Vamos valsar? – Resenha de Anne Meyer (UNIRIO/UERJ) sobre a obra “Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas”, de Martha Tupinambá de Ulhoa

Martha Tupinambá de Ulhoa | Imagem: Unimontes

Resumo: Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro ao longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas de Martha Tupinambá de Ulhoa  investiga práticas musicais de entretenimento no Rio de Janeiro, especialmente a valsa. A obra contextualiza a valsa no século XIX, analisa figuras como Geraldo Horta e adaptações populares. Críticas apontam a erudição acadêmica.

Palavras-chave: valsa; Musicologia; Rio de Janeiro.


Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas, de Martha Tupinambá de Ulhoa (Editora Foglio Digital, 2022, 255 p.), é resultado de pesquisa sobre as práticas musicais ligadas ao entretenimento no Rio de Janeiro, em especial a valsa. O objetivo da obra é apresentar: “(1) contextualização geral sobre a valsa na sociedade fluminense de meados do século XIX, por meio de periódicos oitocentistas”; “(2) estudo preliminar do mundo da valsa de salão a partir do perfil de Geraldo Horta e seus entornos”; e “(3) estudo sobre a adaptação da valsa em modinhas em compasso ternário pelos músicos de rua nas últimas décadas do século XX, por meio de gravações do início do século, disponíveis no acervo on-line Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles” (p.20). Segundo a musicóloga Maria Alice Volpe, que o prefacia, “este livro vai te surpreender!” (p.13)

Os intelectuais brasileiros, incorporando a ideia da busca de uma identidade nacional, preferiram lançar seus olhares sobre os traços da brasilidade em nossa cultura, deixando de lado em suas pesquisas os gêneros artísticos baseados no estrangeirismo. O livro em questão supre esta lacuna ao apresentar os trânsitos de uma tipologia musical de origem alemã em terras cariocas. A maturidade de sua autora, pianista originária de Montes Claros/MG, com Master of Fine Artes na University of Florida e PhD em Musicology na Cornell University, atuante como docente no programa de pós-graduação em música da UNIRIO, com ênfase em estudos musicológicos históricos, a gabarita para abordar o tema proposto de forma ampla.

A obra, conforme a autora, é composta de um texto introdutório, cinco capítulos e um post-scriptum que podem ser lidos de forma isolada. No capítulo introdutório, é apresentada uma revisão bibliográfica sobre a temática do estudo, assim como os conceitos que norteiam o trabalho. A investigante define que o seu projeto “se insere no campo dos estudos da música popular pela perspectiva da musicologia, levando em conta tanto os elementos musicais estilísticos recorrentes da valsa quanto seus predicados culturais e afetivos” (p.39). A sua mais importante fonte de pesquisa foi a coleta de dados em periódicos da Hemeroteca Digital Brasileira (Biblioteca Nacional), dentre os quais, por questões metodológicas, foi focalizado principalmente o Diário do Rio de Janeiro na sua primeira fase (1821–1858). A pesquisadora se deteve sobre o estudo da valsa como música de entretenimento urbano e cosmopolita, um gênero musical constituído sobre a dicotomia musical erudito/popular, firmando o seu olhar na valsa como dança e música de salão (meados do século XIX) e como canção em compasso ternário adaptada pelos grupos de choros (final século XIX e início do XX). Para a autora, a valsa teria aportado no Brasil com a chegada da Família Real, ficando restrita aos salões da corte imperial. Posteriormente, o gênero seria adotado como música de salão pela classe média e abastada urbana. Aos poucos, a sua forma instrumental ganharia as ruas como canção, sendo incorporada a sua rítmica ternária no repertório modinheiro. Desta forma, se nacionalizou a valsa. No seu entorno se estabeleceu uma “rede de sociabilidade” composta por “compositores, editores, vendedores de instrumentos e partituras, professores, enfim, um mundo envolvido com a prática artística amadora e a emergente indústria do entretenimento” (p.35).

