Racismo sexista e resistência antirracista — Resenha de Sheila Briano de Oliveira (SECBA//Uneb) sobre o livro “Daqui em não saio, daqui ninguém me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil”, de Keisha-Khan Y. Perry

Keisha-Khan Y. Perry| Imagem: Acervo da autora

Resumo: “Daqui em não saio, daqui ninguém me tira”, de Keisha-Khan Y. Perry, lançado em 2022 pela EDUFBA, é uma etnografia sobre a política das mulheres negras no Brasil. A obra visa discutir o racismo sexista e na diáspora, destacando a luta dessas mulheres pelo direito à terra. Criticada positivamente, revela a interseção de raça, gênero e urbanismo no contexto brasileiro.

Palavras-chave: Mulheres Negras, Política, Evolução Urbana.


O livro Daqui em não saio, daqui ninguém me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil, de Keisha-Khan Y. Perry, foi lançado em 2022 pela EDUFBA com tradução de Arivaldo Santos de Souza. É uma publicação de escrita etnográfica sobre política de mulheres negras. A obra tem como objetivo possibilitar a discussão sobre o racismo sexista e racismo na diáspora, respeitando diferenças similares. Explora a experiência das mulheres que lideram o movimento comunitário do bairro da Gamboa de Baixo, em Salvador-BA, a partir da perspectiva de alguém que as conheceu e compartilha sua amizade e tem ideais em comum. Seu prefaciador é Josemeire Alves Pereira, o qual atribui à obra a compreensão acerca de como o racismo informa e molda as concepções e práticas urbanísticas no Brasil, afirmando que o livro é uma preciosa contribuição para o campo dos estudos urbanos.

Keishan-Khan Y. Perry, nasceu em Kingston, Jamaica, migrou para os Estados Unidos aos 10 anos de idade. Morou em Newark antes de iniciar a graduação, mudança que contribuiu para que a autora voltasse o olhar sobre o ser negro na diáspora, vida urbana e política, e a história dos movimentos sociais nos Estados Unidos. Foi à faculdade na perspectiva de tornar-se uma intérprete profissional (é proficiente em espanhol e fala português), diplomata ou advogada. Porém, optou pela carreira acadêmica, uma escolha assertiva. Realizou pesquisas na Argentina, Belize, Brasil, Equador, Jamaica, México e Estados Unidos e, atualmente, estuda francês com o objetivo de expandir a sua pesquisa nas Américas, no mundo e na Africa. O referido livro também resultado de sua vivência no contexto das lutas pelo direito à terra, possui 260 páginas e é dividido em seis partes, além de “posfácio”, “ transcrição de entrevista” e “literatura comentada”.

As partes primeira e segunda trazem relatos sobre a cidade de Salvador, e sua história violência racial da escravidão e pelo colonialismo que orienta as relações raciais, de gênero e classe até os dias atuais. A autora considera o desenvolvimento urbano, as demolições em massa de bairros pobres que definem as relações de poder entre a maioria negra e a minoritária população branca brasileira, desde o período do Brasil colônia. Relata ainda as consequências sofridas por esta população quando Salvador deixa de ser a capital do país. A autora narra a luta das mulheres negras à luta pela terra, e denuncia a sua invisibilidade no cenário midiático, o qual reforça a falta de conhecimento sobre as vidas das mulheres negras no Brasil. A denúncia se prolonga na terceira parte, detalhando a natureza da organização política de Gamboa, como resistência, face as constantes ameaças pelo poder público de expulsão e realocação da população deste bairro da orla, para espaços mais longínquos do centro.

Na quarta parte, Keisha-Khan, traz relatos da luta contra os abusos policiais que tem se tornado parte integral do projeto político do bairro. A quinta parte, inicia com a história de resistência e a morte de Dona Iraci, uma ativista e moradora da Gamboa, que após um confronto policial sofreu um infarto. Esta perda estimulou a organização dos moradores, grupos de direitos humanos, organizações do movimento negro e intelectual negro que escreveram cartas abertas para denunciarem através de histórias de vidas negras, as agressões e os assassinatos cometidos pela força policial.

