalhar em locais distantes, o que dificultava a ida e volta à escola.

O capítulo em questão utiliza autores e datas importantes para se compreender e criticar o papel do Estado na formulação de políticas educacionais de qualidade, demonstrando o comprometimento da autora em buscar fontes confiáveis. Há, contudo, uma carência de análise sobre o “voto de cabresto”, que muitas vezes era utilizado como forma de troca por trabalhos. Além disso, nota-se uma repetição de ideias, principalmente quando se aborda os conflitos políticos.

O livro Educação no sertão, como vemos, é uma investigação detalhada da história e educação da região Nordeste do Brasil, com um foco específico na educação no sertão durante breve período do século passado. De modo geral, a autora atingiu seus objetivos, empregando com eficácia as “memórias” das mulheres docentes. Ele induz o leitor a refletir sobre temas transversais que permeiam a educação escolar e deve ser lido e discutido por profissionais das áreas da Educação e das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.

Sumário de Educação no Sertão: Memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950-1970)

  • Introdução
  • 1. “Sol de Fogo”: O sertão do Nordeste, a política pública de ruralização da educação e as campanhas de alfabetização
  • 2. A constituição do campo educacional no alto sertão sergipano
  • 3. Fazer-se professora no alto sertão sergipano
  • Considerações finais: uma peça
  • Apêndice A
  • Apêndice B

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhistas

Marcelo Santos Nascimento (UFS) é  graduado em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), assistente social do Centro de Referência de Assistência Social- CRAS e membro integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa Marxistas -GEPEM/UFS. ID LATTES: https://lattes.cnpq.br/0176905173480944; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8322-5376; E-mail: [email protected].

Raul Soares Bomfim (UFS) é Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental de Sergipe. Atua nos temas de Educação Ambiental e animações nos processos de aprendizagem. ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/6940419234963530; ID ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6795-0937; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

REZENDE, Cacia Valeria de. Educação no Sertão: Memórias e Experiências das Professoras no Alto Sertão Sergipano (1950-1970). Aracaju: EDISE, 2017. Resenha de: Marcelo Santos Nascimento e Raul Soares Bomfim. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.12, jul./ago., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/erudicao-sertaneja-reflexiva-resenha-de-marcelo-santos-nascimento-e-raul-soares-bomfim-livro-educacao-no-sertao-memorias-e-experiencias-das-professoras-no-alto-sertao-sergipano-1950/>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 12, jul./ago., 2023 | ISSN 2764-2666

Pesquisa/Search

Alertas/Alerts

Erudição sertaneja – Resenha de Marcelo Santos Nascimento (UFS) e Raul Soares Bomfim (UFS), sobre o livro “Educação no sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950 – 1970)” organizado por Cacia Valeria de Rezende

Cácia Valeria de Rezende | Imagem: Imprensa Oficial de Sergipe

Resumo: Educação no sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950 – 1970), é o livro de Cácia Valeria de Rezende que aborda a trajetória de professoras que atuam no semiárido do estado de Sergipe, pondo ênfase nos projetos e práticas pedagógicas de combate ao analfabetismo entre crianças, jovens e adultos.

Palavras-chave: Professoras, Alfabetização, Sertão.


O livro “Educação no sertão: memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950 – 1970)”, de autoria de Cácia Valeria de Rezende, publicado em 2017 pela Editora Diário Oficial do Estado de Sergipe (EDISE), é uma pesquisa de mestrado que tem como objetivo desvelar a trajetória de vida de mulheres sertanejas que se tornaram professoras e que deram ao sertão o seu bem mais precioso: a educação. A obra analisa a trajetória de 21 educadoras do semiárido sergipano em um recorte temporal que abrange o período de 1950 a 1970, época marcada pela presença do cangaceiro Lampião e pelas grandes secas na região.

A autora Cacia Valéria de Rezende é natural de Nossa Senhora da Glória. É graduada em Pedagogia e História pela Unit, além de pós-graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade São Luís de França. É também mestre em Educação pela Unit e membro da Academia Gloriense de Letras e se especializa em Educação Empreendedora pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). Na construção desse livro, estruturado em XX capítulos, a autora utilizou a história social e cultural inglesa para compreender os costumes, mentalidades, valores e tradições atribuídas à escola do sertão como também a história oral para tecer parte da memória social de representações escolares.

O capítulo um faz breve contextualização dos aspectos culturais, econômicos e históricos do nordeste com o objetivo de levar o leitor a compreender os processos políticos na ruralização do ensino, na qual tinha por finalidade a construção do nacionalismo e de uma sociedade “civilizada”, onde era necessário ser alfabetizado, mas que ia além: em Sergipe tentava-se barrar o êxodo rural e o “parasitismo” nos grandes aglomerados. No entanto, as políticas públicas adotadas nem sempre foram eficientes em atender as demandas da população, pois apresentavam problemas desde a estrutura física dessas escolas até questões relacionadas à formação dos professores que atuariam na alfabetização da sociedade, sem esquecer do fiasco do movimento brasileiro de alfabetização de jovens e adultos (MOBRAL), que produziu a figura do semianalfabeto.