A autora divide o Capítulo segundo em quatro partes. A primeira apresenta uma síntese histórica sobre o desenvolvimento da musicologia. A segunda trata de estudos musicológicos baseados no processo de escuta musical. A terceira traz a competência da escuta como campo de significação do objeto sonoro a partir de uma multiplicidade de fatores. Discorre a pesquisadora sobre autonomia da música e fruição sonora, tendo em vista compor estratégias de abordagem para o estudo da valsa. No último segmento, a autora oferece a descrição de um experimento sobre a escuta da valsa, realizado junto a sua turma de pós-graduandos em música.

O Capítulo terceiro trata da utilização de periódicos como fonte de pesquisa, chamando a atenção sobre as minúcias da utilização dos registros hemerográficos para a compreensão de uma prática musical. Esta ação se inseriria na apropriação de recursos e metodologias das mais diversas áreas para a construção de um saber musicológico de caráter mais integrado e abrangente. A partir de experiência pessoal, apresenta o percurso prático de suas pesquisas em periódicos desde o ano de 2001, quando o corpo de dados de suas investigações se fazia oriundo de consultas presenciais em acervos microfilmados, passando pela criação da Hemeroteca Digital Brasileira, no ano de 2012, e chegando ao período atual. Ressalva ela a importância da escolha das palavras-chave utilizadas nas consultas e as consequências para a pesquisa dos resultados “falsos positivos” e “falsos negativos” dessas buscas. Defende a necessidade de implementar repositórios com acesso aberto que contenham não só os resultados finais das pesquisas, mas também os seus dados primários fundamentadores, objetivando que este material compartilhado com a comunidade acadêmica possa subsidiar novos trabalhos. Neste sentido traz a público a base de dados “Música em periódicos oitocentistas” (http://musica-sec-xix.unirio.br/) criado para atender à organização interna do trabalho de pesquisa de sua equipe na temática do estudo. Atualmente, tal repositório abriga também a coletânea de dados utilizados em sete outros projetos, com temáticas diversas e coordenados por outros pesquisadores.

O capítulo quarto nos traz a presença da valsa nos folhetins e em outras literaturas oitocentistas, abordando também algumas das características musicais do gênero em estudo. A autora estabelece três fases da história da valsa no Brasil: “um período inicial pós-1808, com a adoção da valsa nos salões da sociedade urbana emergente; sua popularização na segunda metade dos oitocentos; e, numa terceira fase, já no início do século XX, a consolidação da valsa com letra como canção amorosa” (p.112). A autora ilustra esta historiografia desvelando o burburinho social causado pela aproximação corporal dos casais na valsa-dança num contexto de repressão feminina.

O Capítulo quinto é dedicado ao pianista, professor de piano e compositor de valsas de salão Geraldo Antonio Horta (1835–1913), músico que suscitou destaque dentre as notas jornalísticas recolhidas pela autora. Persistiram ao tempo 35 de suas obras, dentre as quais, 23 valsas. Através da sua biografia, a escritora apresenta personagens e formas de sociabilidade que se estabeleciam no emergente mercado musical oitocentista fluminense. Seu texto transita por temas como a imprensa musical, a impressão e comercialização de partituras, além de conceituações sobre o tema biografia. Como anexo ao capítulo, temos uma relação das composições deste músico e reprodução de exemplares de duas de suas partituras (A moreninha e A violeta).

O capítulo sexto traz a modinha Nas horas mortas da noite (gravada por Mario Pinheiro, em 1906) para apresentar as características estilísticas e de prosódia desse gênero musical. A escolha do exemplar recaiu sobre a existência de “um material significativo” sobre a mesma, o que permitiu conhecer o seu trânsito e recepção em diferentes épocas e locais de performance. Para a pesquisa autoral, a autora se pautou no acervo Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles. Alguns links deste repositório referentes a “modinhas valseadas gravadas por Mario Pinheiro entre 1904 e 1906” são indicados para escuta ao final do capítulo.

