Terra à Vista! – Resenha de Luciana Requião (UFF) sobre o livro “Terra Trio [uma família musical com os pés na terra]”, de Ricardo Schott

Ricardo Schott | Imagem: Botequimdeideias.com

Resumo: Terra Trio [uma família musical com os pés na terra], de Ricardo Schott, celebra o Terra Trio, descrevendo sua jornada desde 1966 até os anos 2000. A obra, rica em entrevistas e documentação, detalha as performances e a influência cultural do grupo, incluindo parcerias com Maria Bethânia, possui narrativa envolvente e o contexto detalhado, apesar de não tensionar certos períodos históricos como a ditadura militar.

Palavras-chave: Terra Trio; música brasileira; Maria Bethânia.


O livro de Ricardo Schott, publicado pela Sonora Editora em 2020, é uma homenagem aos músicos e à música do Terra Trio, grupo musical formado por Fernando Costa no baixo, Ricardo Costa na bateria e Zé Maria Rocha no piano. O livro, que leva o nome do grupo, tem por objetivo relatar a trajetória do Terra desde sua criação, em 1966, até os anos 2000, quando ainda eventualmente se reúnem para tocar. O cenário é a cidade do Rio de Janeiro e a efervescente indústria cultural que se consolidava no Brasil. Ao lado de seus integrantes, protagoniza ainda Maria Bethânia, cantora que esteve junto ao grupo em boa parte dessa história, e Dona Emília, mãe de Fernando e Ricardo, que adotou também Zé Maria como filho. Dona Emília não só forneceu fontes primárias ao autor (recortes da imprensa deixados de herança) como foi responsável pela estrutura familiar que apoiava os ensaios diários realizados em sua residência, que por acaso ou não era no andar de cima do bar Veloso, atual Garota de Ipanema, famoso por ser frequentado por Tom Jobim e outros mestres da boemia musical carioca. O prefácio foi escrito por Daniel e Xande, netos de Dona Emília, que endereçam a ela o texto em forma de carta e que auxiliaram na organização do material. Nesse caso, podemos dizer que o livro também é uma homenagem a esta mulher tão presente na vida (e na memória) de seus filhos e netos.

O jornalista Ricardo Schott foi convidado pelos editores Marcelo Fróes e Michel Jamel para realizar a pesquisa e escrever o livro, desenvolvido a partir de conversas com os músicos, além de consulta à farta documentação de recortes sobre o grupo deixados por Dona Emília. Artistas, jornalistas, parentes e amigos do Terra também compuseram o rol dos entrevistados, complementados por informações colhidas nos arquivos digitais de jornais e da Biblioteca Nacional. As informações apresentadas no relato sobre a trajetória do Terra Trio não só retratam a vida laboral dos músicos como ajudam a compor o cenário musical da zona sul carioca. O livro é apresentado em 35 capítulos curtos distribuídos em 312 páginas, junto ao prefácio e à introdução que os antecedem. Uma seção de agradecimentos encerra a obra.

Os capítulos obedecem à ordem cronológica dos acontecimentos desde os primeiros sons em público do Trio no final dos anos 1960, que sempre obteve da mídia impressa, como destaca Schott, os mais calorosos elogios. Em seus capítulos iniciais conta um pouco a história da família Costa e a trajetória individual de cada integrante do grupo, com especial atenção à chegada de Zé Maria na família. A noite boêmia do Rio de Janeiro é retratada, em particular os bares, as boates e os teatros da zona sul, que, em especial ao longo da década de 1970, proporcionavam alta demanda de trabalho aos músicos na cidade.

No livro são destacadas ilustres personalidades como Fauzi Arap, Sidney Miller, Nara Leão, Hermínio Bello de Carvalho, Célia Vaz, Martinho da Vila, Eliana Pittman, Paulinho da Viola, Marisa Gata Mansa, Jamelão, que exerceram alguma influência ou participação no trabalho artístico musical do Terra. A presença da violonista Rosinha de Valença junto ao grupo, por exemplo, é bastante referenciada. Porém, nessa história é central a atuação da cantora Maria Bethânia, com a qual o Terra Trio dividiu o palco por tantas vezes e alcançou notoriedade. Shows como “Comigo me desavim”, o primeiro desta parceria, são detalhados, incluindo o repertório e a performance dos meninos junto à cantora, que também se destacava no cenário carioca. Essa parceria foi tão duradoura, mesmo com alguns momentos de interrupção, que o jornalista Mauro Ferreira, em matéria para a plataforma G1 (22/02/2023), diz: “como ainda inexiste biografia de Maria Bethânia, o livro Terra Trio […] cumpre parcialmente a função ao descortinar bastidores de shows e discos antológicos da cantora baiana nos anos de formação da identidade cênica da intérprete”.