O capítulo em tela apresenta uma linguagem clara, de fácil compreensão, facilitando o leitor a compreender o surgimento e expansão da educação no Nordeste e no Brasil por meio de uma sequência de cronológica apresentando documentos e declarações da época o que possibilita melhor compreensão dos fatos ocorridos. Porem, o texto tem um direcionamento maior ao surgimento do MOBRAL e a educação de jovens e adultos e aos resultados negativos do movimento de alfabetização desse público. Assim, sobre alfabetização de crianças, o texto não esclarece sobre o fracasso da alfabetização deste grupo.

O capítulo dois tem por objetivo revelar as tradições, os costumes e valores do homem rural, bem como desenrolar o novelo de memórias, lembranças e histórias de sertanejos que moravam no alto sertão sergipano. A partir dessas vivências, busca-se recordar a situação da educação escolar na região. Para a autora, a educação no alto sertão era baseada em valores emancipatórios transmitidos por meio dos ensinamentos das famílias, da igreja e das regras da comunidade, ou seja, uma educação informal que visava transmitir os valores, as tradições e os costumes daquela época. Entre alguns desses ensinamentos, o trabalho tinha centralidade na vida social, de modo que muitas crianças pobres eram obrigadas a ir para a roça a fim de produzir e reproduzir alimentos, o que as levava a abandonar os estudos. Uma das primeiras formas de ensinamento era feita por meio da oralidade, ensinando as crianças a terem dignidade e credibilidade por meio das relações de troca.

Outro ponto abordado no mesmo capítulo é o processo migratório causado pelos problemas das secas e pela escassez de alimentos, levando os jovens a abandonar a escola em busca de sobrevivência. Em meados do século XIX, a educação no sertão sergipano começou a ser disponibilizada por professoras ambulantes, que ensinavam os filhos dos fazendeiros a ler, escrever e realizar operações básicas de matemática. Os fazendeiros e pequenos agricultores contratavam as professoras sertanejas que sabiam ler, escrever e contar, atendendo assim as populações mais vulneráveis. É relevante mencionar que a presença dessas professoras se deu devido à insuficiência de escolas na zona rural do Estado de Sergipe.

A autora explora questões relevantes, como o papel da mulher no processo formativo no sertão, faz uso de dados estatísticos sobre a quantidade de escolas e legislações, além dos relatos e vivências de moradores para enaltecer o processo de ensino no sertão sergipano. Também traz os índices de mortalidade infantil e as causas das dificuldades de aprendizagem, o êxodo rural como escolha de qualidade de vida e o papel do Estado na gestão e organização do espaço escolar. No entanto, a autora deixou de abordar de forma clara e precisa temas pertinentes que atravessam a formação sócio-histórica brasileira, tais como o trabalho infantil como consequência da evasão escolar, o patriarcado e o coronelismo como relação de poder. Faltou também criticar o Estado na gestão de políticas sociais, como a educação, e destacar a incidência de ideais repetidos. Um exemplo disso é quando a autora aborda como as escolas foram constituídas enquanto unidades escolares.

O capítulo três narra o avanço da educação escolar no interior sergipano, noticiando os interesses de políticos locais que interferiam na aplicação de recursos do fundo nacional de ensino primário, caracterizando um grande desperdício da ajuda federal. Construíram-se um maior número de escolas rurais, o que resultou em um grande número de cargos de professores primários disputados e negociados pelos políticos locais e ocupados em sua maioria por professores leigos, chegando a haver negociações com líderes políticos locais.

Uma dos problemas dessa política foi a baixa remuneração salarial, de modo que poucos professores diplomados com magistério se dispunham a exercer a profissão, e ao longo das décadas houve um corte brusco e desmotivador nos valores recebidos pelos professores. Em decorrência disso, no estado de Sergipe, as moças sergipanas da classe média voltaram a ter suas aspirações em cargos federais e autárquicos, e assim, a classe pobre teve a oportunidade de fazer o magistério, já que as vagas preenchidas pela classe média estavam ociosas.

Por questões salariais, os homens tinham repulsa em se formar como professor, o que favoreceu a inserção das mulheres no mercado de trabalho educacional, mostrando o processo de feminização da educação, fenômeno esse que foi reflexo em todo o Brasil.