Na sexta parte, Kheisha-Khan narra a luta da associação do bairro do Gamboa, seja pela participação dos moradores da área, seja pela negociação e discussão por melhorias. A autora não perde de vista a luta pelo direito à terra, integrada às demandas políticas para legalizar os direitos coletivos de propriedade e preservar os recursos culturais e materiais que o mar oferece as moradoras e moradores da Gamboa de Baixo. Nesta perspectiva, anuncia as falas de mulheres negras ativistas que lideram esta organização, permeadas de declarações sobre as responsabilidades pessoais, profissionais de trabalho. As falas depõem, na maioria das vezes, sobre o trabalho doméstico em casas de famílias brancas e em suas próprias casas durante a noite. Também denuncia o trabalho não remunerado como uma forma de exploração comum a outras trabalhadoras domésticas negras, contam histórias cotidianas de luta por salários mais justos, sobre a tentativa de exploração sexual de jovens garotas e das dificuldades de criar seus próprios filhos.

A partir de suas experiências às margens da economia política, essas mulheres demonstram a importância da ação coletiva de mulheres negras nas comunidades brasileiras. Elas se mobilizam e auto identificam como moradoras e não como trabalhadoras, declarando uma perspectiva de classe, gênero e raça em uma cidade estrutural e historicamente desigual. No mesmo capítulo, a autora destaca a influência das religiões de tradição africana na cultura cotidiana das mulheres negras e a política ambiental na Gamboa de baixo e em bairros negros da cidade de São Salvador. “Em muitos aspectos, a população negra, sobretudo as mulheres negras, carregam o ônus de séculos de escravidão e marginalização social. Os terreiros têm sido espaços espirituais de solidariedade racial e de gênero, nos quais as mulheres negras mantêm a identidade cultural e comunitária de Salvador. (p.195). Ela também denuncia violenta intolerância religiosa que muitas comunidades religiosas afro-brasileiras sofrem, a constante invasão de terras dos terreiros e demolições, realizadas pelo Estado.

Nessa parte, por fim, a autora nos chama a atenção sobre a relação entre raça, gênero e estrutura de classe, com ênfase as forças espirituais e sobre o sucesso das organizações dessas mulheres, pois preservam os interesses do coletivo, tanto pelo direito a terra, quanto por melhorias das condições sociais. Faz uma distinção clara, entre homens e mulheres à frente destas entidades e sinaliza como as mulheres se arriscam mais em prol da causa coletiva ao lutarem contra as formas de atuação da sociedade e da polícia. Essas mulheres se beneficiam por serem mais escolarizadas e preparadas para participar das negociações com o Estado. Por outro lado, os homens têm mais chances de serem presos e de se venderem para políticos e agências de desenvolvimento, em detrimento do bem comum. Eles se submetem à dominação de classe, gênero e raça, por exaltarem seus interesses individuais, como a busca por empregos, abandonando o movimento ou agindo para anular o projeto coletivo.

Ao término de sua obra, a autora apresentar ao leitor as causas que originaram a luta pelos títulos das propriedades coletivas para tornar mais difícil as remoções em massa e a especulação imobiliária por parte do município. Assim, explica que remoções em massa em nome da revitalização, em diferentes bairros de Salvador, como ocorrera nas décadas de 1980 e 1990, em que foram retiradas pessoas pobres e de pessoas de cor, por causa da gentrificação e da construção de rodovias e aeroportos.

A autora afirma que a reestruturação das cidades veio com um alto preço para os negros pobres, assim como exacerbou problemas existentes de violência, pobreza e abandono social. A luta contra o problema global deve ser intensificada.

Pelourinho, após reforma ACM. Aqui Morava Gente (Fotografo não identificado) | Imagem: Cronologia do Urbanismo

Como vemos, o livro de Keisha-Khan chama a atenção do leitor para a invisibilidade global da mulher negra, acerca do seu conhecimento sobre a política global na diáspora africana, apesar de essas mulheres desempenharem um papel central nas lutas por libertação negra, em todo o mundo. O desconhecimento dessa experiência, acarreta a proliferação de situações sexistas e racistas, reproduzindo a falsa ideia de que as mulheres são inaptas à construção do conhecimento político e de liderança de organizações políticas.