Como nos mostra Schott, o Terra, apesar de ter atuado em programas televisivos e em gravações, era um grupo de palco. O único LP exclusivo do trio foi “Terra à Vista”, lançado ainda em 1969, no início de sua carreira, pela Philips. É destacado pelo autor o característico lançamento em LP de gravação ao vivo de shows que marcaria os anos 1960 e 1970. Nesse tipo de empreendimento foi ativa a parceria do Terra com Bethânia, com quem tiveram uma primeira experiência gravando em estúdio o show “Recital na Boite Barroco”, de 1968. Porém, a prática era a gravação dos shows nos teatros ou boates, e com o equipamento que estivesse à disposição, como narra o então diretor artístico da gravadora Philips Roberto Menescal. Em entrevista a Ricardo Schott, Menescal conta que “tanto a Bethânia quanto o Terra Trio cresciam muito com as reações do público”, o que fazia valer a gravação ao vivo mesmo com as limitações técnicas da época (p.197), referindo-se ao show Rosa dos Ventos realizado no Teatro da Praia no Rio de Janeiro e lançado em LP no ano de 1971.

Os festivais de música e as turnês nacionais e internacionais também fazem parte da narrativa de Schott, principalmente no período em que o Terra esteve ao lado de Bethânia. Porém, o que mais se destaca no decorrer da obra são os elogios tecidos ao grupo, como o de Nara Leão e Sidney Miller publicado na contracapa do LP “Terra à Vista”: “Antes, um trio era um trio. Hoje, e neste caso, um trio pode ser uma orquestra, um solo, um coral ou a soma de todas as invenções de Fernando, Zé Maria e Ricardo”. A enorme versatilidade e criatividade do grupo teve influência dos conhecidos trios de samba-jazz como o Tamba Trio, formado por Bebeto Castilho no baixo, Luiz Eça no piano e Helcio Milito na bateria, segundo nos informa o autor.

De forma geral, tem-se a impressão de um auspicioso percurso cumprido pelo trio no decorrer dos “Tempos Difíceis”, título dado a um dos capítulos, em que a censura corria atrás de artistas e que a ditadura militar se impunha. A narrativa pouco tensiona esse momento, transmitindo a impressão de que os músicos passaram por esse período sem maiores consequências, apesar da frequente censura à letra das músicas. Ao contrário, mostra não só a prosperidade alcançada pela notoriedade de público e crítica, como também financeira.

Schott declara que em uma das reportagens consultadas da época encontrou a informação de que Bethânia e o Terra Trio ganhavam sete mil cruzeiros por cachê, “numa época em que isso era dinheiro a rodo” (p.200), como comenta o autor. Informa ainda que as longas turnês com a cantora baiana garantiam boa estabilidade financeira aos músicos.

Maria Bethânia e Terra Trio no programa “Música Brasileira” – TV Cultura (1969) | Imagem: Canal MBReVerso

Mas não só de sucesso vive a música. As dificuldades da profissão também são sentidas, em particular quando Schott narra a trajetória da cantora Marisa Gata Mansa, com quem também o Trio dividiu o palco. Se Bethânia em dado momento pôde sair da noite e ocupar-se das grandes temporadas em teatros, Marisa para sustentar sua carreira precisou manter-se na noite, o que, além de ser ambiente de menor prestígio, era de muito maior desgaste para a artista. Para agravar a situação, mudanças no mercado musical na década de 1980 com um maior investimento na música pop e no rock, junto à introdução de equipamentos mecânicos de som, mudaram drasticamente o cenário e as oportunidades de trabalho. Os músicos do Terra passaram a investir também em suas carreiras separadas do grupo, o que favorecia uma maior demanda por trabalho.