“Nas horas mortas da noite” – Mário Pinheiro – Piano (1906) | Imagem: Canal Som em Bom Tom

O capítulo final traz a experiência pessoal da pesquisadora no tocante aos temas competência e escuta musical. Salienta ela que a sua obra é resultado de uma musicologia derivada da escuta/recepção musical que, apoiada em ferramentas das disciplinas da área das humanidades, intenta apreender o significado de repertórios ligados a diversos gêneros musicais. Ela reforça, ainda, a compreensão de que a pesquisa em periódicos se apresenta como um campo rico para a pesquisa em artes.

O ineditismo da temática do estudo e a sua abordagem, na qual discute questões como “popularidade”, música “brasileira” e “popular brasileira”, são contributos eficientes para que sejam reconsiderados outros objetos culturais que ainda permaneçam em demérito em nossos compêndios. Não se trata de um livro de entretenimento para o público comum. Destina-se à intelectualidade acadêmica. Por este mesmo motivo, haveria espaço para maiores aprofundamentos teóricos e analíticos.

Ao apresentar aspectos do abrasileiramento de elementos musicais da valsa alemã, movimento estabelecido através do cancioneiro seresteiro dos chorões do século XIX, e das influências de suas modinhas no gênero germânico, que viriam a se consolidar na denominada “valsa brasileira”, demonstra a autora os trânsitos artísticos que consolidaram a cultura musical nacional. Neste sentido, supera ela a dicotomia que deixou apartado dos cânones musicais brasileiros alguns gêneros musicais de grande disseminação em nosso território.

O livro em questão cumpre os objetivos propostos pela autora e permite ao leitor interessado na arte nacional aprofundar-se na historiografia de um gênero musical que ainda hoje é recorrente no nosso cancioneiro. Trata-se de uma obra de vulto, de interesse àqueles que desejem vislumbrar o panorama artístico musical brasileiro e seus agentes ao longo do século XIX. Por todo o exposto, recomendamos a sua leitura.

Sumário de Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas.

  • Agradecimentos
  • Prefácio
  • À guisa de introdução – entre o relatório de pesquisa e o ensaio.
  • 1. Prelúdio ao estudo de gêneros musicais do passado
  • 2. A “prova e o motivo do crime”. Uma introdução à pesquisa com periódicos
  • 3. Nos volteios da valsa. Música, gênero e sociedade nos folhetins de rodapé do    Diário do Rio de Janeiro (1821-1858)
  • 4. Geraldo Horta. Pianista, professor de piano e compositor de valsas de salão.
  • 5. Da valsa à modinha. A trajetória das Nas horas mortas da noite.
  • Post-scriptum. Avaliando o processo

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Resenhista

Anne Meyer é doutora em Documentação e História da Música e mestre em Praticas Interpretativas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Bacharel em Música (Canto) e em Administração de Empresas, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro do Grupo de Estudo Cultura, Trabalho e Educação, da Universidade Federal Fluminense (GECULT/UFF), servidora aposentada do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e doutoranda em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Entre outros trabalhos, publicou: A construção musical da feminilidade na ópera Il Gurany (Carlos gomes) e Vera Janacopulos – A arte da interpretação.  ID LATTES:  http://lattes.cnpq.br/5827133540969330; ID ORCID:  https://orcid.org/0000-0001-5499-5275; Site: www.annemeyer.com.br / Email: [email protected].


Para citar esta resenha

ULHOA, Martha Tupinambá. Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas. [Rio de Janeiro]: Foglio Digital, 2022. 255p. Resenha de: MEYER, Anne. Vamos valsar? Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/vamos-valsar-resenha-de-anne-meyer-uff-uerj-sobre-a-obra-aspectos-sobre-a-valsa-no-rio-de-janeiro-no-longo-do-seculo-xix-de-folhetins-musica-de-salao-e-serestas-de-ma/>.

 


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n. 17, maio/jun., 2023 | ISSN 2764-2666

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Martha Tupinambá de Ulhoa | Imagem: Unimontes

Resumo: Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro ao longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas de Martha Tupinambá de Ulhoa  investiga práticas musicais de entretenimento no Rio de Janeiro, especialmente a valsa. A obra contextualiza a valsa no século XIX, analisa figuras como Geraldo Horta e adaptações populares. Críticas apontam a erudição acadêmica.