Nesta perspectiva, o objetivo de compreender o lugar da solidariedade internacional em relação aos movimentos de base na diáspora negra foi cumprido na obra. Contudo, a própria autora admite que “a compreensão acerca de como o racismo informa e molda as concepções e práticas urbanísticas no Brasil pode ser considerada uma sensível lacuna nesses estudos.” (p.218). Também por esse motivo, a obra torna-se leitura obrigatória para historiadores, educadores, ativistas, antropólogos, sociólogos, juristas, formuladores de políticas públicas, planejadores urbanos e cientistas políticos. Esses agentes se beneficiarão com as informações e teses anunciadas sobre papel da mulher negra na luta pelo direito à terra e à moradia e acerca da articulação dos conceitos de raça, gênero e espiritualidade.

Sumário  de Daqui em não saio, daqui ninguém, me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil

  • Nota do tradutor
  • Prefácio
  • I. Negritude diáspora e agência afro-brasileira
    • Encontros raciais
    • Racismo estrutural e resistência negra
    • Do fetichismo identitário à transformação material
    • Antropologia afrodiaspórica como trabalho de solidariedade
  • II. Formação dos movimentos de base
    • Uma mulher
    • Salvador, a Meca da diáspora africana
    • Direito à terra e desenvolvimento urbano
    • As mulheres negras como líderes de movimentos de base
    • O bairro da Gamboa de baixo
    • Repensando a cultura política negra
  • III. A lógica da exclusão urbana baseada em gênero e raça
    • “Como Salvador se faz”
    • A visibilidade e invisibilidade da negritude
    • Avenida Contorno divide uma comunidade
    • Mudando a cara (raça) da cidade – desafricanizando a rua
    • Exorcizando o candomblé
    • Embranquecendo a cidade
    • A limpeza do Centro Histórico
    • Revitalizando o passado, apagando o presente
  • IV. A infantaria do movimento Negro
    • Protesto social nas margens
    • Começo das lutas do bairro
    • A política de base da comunidade
    • Ação direta e a formação de um ativismo negro
    • Nova liberdade para mulheres
  • V. Policiamento violento e eliminação de paisagens urbanas
    • O muro
    • Por dentro do forte: as políticas de inclusão
    • Poder de cima, constelação de baixo
    • Luxo na orla e direito ao espaço
    • Espetáculo da violência estatal
    • A guerra de janeiro de 2008
    • A luta por espaço
  • VI. “Catando os caos”: violência cotidiana e a comunidade
    • Dona Iraci morre na luta
    • Os homens
    • Os meninos
    • “Agora a Gamboa vai virar um inferno”
    • Velório
    • Catando os caos
  • VII. Política é coisa de mulher
    • Vamos para a reunião
    • Trabalho doméstico, conhecimento privilegiado e movimentos políticos de base
    • “Se não tivéssemos água”: espiritualidade, terra e justiça ambiental
    • Liderança de mulheres negras como um desafio para a hegemonia
    • Desafiando expectativas
  • Conclusão
    • Sobre o asfalto: das margens para o centro da política negra na diáspora
    • A luta continua
    • Por que focaram em habitação e terra como assuntos de direitos humanos?
    • Futuros diaspóricos
  • Posfácio
  • Referências

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Sheila Briano de Oliveira é Psicopedagoga (ABPp/BA 1661) e Professora do AEE ( atendimento educacional especializado). Mestranda da PPGEAFIN/UNEB (2023.1), Pedagoga e Letróloga, especialista em: Educação Especial Inclusiva (UNEB Campus I), Psicopedagogia Clínica e Institucional (UESSBA), Neuropsicopedagogia (FACIIP), Neuropsicologia Educacional (ISAL) e LIBRAS com ênfase em Educação Inclusiva (Faculdade São Salvador). ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/5090024078230648; ID ORCID: https://orcid.org/0009-0009-3962-8990; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

PERRY, Keisha-Khan Y. Daqui em não saio, daqui ninguém, me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil. Salvador: Edufba, 2022. 240p. Resenha de OLIVEIRA, Sheila Briano de. Racismo sexista e resistência antirracista. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.14, nov./dez., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/racismo-sexista-e-resistencia-antirracista-resenha-de-sheila-briano-de-oliveira-secba-ppgeafin-uneb-sobre-o-livro-daqui-em-nao-saio-daqui-ninguem-me-tira-a-luta-das-mulheres-negra/>.