A leveza e a empolgação com que o autor conduz a narrativa, seus capítulos curtos, ilustrações e QR CODEs que nos levam a uma plataforma digital onde é possível ouvir as gravações mencionadas, dão o tom do livro. E vale muito conferir as faixas do único disco gravado exclusivamente pelo grupo! Apesar das referências ao longo do texto, teria sido interessante se o livro também nos trouxesse uma listagem com a discografia que contou com a participação do Terra. A história relatada, como ressalta o autor, é apenas uma das muitas possíveis narrativas sobre o Terra Trio e a prática musical carioca dos anos 1970.

Em um país de poucas memórias como o nosso, isso vale muito, e o livro de Ricardo Schott cumpre de forma eficiente o objetivo de registrar a trajetória do Terra Trio, discorrendo ainda sobre um fascinante período histórico para os músicos que se aventuravam a encarar a música como profissão no Rio de Janeiro. É indicado para aqueles e aquelas, praticantes da música ou não, que se interessam em conhecer as particularidades da trajetória musical do Terra Trio, mas também as generalidades desse efervescente período no Rio de Janeiro. Pode-se dizer que Ricardo, Fernando e Zé Maria são músicos que estavam prontos, no momento certo, para vivenciar e desfrutar de uma das fases mais prósperas da vida cultural na cidade do Rio de Janeiro.

Sumário de Terra Trio [uma família musical com os pés na terra]

  • Prefácio – A Gênese do Livro
  • Introdução – Uma Família Musical com os Pés na Terra
  • 1. Montenegro 49, 3° Andar
  • 2. A Música Começou!
  • 3. Três é Demais!
  • 4. Um Trio Televisivo
  • 5. O Irmão Que (Ainda) Não Sabia Que Era irmão
  • 6. Conexão Rio-Minas
  • 7. Pelas Noites do Rio
  • 8. De “Os Ipanemas” a Terra Trio
  • 9. Primeiro Ato
  • 10. Alcançando os Astros
  • 11. Sentidos Aflorados no Palco
  • 12. Repertório de Sucesso, para Ficar
  • 13. Tempos Difíceis
  • 14. Chegando na “Boite”
  • 15. Vai Rolar Show da Bethânia, Quer Assistir?
  • 16. Hermínio, Nara, e Sidney no Caminho
  • 17. Estúdio e Disco à Vista
  • 18. “Da Vila” em Ipanema
  • 19. Bethânia e Eliana
  • 20. No Palco Como na Vida
  • 21. Rosa dos Ventos
  • 22. Quem Sabe Faz ao Vivo
  • 23. Frio na Rua, Calor no Palco
  • 24. Matando os Ouvintes de Amor
  • 25. Cena Muda na Vila
  • 26. Tinha Bethânia, Mas Tinha Marisa
  • 27. Chico, Terra e Bethânia (E Cia.)
  • 28. No Fim, Ainda Tinha Sucesso – E Muito
  • 29. Noite Alta, Céu Risonho e… Velas na Pista
  • 30. Marisa Independente
  • 31. Projeto Pixinguinha
  • 32. Cabeça para Fora
  • 33. Fechando o Ciclo
  • 34. Teu Caminho é de Paz e Amor
  • 35. O Terra Trio Continua
  • Agradecimentos
  • Bibliografia

Resenhista

Luciana Requião é doutora em Educação pela UFF e Mestre em Música pela UNIRIO, professora do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR/UFF) e do Programa de Pós-Graduação em Música da UNIRIO. Publicou, dentre outros, “Eis aí a Lapa…: processos e relações de trabalho do músico nas casas de shows da Lapa” (São Paulo: Annablume, 2010) e “Festa acabada, músicos a pé!”: um estudo crítico sobre as relações de trabalho de músicos atuantes no estado do Rio de Janeiro” (2016). ID: LATTES: http://lattes.cnpq.br/2687869588131721; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0351-0578; Instagram: lucianareq; E-mail: [email protected].


Para citar esta resenha

SCHOTT, Ricardo. Terra Trio [uma família musical com os pés na terra]. Rio de Janeiro: Sonora Editora, 2020. 312p. Resenha de: REQUIÃO, Luciana. Terra à vista. Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/terra-a-vista-resenha-de-luciana-requiao-sobre-o-livro-terra-trio-uma-familia-musical-com-os-pes-na-terra-de-ricardo-schott/>.

 


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024 | ISSN 2764-2666.