Palavras-chave: valsa; Musicologia; Rio de Janeiro.


Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas, de Martha Tupinambá de Ulhoa (Editora Foglio Digital, 2022, 255 p.), é resultado de pesquisa sobre as práticas musicais ligadas ao entretenimento no Rio de Janeiro, em especial a valsa. O objetivo da obra é apresentar: “(1) contextualização geral sobre a valsa na sociedade fluminense de meados do século XIX, por meio de periódicos oitocentistas”; “(2) estudo preliminar do mundo da valsa de salão a partir do perfil de Geraldo Horta e seus entornos”; e “(3) estudo sobre a adaptação da valsa em modinhas em compasso ternário pelos músicos de rua nas últimas décadas do século XX, por meio de gravações do início do século, disponíveis no acervo on-line Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles” (p.20). Segundo a musicóloga Maria Alice Volpe, que o prefacia, “este livro vai te surpreender!” (p.13)

Os intelectuais brasileiros, incorporando a ideia da busca de uma identidade nacional, preferiram lançar seus olhares sobre os traços da brasilidade em nossa cultura, deixando de lado em suas pesquisas os gêneros artísticos baseados no estrangeirismo. O livro em questão supre esta lacuna ao apresentar os trânsitos de uma tipologia musical de origem alemã em terras cariocas. A maturidade de sua autora, pianista originária de Montes Claros/MG, com Master of Fine Artes na University of Florida e PhD em Musicology na Cornell University, atuante como docente no programa de pós-graduação em música da UNIRIO, com ênfase em estudos musicológicos históricos, a gabarita para abordar o tema proposto de forma ampla.

A obra, conforme a autora, é composta de um texto introdutório, cinco capítulos e um post-scriptum que podem ser lidos de forma isolada. No capítulo introdutório, é apresentada uma revisão bibliográfica sobre a temática do estudo, assim como os conceitos que norteiam o trabalho. A investigante define que o seu projeto “se insere no campo dos estudos da música popular pela perspectiva da musicologia, levando em conta tanto os elementos musicais estilísticos recorrentes da valsa quanto seus predicados culturais e afetivos” (p.39). A sua mais importante fonte de pesquisa foi a coleta de dados em periódicos da Hemeroteca Digital Brasileira (Biblioteca Nacional), dentre os quais, por questões metodológicas, foi focalizado principalmente o Diário do Rio de Janeiro na sua primeira fase (1821–1858). A pesquisadora se deteve sobre o estudo da valsa como música de entretenimento urbano e cosmopolita, um gênero musical constituído sobre a dicotomia musical erudito/popular, firmando o seu olhar na valsa como dança e música de salão (meados do século XIX) e como canção em compasso ternário adaptada pelos grupos de choros (final século XIX e início do XX). Para a autora, a valsa teria aportado no Brasil com a chegada da Família Real, ficando restrita aos salões da corte imperial. Posteriormente, o gênero seria adotado como música de salão pela classe média e abastada urbana. Aos poucos, a sua forma instrumental ganharia as ruas como canção, sendo incorporada a sua rítmica ternária no repertório modinheiro. Desta forma, se nacionalizou a valsa. No seu entorno se estabeleceu uma “rede de sociabilidade” composta por “compositores, editores, vendedores de instrumentos e partituras, professores, enfim, um mundo envolvido com a prática artística amadora e a emergente indústria do entretenimento” (p.35).

A autora divide o Capítulo segundo em quatro partes. A primeira apresenta uma síntese histórica sobre o desenvolvimento da musicologia. A segunda trata de estudos musicológicos baseados no processo de escuta musical. A terceira traz a competência da escuta como campo de significação do objeto sonoro a partir de uma multiplicidade de fatores. Discorre a pesquisadora sobre autonomia da música e fruição sonora, tendo em vista compor estratégias de abordagem para o estudo da valsa. No último segmento, a autora oferece a descrição de um experimento sobre a escuta da valsa, realizado junto a sua turma de pós-graduandos em música.