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 14, nov./dez., 2023 | ISSN 2764-2666

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Racismo sexista e resistência antirracista — Resenha de Sheila Briano de Oliveira (SECBA//Uneb) sobre o livro “Daqui em não saio, daqui ninguém me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil”, de Keisha-Khan Y. Perry

Keisha-Khan Y. Perry| Imagem: Acervo da autora

Resumo: “Daqui em não saio, daqui ninguém me tira”, de Keisha-Khan Y. Perry, lançado em 2022 pela EDUFBA, é uma etnografia sobre a política das mulheres negras no Brasil. A obra visa discutir o racismo sexista e na diáspora, destacando a luta dessas mulheres pelo direito à terra. Criticada positivamente, revela a interseção de raça, gênero e urbanismo no contexto brasileiro.

Palavras-chave: Mulheres Negras, Política, Evolução Urbana.


O livro Daqui em não saio, daqui ninguém me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil, de Keisha-Khan Y. Perry, foi lançado em 2022 pela EDUFBA com tradução de Arivaldo Santos de Souza. É uma publicação de escrita etnográfica sobre política de mulheres negras. A obra tem como objetivo possibilitar a discussão sobre o racismo sexista e racismo na diáspora, respeitando diferenças similares. Explora a experiência das mulheres que lideram o movimento comunitário do bairro da Gamboa de Baixo, em Salvador-BA, a partir da perspectiva de alguém que as conheceu e compartilha sua amizade e tem ideais em comum. Seu prefaciador é Josemeire Alves Pereira, o qual atribui à obra a compreensão acerca de como o racismo informa e molda as concepções e práticas urbanísticas no Brasil, afirmando que o livro é uma preciosa contribuição para o campo dos estudos urbanos.

Keishan-Khan Y. Perry, nasceu em Kingston, Jamaica, migrou para os Estados Unidos aos 10 anos de idade. Morou em Newark antes de iniciar a graduação, mudança que contribuiu para que a autora voltasse o olhar sobre o ser negro na diáspora, vida urbana e política, e a história dos movimentos sociais nos Estados Unidos. Foi à faculdade na perspectiva de tornar-se uma intérprete profissional (é proficiente em espanhol e fala português), diplomata ou advogada. Porém, optou pela carreira acadêmica, uma escolha assertiva. Realizou pesquisas na Argentina, Belize, Brasil, Equador, Jamaica, México e Estados Unidos e, atualmente, estuda francês com o objetivo de expandir a sua pesquisa nas Américas, no mundo e na Africa. O referido livro também resultado de sua vivência no contexto das lutas pelo direito à terra, possui 260 páginas e é dividido em seis partes, além de “posfácio”, “ transcrição de entrevista” e “literatura comentada”.

As partes primeira e segunda trazem relatos sobre a cidade de Salvador, e sua história violência racial da escravidão e pelo colonialismo que orienta as relações raciais, de gênero e classe até os dias atuais. A autora considera o desenvolvimento urbano, as demolições em massa de bairros pobres que definem as relações de poder entre a maioria negra e a minoritária população branca brasileira, desde o período do Brasil colônia. Relata ainda as consequências sofridas por esta população quando Salvador deixa de ser a capital do país. A autora narra a luta das mulheres negras à luta pela terra, e denuncia a sua invisibilidade no cenário midiático, o qual reforça a falta de conhecimento sobre as vidas das mulheres negras no Brasil. A denúncia se prolonga na terceira parte, detalhando a natureza da organização política de Gamboa, como resistência, face as constantes ameaças pelo poder público de expulsão e realocação da população deste bairro da orla, para espaços mais longínquos do centro.

Na quarta parte, Keisha-Khan, traz relatos da luta contra os abusos policiais que tem se tornado parte integral do projeto político do bairro. A quinta parte, inicia com a história de resistência e a morte de Dona Iraci, uma ativista e moradora da Gamboa, que após um confronto policial sofreu um infarto. Esta perda estimulou a organização dos moradores, grupos de direitos humanos, organizações do movimento negro e intelectual negro que escreveram cartas abertas para denunciarem através de histórias de vidas negras, as agressões e os assassinatos cometidos pela força policial.