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Terra à Vista! – Resenha de Luciana Requião (UFF) sobre o livro “Terra Trio [uma família musical com os pés na terra]”, de Ricardo Schott

Ricardo Schott | Imagem: Botequimdeideias.com

Resumo: Terra Trio [uma família musical com os pés na terra], de Ricardo Schott, celebra o Terra Trio, descrevendo sua jornada desde 1966 até os anos 2000. A obra, rica em entrevistas e documentação, detalha as performances e a influência cultural do grupo, incluindo parcerias com Maria Bethânia, possui narrativa envolvente e o contexto detalhado, apesar de não tensionar certos períodos históricos como a ditadura militar.

Palavras-chave: Terra Trio; música brasileira; Maria Bethânia.


O livro de Ricardo Schott, publicado pela Sonora Editora em 2020, é uma homenagem aos músicos e à música do Terra Trio, grupo musical formado por Fernando Costa no baixo, Ricardo Costa na bateria e Zé Maria Rocha no piano. O livro, que leva o nome do grupo, tem por objetivo relatar a trajetória do Terra desde sua criação, em 1966, até os anos 2000, quando ainda eventualmente se reúnem para tocar. O cenário é a cidade do Rio de Janeiro e a efervescente indústria cultural que se consolidava no Brasil. Ao lado de seus integrantes, protagoniza ainda Maria Bethânia, cantora que esteve junto ao grupo em boa parte dessa história, e Dona Emília, mãe de Fernando e Ricardo, que adotou também Zé Maria como filho. Dona Emília não só forneceu fontes primárias ao autor (recortes da imprensa deixados de herança) como foi responsável pela estrutura familiar que apoiava os ensaios diários realizados em sua residência, que por acaso ou não era no andar de cima do bar Veloso, atual Garota de Ipanema, famoso por ser frequentado por Tom Jobim e outros mestres da boemia musical carioca. O prefácio foi escrito por Daniel e Xande, netos de Dona Emília, que endereçam a ela o texto em forma de carta e que auxiliaram na organização do material. Nesse caso, podemos dizer que o livro também é uma homenagem a esta mulher tão presente na vida (e na memória) de seus filhos e netos.

O jornalista Ricardo Schott foi convidado pelos editores Marcelo Fróes e Michel Jamel para realizar a pesquisa e escrever o livro, desenvolvido a partir de conversas com os músicos, além de consulta à farta documentação de recortes sobre o grupo deixados por Dona Emília. Artistas, jornalistas, parentes e amigos do Terra também compuseram o rol dos entrevistados, complementados por informações colhidas nos arquivos digitais de jornais e da Biblioteca Nacional. As informações apresentadas no relato sobre a trajetória do Terra Trio não só retratam a vida laboral dos músicos como ajudam a compor o cenário musical da zona sul carioca. O livro é apresentado em 35 capítulos curtos distribuídos em 312 páginas, junto ao prefácio e à introdução que os antecedem. Uma seção de agradecimentos encerra a obra.

Os capítulos obedecem à ordem cronológica dos acontecimentos desde os primeiros sons em público do Trio no final dos anos 1960, que sempre obteve da mídia impressa, como destaca Schott, os mais calorosos elogios. Em seus capítulos iniciais conta um pouco a história da família Costa e a trajetória individual de cada integrante do grupo, com especial atenção à chegada de Zé Maria na família. A noite boêmia do Rio de Janeiro é retratada, em particular os bares, as boates e os teatros da zona sul, que, em especial ao longo da década de 1970, proporcionavam alta demanda de trabalho aos músicos na cidade.

No livro são destacadas ilustres personalidades como Fauzi Arap, Sidney Miller, Nara Leão, Hermínio Bello de Carvalho, Célia Vaz, Martinho da Vila, Eliana Pittman, Paulinho da Viola, Marisa Gata Mansa, Jamelão, que exerceram alguma influência ou participação no trabalho artístico musical do Terra. A presença da violonista Rosinha de Valença junto ao grupo, por exemplo, é bastante referenciada. Porém, nessa história é central a atuação da cantora Maria Bethânia, com a qual o Terra Trio dividiu o palco por tantas vezes e alcançou notoriedade. Shows como “Comigo me desavim”, o primeiro desta parceria, são detalhados, incluindo o repertório e a performance dos meninos junto à cantora, que também se destacava no cenário carioca. Essa parceria foi tão duradoura, mesmo com alguns momentos de interrupção, que o jornalista Mauro Ferreira, em matéria para a plataforma G1 (22/02/2023), diz: “como ainda inexiste biografia de Maria Bethânia, o livro Terra Trio […] cumpre parcialmente a função ao descortinar bastidores de shows e discos antológicos da cantora baiana nos anos de formação da identidade cênica da intérprete”.