O Capítulo terceiro trata da utilização de periódicos como fonte de pesquisa, chamando a atenção sobre as minúcias da utilização dos registros hemerográficos para a compreensão de uma prática musical. Esta ação se inseriria na apropriação de recursos e metodologias das mais diversas áreas para a construção de um saber musicológico de caráter mais integrado e abrangente. A partir de experiência pessoal, apresenta o percurso prático de suas pesquisas em periódicos desde o ano de 2001, quando o corpo de dados de suas investigações se fazia oriundo de consultas presenciais em acervos microfilmados, passando pela criação da Hemeroteca Digital Brasileira, no ano de 2012, e chegando ao período atual. Ressalva ela a importância da escolha das palavras-chave utilizadas nas consultas e as consequências para a pesquisa dos resultados “falsos positivos” e “falsos negativos” dessas buscas. Defende a necessidade de implementar repositórios com acesso aberto que contenham não só os resultados finais das pesquisas, mas também os seus dados primários fundamentadores, objetivando que este material compartilhado com a comunidade acadêmica possa subsidiar novos trabalhos. Neste sentido traz a público a base de dados “Música em periódicos oitocentistas” (http://musica-sec-xix.unirio.br/) criado para atender à organização interna do trabalho de pesquisa de sua equipe na temática do estudo. Atualmente, tal repositório abriga também a coletânea de dados utilizados em sete outros projetos, com temáticas diversas e coordenados por outros pesquisadores.

O capítulo quarto nos traz a presença da valsa nos folhetins e em outras literaturas oitocentistas, abordando também algumas das características musicais do gênero em estudo. A autora estabelece três fases da história da valsa no Brasil: “um período inicial pós-1808, com a adoção da valsa nos salões da sociedade urbana emergente; sua popularização na segunda metade dos oitocentos; e, numa terceira fase, já no início do século XX, a consolidação da valsa com letra como canção amorosa” (p.112). A autora ilustra esta historiografia desvelando o burburinho social causado pela aproximação corporal dos casais na valsa-dança num contexto de repressão feminina.

O Capítulo quinto é dedicado ao pianista, professor de piano e compositor de valsas de salão Geraldo Antonio Horta (1835–1913), músico que suscitou destaque dentre as notas jornalísticas recolhidas pela autora. Persistiram ao tempo 35 de suas obras, dentre as quais, 23 valsas. Através da sua biografia, a escritora apresenta personagens e formas de sociabilidade que se estabeleciam no emergente mercado musical oitocentista fluminense. Seu texto transita por temas como a imprensa musical, a impressão e comercialização de partituras, além de conceituações sobre o tema biografia. Como anexo ao capítulo, temos uma relação das composições deste músico e reprodução de exemplares de duas de suas partituras (A moreninha e A violeta).

O capítulo sexto traz a modinha Nas horas mortas da noite (gravada por Mario Pinheiro, em 1906) para apresentar as características estilísticas e de prosódia desse gênero musical. A escolha do exemplar recaiu sobre a existência de “um material significativo” sobre a mesma, o que permitiu conhecer o seu trânsito e recepção em diferentes épocas e locais de performance. Para a pesquisa autoral, a autora se pautou no acervo Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles. Alguns links deste repositório referentes a “modinhas valseadas gravadas por Mario Pinheiro entre 1904 e 1906” são indicados para escuta ao final do capítulo.

“Nas horas mortas da noite” – Mário Pinheiro – Piano (1906) | Imagem: Canal Som em Bom Tom

O capítulo final traz a experiência pessoal da pesquisadora no tocante aos temas competência e escuta musical. Salienta ela que a sua obra é resultado de uma musicologia derivada da escuta/recepção musical que, apoiada em ferramentas das disciplinas da área das humanidades, intenta apreender o significado de repertórios ligados a diversos gêneros musicais. Ela reforça, ainda, a compreensão de que a pesquisa em periódicos se apresenta como um campo rico para a pesquisa em artes.