A feminização do magistério. Rosario Genta Lugli | Imagem: Univesp

O número de professores que preenchiam as vagas nas escolas era baixo, e mulheres sem formação passaram a lecionar, o que causou deficiência no ensino dos alunos. Essa substituição de professores ocorreu devido aos baixos salários pagos às professoras diplomadas. A evasão, a repetência de alunos em série e a escassez de professores capacitados foram vislumbrados no interior sergipano, sendo a população rural a mais afetada pelo processo de alfabetização. Essa situação mostra a irresponsabilidade do Estado no comprometimento do ensino da população majoritariamente excluída. Ali, no sertão sergipano, não havia grandes índices de aprovação devido à ineficácia da política educacional do Estado, uma vez que os professores eram escolhidos por lideranças políticas. Esses professores eram incapazes de exercer suas funções laborais pelo fato de não terem formação na área da pedagogia. Nessas intervenções do Estado, professores capacitados e diplomados ficavam fora desse processo, pois os mesmos não tinham um apadrinhamento político.

Outro questionamento trazido pela autora é em relação à distribuição das escolas, uma vez que os locais onde essas unidades escolares estariam inseridas eram espaços onde políticos ou apadrinhados tinham suas residências instaladas. Enquanto isso, as demandas sociais do sertão sergipano eram engolidas pelos interesses pessoais dos políticos. Por conta desses conflitos políticos, escolas eram removidas de alguns espaços devido à falta de profissionais, pois os professores eram deslocados para trabalhar em locais distantes, o que dificultava a ida e volta à escola.

O capítulo em questão utiliza autores e datas importantes para se compreender e criticar o papel do Estado na formulação de políticas educacionais de qualidade, demonstrando o comprometimento da autora em buscar fontes confiáveis. Há, contudo, uma carência de análise sobre o “voto de cabresto”, que muitas vezes era utilizado como forma de troca por trabalhos. Além disso, nota-se uma repetição de ideias, principalmente quando se aborda os conflitos políticos.

O livro Educação no sertão, como vemos, é uma investigação detalhada da história e educação da região Nordeste do Brasil, com um foco específico na educação no sertão durante breve período do século passado. De modo geral, a autora atingiu seus objetivos, empregando com eficácia as “memórias” das mulheres docentes. Ele induz o leitor a refletir sobre temas transversais que permeiam a educação escolar e deve ser lido e discutido por profissionais das áreas da Educação e das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas.

Sumário de Educação no Sertão: Memórias e experiências das professoras no alto sertão sergipano (1950-1970)

  • Introdução
  • 1. “Sol de Fogo”: O sertão do Nordeste, a política pública de ruralização da educação e as campanhas de alfabetização
  • 2. A constituição do campo educacional no alto sertão sergipano
  • 3. Fazer-se professora no alto sertão sergipano
  • Considerações finais: uma peça
  • Apêndice A
  • Apêndice B

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhistas

Marcelo Santos Nascimento (UFS) é  graduado em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), assistente social do Centro de Referência de Assistência Social- CRAS e membro integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa Marxistas -GEPEM/UFS. ID LATTES: https://lattes.cnpq.br/0176905173480944; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8322-5376; E-mail: [email protected].

Raul Soares Bomfim (UFS) é Graduado em Pedagogia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Ambiental de Sergipe. Atua nos temas de Educação Ambiental e animações nos processos de aprendizagem. ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/6940419234963530; ID ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6795-0937; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

REZENDE, Cacia Valeria de. Educação no Sertão: Memórias e Experiências das Professoras no Alto Sertão Sergipano (1950-1970). Aracaju: EDISE, 2017. Resenha de: Marcelo Santos Nascimento e Raul Soares Bomfim. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.12, jul./ago., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/erudicao-sertaneja-reflexiva-resenha-de-marcelo-santos-nascimento-e-raul-soares-bomfim-livro-educacao-no-sertao-memorias-e-experiencias-das-professoras-no-alto-sertao-sergipano-1950/>


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 12, jul./ago., 2023 | ISSN 2764-2666

Resenhistas

Privacidade

Ao se inscrever nesta lista de e-mails, você estará sujeito à nossa política de privacidade.

Acesso livre

Crítica Historiográfica não cobra taxas para submissão, publicação ou uso dos artigos. Os leitores podem baixar, copiar, distribuir, imprimir os textos para fins não comerciais, desde que citem a fonte.

Foco e escopo

Publicamos resenhas de livros e de dossiês de artigos de revistas acadêmicas que tratem da reflexão, investigação, comunicação e/ou consumo da escrita da História. Saiba mais sobre o único periódico de História inteiramente dedicado à Crítica em formato resenha.

Corpo editorial

Somos professore(a)s do ensino superior brasileiro, especializado(a)s em mais de duas dezenas de áreas relacionadas à reflexão, produção e usos da História. Faça parte dessa equipe.

Submissões

As resenhas devem expressar avaliações de livros ou de dossiês de revistas acadêmicas autodesignadas como "de História". Conheça as normas e envie-nos o seu texto.

Pesquisa


Enviar mensagem de WhatsApp