Na sexta parte, Kheisha-Khan narra a luta da associação do bairro do Gamboa, seja pela participação dos moradores da área, seja pela negociação e discussão por melhorias. A autora não perde de vista a luta pelo direito à terra, integrada às demandas políticas para legalizar os direitos coletivos de propriedade e preservar os recursos culturais e materiais que o mar oferece as moradoras e moradores da Gamboa de Baixo. Nesta perspectiva, anuncia as falas de mulheres negras ativistas que lideram esta organização, permeadas de declarações sobre as responsabilidades pessoais, profissionais de trabalho. As falas depõem, na maioria das vezes, sobre o trabalho doméstico em casas de famílias brancas e em suas próprias casas durante a noite. Também denuncia o trabalho não remunerado como uma forma de exploração comum a outras trabalhadoras domésticas negras, contam histórias cotidianas de luta por salários mais justos, sobre a tentativa de exploração sexual de jovens garotas e das dificuldades de criar seus próprios filhos.

A partir de suas experiências às margens da economia política, essas mulheres demonstram a importância da ação coletiva de mulheres negras nas comunidades brasileiras. Elas se mobilizam e auto identificam como moradoras e não como trabalhadoras, declarando uma perspectiva de classe, gênero e raça em uma cidade estrutural e historicamente desigual. No mesmo capítulo, a autora destaca a influência das religiões de tradição africana na cultura cotidiana das mulheres negras e a política ambiental na Gamboa de baixo e em bairros negros da cidade de São Salvador. “Em muitos aspectos, a população negra, sobretudo as mulheres negras, carregam o ônus de séculos de escravidão e marginalização social. Os terreiros têm sido espaços espirituais de solidariedade racial e de gênero, nos quais as mulheres negras mantêm a identidade cultural e comunitária de Salvador. (p.195). Ela também denuncia violenta intolerância religiosa que muitas comunidades religiosas afro-brasileiras sofrem, a constante invasão de terras dos terreiros e demolições, realizadas pelo Estado.

Nessa parte, por fim, a autora nos chama a atenção sobre a relação entre raça, gênero e estrutura de classe, com ênfase as forças espirituais e sobre o sucesso das organizações dessas mulheres, pois preservam os interesses do coletivo, tanto pelo direito a terra, quanto por melhorias das condições sociais. Faz uma distinção clara, entre homens e mulheres à frente destas entidades e sinaliza como as mulheres se arriscam mais em prol da causa coletiva ao lutarem contra as formas de atuação da sociedade e da polícia. Essas mulheres se beneficiam por serem mais escolarizadas e preparadas para participar das negociações com o Estado. Por outro lado, os homens têm mais chances de serem presos e de se venderem para políticos e agências de desenvolvimento, em detrimento do bem comum. Eles se submetem à dominação de classe, gênero e raça, por exaltarem seus interesses individuais, como a busca por empregos, abandonando o movimento ou agindo para anular o projeto coletivo.

Ao término de sua obra, a autora apresentar ao leitor as causas que originaram a luta pelos títulos das propriedades coletivas para tornar mais difícil as remoções em massa e a especulação imobiliária por parte do município. Assim, explica que remoções em massa em nome da revitalização, em diferentes bairros de Salvador, como ocorrera nas décadas de 1980 e 1990, em que foram retiradas pessoas pobres e de pessoas de cor, por causa da gentrificação e da construção de rodovias e aeroportos.

A autora afirma que a reestruturação das cidades veio com um alto preço para os negros pobres, assim como exacerbou problemas existentes de violência, pobreza e abandono social. A luta contra o problema global deve ser intensificada.

Pelourinho, após reforma ACM. Aqui Morava Gente (Fotografo não identificado) | Imagem: Cronologia do Urbanismo

Como vemos, o livro de Keisha-Khan chama a atenção do leitor para a invisibilidade global da mulher negra, acerca do seu conhecimento sobre a política global na diáspora africana, apesar de essas mulheres desempenharem um papel central nas lutas por libertação negra, em todo o mundo. O desconhecimento dessa experiência, acarreta a proliferação de situações sexistas e racistas, reproduzindo a falsa ideia de que as mulheres são inaptas à construção do conhecimento político e de liderança de organizações políticas.