O ineditismo da temática do estudo e a sua abordagem, na qual discute questões como “popularidade”, música “brasileira” e “popular brasileira”, são contributos eficientes para que sejam reconsiderados outros objetos culturais que ainda permaneçam em demérito em nossos compêndios. Não se trata de um livro de entretenimento para o público comum. Destina-se à intelectualidade acadêmica. Por este mesmo motivo, haveria espaço para maiores aprofundamentos teóricos e analíticos.

Ao apresentar aspectos do abrasileiramento de elementos musicais da valsa alemã, movimento estabelecido através do cancioneiro seresteiro dos chorões do século XIX, e das influências de suas modinhas no gênero germânico, que viriam a se consolidar na denominada “valsa brasileira”, demonstra a autora os trânsitos artísticos que consolidaram a cultura musical nacional. Neste sentido, supera ela a dicotomia que deixou apartado dos cânones musicais brasileiros alguns gêneros musicais de grande disseminação em nosso território.

O livro em questão cumpre os objetivos propostos pela autora e permite ao leitor interessado na arte nacional aprofundar-se na historiografia de um gênero musical que ainda hoje é recorrente no nosso cancioneiro. Trata-se de uma obra de vulto, de interesse àqueles que desejem vislumbrar o panorama artístico musical brasileiro e seus agentes ao longo do século XIX. Por todo o exposto, recomendamos a sua leitura.

Sumário de Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas.

  • Agradecimentos
  • Prefácio
  • À guisa de introdução – entre o relatório de pesquisa e o ensaio.
  • 1. Prelúdio ao estudo de gêneros musicais do passado
  • 2. A “prova e o motivo do crime”. Uma introdução à pesquisa com periódicos
  • 3. Nos volteios da valsa. Música, gênero e sociedade nos folhetins de rodapé do    Diário do Rio de Janeiro (1821-1858)
  • 4. Geraldo Horta. Pianista, professor de piano e compositor de valsas de salão.
  • 5. Da valsa à modinha. A trajetória das Nas horas mortas da noite.
  • Post-scriptum. Avaliando o processo

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Resenhista

Anne Meyer é doutora em Documentação e História da Música e mestre em Praticas Interpretativas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Bacharel em Música (Canto) e em Administração de Empresas, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro do Grupo de Estudo Cultura, Trabalho e Educação, da Universidade Federal Fluminense (GECULT/UFF), servidora aposentada do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e doutoranda em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).  Entre outros trabalhos, publicou: A construção musical da feminilidade na ópera Il Gurany (Carlos gomes) e Vera Janacopulos – A arte da interpretação.  ID LATTES:  http://lattes.cnpq.br/5827133540969330; ID ORCID:  https://orcid.org/0000-0001-5499-5275; Site: www.annemeyer.com.br / Email: [email protected].


Para citar esta resenha

ULHOA, Martha Tupinambá. Aspectos sobre a valsa no Rio de Janeiro no longo do século XIX: de folhetins, música de salão e serestas. [Rio de Janeiro]: Foglio Digital, 2022. 255p. Resenha de: MEYER, Anne. Vamos valsar? Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n.17, maio/jun., 2024. Disponível em <https://www.criticahistoriografica.com.br/vamos-valsar-resenha-de-anne-meyer-uff-uerj-sobre-a-obra-aspectos-sobre-a-valsa-no-rio-de-janeiro-no-longo-do-seculo-xix-de-folhetins-musica-de-salao-e-serestas-de-ma/>.

 


© – Os autores que publicam em Crítica Historiográfica concordam com a distribuição, remixagem, adaptação e criação a partir dos seus textos, mesmo para fins comerciais, desde que lhe sejam garantidos os devidos créditos pelas criações originais. (CC BY-SA).

 

Crítica Historiográfica. Natal, v.4, n. 17, maio/jun., 2023 | ISSN 2764-2666

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