Como nos mostra Schott, o Terra, apesar de ter atuado em programas televisivos e em gravações, era um grupo de palco. O único LP exclusivo do trio foi “Terra à Vista”, lançado ainda em 1969, no início de sua carreira, pela Philips. É destacado pelo autor o característico lançamento em LP de gravação ao vivo de shows que marcaria os anos 1960 e 1970. Nesse tipo de empreendimento foi ativa a parceria do Terra com Bethânia, com quem tiveram uma primeira experiência gravando em estúdio o show “Recital na Boite Barroco”, de 1968. Porém, a prática era a gravação dos shows nos teatros ou boates, e com o equipamento que estivesse à disposição, como narra o então diretor artístico da gravadora Philips Roberto Menescal. Em entrevista a Ricardo Schott, Menescal conta que “tanto a Bethânia quanto o Terra Trio cresciam muito com as reações do público”, o que fazia valer a gravação ao vivo mesmo com as limitações técnicas da época (p.197), referindo-se ao show Rosa dos Ventos realizado no Teatro da Praia no Rio de Janeiro e lançado em LP no ano de 1971.

Os festivais de música e as turnês nacionais e internacionais também fazem parte da narrativa de Schott, principalmente no período em que o Terra esteve ao lado de Bethânia. Porém, o que mais se destaca no decorrer da obra são os elogios tecidos ao grupo, como o de Nara Leão e Sidney Miller publicado na contracapa do LP “Terra à Vista”: “Antes, um trio era um trio. Hoje, e neste caso, um trio pode ser uma orquestra, um solo, um coral ou a soma de todas as invenções de Fernando, Zé Maria e Ricardo”. A enorme versatilidade e criatividade do grupo teve influência dos conhecidos trios de samba-jazz como o Tamba Trio, formado por Bebeto Castilho no baixo, Luiz Eça no piano e Helcio Milito na bateria, segundo nos informa o autor.

De forma geral, tem-se a impressão de um auspicioso percurso cumprido pelo trio no decorrer dos “Tempos Difíceis”, título dado a um dos capítulos, em que a censura corria atrás de artistas e que a ditadura militar se impunha. A narrativa pouco tensiona esse momento, transmitindo a impressão de que os músicos passaram por esse período sem maiores consequências, apesar da frequente censura à letra das músicas. Ao contrário, mostra não só a prosperidade alcançada pela notoriedade de público e crítica, como também financeira.

Schott declara que em uma das reportagens consultadas da época encontrou a informação de que Bethânia e o Terra Trio ganhavam sete mil cruzeiros por cachê, “numa época em que isso era dinheiro a rodo” (p.200), como comenta o autor. Informa ainda que as longas turnês com a cantora baiana garantiam boa estabilidade financeira aos músicos.

Maria Bethânia e Terra Trio no programa “Música Brasileira” – TV Cultura (1969) | Imagem: Canal MBReVerso

Mas não só de sucesso vive a música. As dificuldades da profissão também são sentidas, em particular quando Schott narra a trajetória da cantora Marisa Gata Mansa, com quem também o Trio dividiu o palco. Se Bethânia em dado momento pôde sair da noite e ocupar-se das grandes temporadas em teatros, Marisa para sustentar sua carreira precisou manter-se na noite, o que, além de ser ambiente de menor prestígio, era de muito maior desgaste para a artista. Para agravar a situação, mudanças no mercado musical na década de 1980 com um maior investimento na música pop e no rock, junto à introdução de equipamentos mecânicos de som, mudaram drasticamente o cenário e as oportunidades de trabalho. Os músicos do Terra passaram a investir também em suas carreiras separadas do grupo, o que favorecia uma maior demanda por trabalho.