Nesta perspectiva, o objetivo de compreender o lugar da solidariedade internacional em relação aos movimentos de base na diáspora negra foi cumprido na obra. Contudo, a própria autora admite que “a compreensão acerca de como o racismo informa e molda as concepções e práticas urbanísticas no Brasil pode ser considerada uma sensível lacuna nesses estudos.” (p.218). Também por esse motivo, a obra torna-se leitura obrigatória para historiadores, educadores, ativistas, antropólogos, sociólogos, juristas, formuladores de políticas públicas, planejadores urbanos e cientistas políticos. Esses agentes se beneficiarão com as informações e teses anunciadas sobre papel da mulher negra na luta pelo direito à terra e à moradia e acerca da articulação dos conceitos de raça, gênero e espiritualidade.

Sumário  de Daqui em não saio, daqui ninguém, me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil

  • Nota do tradutor
  • Prefácio
  • I. Negritude diáspora e agência afro-brasileira
    • Encontros raciais
    • Racismo estrutural e resistência negra
    • Do fetichismo identitário à transformação material
    • Antropologia afrodiaspórica como trabalho de solidariedade
  • II. Formação dos movimentos de base
    • Uma mulher
    • Salvador, a Meca da diáspora africana
    • Direito à terra e desenvolvimento urbano
    • As mulheres negras como líderes de movimentos de base
    • O bairro da Gamboa de baixo
    • Repensando a cultura política negra
  • III. A lógica da exclusão urbana baseada em gênero e raça
    • “Como Salvador se faz”
    • A visibilidade e invisibilidade da negritude
    • Avenida Contorno divide uma comunidade
    • Mudando a cara (raça) da cidade – desafricanizando a rua
    • Exorcizando o candomblé
    • Embranquecendo a cidade
    • A limpeza do Centro Histórico
    • Revitalizando o passado, apagando o presente
  • IV. A infantaria do movimento Negro
    • Protesto social nas margens
    • Começo das lutas do bairro
    • A política de base da comunidade
    • Ação direta e a formação de um ativismo negro
    • Nova liberdade para mulheres
  • V. Policiamento violento e eliminação de paisagens urbanas
    • O muro
    • Por dentro do forte: as políticas de inclusão
    • Poder de cima, constelação de baixo
    • Luxo na orla e direito ao espaço
    • Espetáculo da violência estatal
    • A guerra de janeiro de 2008
    • A luta por espaço
  • VI. “Catando os caos”: violência cotidiana e a comunidade
    • Dona Iraci morre na luta
    • Os homens
    • Os meninos
    • “Agora a Gamboa vai virar um inferno”
    • Velório
    • Catando os caos
  • VII. Política é coisa de mulher
    • Vamos para a reunião
    • Trabalho doméstico, conhecimento privilegiado e movimentos políticos de base
    • “Se não tivéssemos água”: espiritualidade, terra e justiça ambiental
    • Liderança de mulheres negras como um desafio para a hegemonia
    • Desafiando expectativas
  • Conclusão
    • Sobre o asfalto: das margens para o centro da política negra na diáspora
    • A luta continua
    • Por que focaram em habitação e terra como assuntos de direitos humanos?
    • Futuros diaspóricos
  • Posfácio
  • Referências

Para ampliar a sua revisão da literatura


Resenhista

Sheila Briano de Oliveira é Psicopedagoga (ABPp/BA 1661) e Professora do AEE ( atendimento educacional especializado). Mestranda da PPGEAFIN/UNEB (2023.1), Pedagoga e Letróloga, especialista em: Educação Especial Inclusiva (UNEB Campus I), Psicopedagogia Clínica e Institucional (UESSBA), Neuropsicopedagogia (FACIIP), Neuropsicologia Educacional (ISAL) e LIBRAS com ênfase em Educação Inclusiva (Faculdade São Salvador). ID LATTES: http://lattes.cnpq.br/5090024078230648; ID ORCID: https://orcid.org/0009-0009-3962-8990; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

PERRY, Keisha-Khan Y. Daqui em não saio, daqui ninguém, me tira: a luta das mulheres negras pelo direito à terra no Brasil. Salvador: Edufba, 2022. 240p. Resenha de OLIVEIRA, Sheila Briano de. Racismo sexista e resistência antirracista. Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n.14, nov./dez., 2023. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/racismo-sexista-e-resistencia-antirracista-resenha-de-sheila-briano-de-oliveira-secba-ppgeafin-uneb-sobre-o-livro-daqui-em-nao-saio-daqui-ninguem-me-tira-a-luta-das-mulheres-negra/>.


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.3, n. 14, nov./dez., 2023 | ISSN 2764-2666

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