A leveza e a empolgação com que o autor conduz a narrativa, seus capítulos curtos, ilustrações e QR CODEs que nos levam a uma plataforma digital onde é possível ouvir as gravações mencionadas, dão o tom do livro. E vale muito conferir as faixas do único disco gravado exclusivamente pelo grupo! Apesar das referências ao longo do texto, teria sido interessante se o livro também nos trouxesse uma listagem com a discografia que contou com a participação do Terra. A história relatada, como ressalta o autor, é apenas uma das muitas possíveis narrativas sobre o Terra Trio e a prática musical carioca dos anos 1970.

Em um país de poucas memórias como o nosso, isso vale muito, e o livro de Ricardo Schott cumpre de forma eficiente o objetivo de registrar a trajetória do Terra Trio, discorrendo ainda sobre um fascinante período histórico para os músicos que se aventuravam a encarar a música como profissão no Rio de Janeiro. É indicado para aqueles e aquelas, praticantes da música ou não, que se interessam em conhecer as particularidades da trajetória musical do Terra Trio, mas também as generalidades desse efervescente período no Rio de Janeiro. Pode-se dizer que Ricardo, Fernando e Zé Maria são músicos que estavam prontos, no momento certo, para vivenciar e desfrutar de uma das fases mais prósperas da vida cultural na cidade do Rio de Janeiro.

Sumário de Terra Trio [uma família musical com os pés na terra]

  • Prefácio – A Gênese do Livro
  • Introdução – Uma Família Musical com os Pés na Terra
  • 1. Montenegro 49, 3° Andar
  • 2. A Música Começou!
  • 3. Três é Demais!
  • 4. Um Trio Televisivo
  • 5. O Irmão Que (Ainda) Não Sabia Que Era irmão
  • 6. Conexão Rio-Minas
  • 7. Pelas Noites do Rio
  • 8. De “Os Ipanemas” a Terra Trio
  • 9. Primeiro Ato
  • 10. Alcançando os Astros
  • 11. Sentidos Aflorados no Palco
  • 12. Repertório de Sucesso, para Ficar
  • 13. Tempos Difíceis
  • 14. Chegando na “Boite”
  • 15. Vai Rolar Show da Bethânia, Quer Assistir?
  • 16. Hermínio, Nara, e Sidney no Caminho
  • 17. Estúdio e Disco à Vista
  • 18. “Da Vila” em Ipanema
  • 19. Bethânia e Eliana
  • 20. No Palco Como na Vida
  • 21. Rosa dos Ventos
  • 22. Quem Sabe Faz ao Vivo
  • 23. Frio na Rua, Calor no Palco
  • 24. Matando os Ouvintes de Amor
  • 25. Cena Muda na Vila
  • 26. Tinha Bethânia, Mas Tinha Marisa
  • 27. Chico, Terra e Bethânia (E Cia.)
  • 28. No Fim, Ainda Tinha Sucesso – E Muito
  • 29. Noite Alta, Céu Risonho e… Velas na Pista
  • 30. Marisa Independente
  • 31. Projeto Pixinguinha
  • 32. Cabeça para Fora
  • 33. Fechando o Ciclo
  • 34. Teu Caminho é de Paz e Amor
  • 35. O Terra Trio Continua
  • Agradecimentos
  • Bibliografia

Resenhista

Luciana Requião é doutora em Educação pela UFF e Mestre em Música pela UNIRIO, professora do Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR/UFF) e do Programa de Pós-Graduação em Música da UNIRIO. Publicou, dentre outros, “Eis aí a Lapa…: processos e relações de trabalho do músico nas casas de shows da Lapa” (São Paulo: Annablume, 2010) e “Festa acabada, músicos a pé!”: um estudo crítico sobre as relações de trabalho de músicos atuantes no estado do Rio de Janeiro” (2016). ID: LATTES: http://lattes.cnpq.br/2687869588131721; ID ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0351-0578; Instagram: lucianareq; E-mail: [email protected].


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SCHOTT, Ricardo. Terra Trio [uma família musical com os pés na terra]. Rio de Janeiro: Sonora Editora, 2020. 312p. Resenha de: REQUIÃO, Luciana. Terra à vista. Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/terra-a-vista-resenha-de-luciana-requiao-sobre-o-livro-terra-trio-uma-familia-musical-com-os-pes-na-terra-de-ricardo-schott/>.

 


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024 | ISSN 2764-2666.

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